Abertura d’ ‘As Conferências do Museu’: D. Nuno Brás quer continuar a valorizar património da Igreja 

Foto: Duarte Gomes

Teve início esta sexta-feira, dia 8 de março, a terceira edição d’ ‘As Conferências do Museu’, promovidas pelo Museu de Arte Sacra do Funchal (MASF) cujo tema – Mediações: Aprendizagem, Património e Museus – está associado às reflexões de natureza educativa, em torno da arte e do património. Uma escolha que nasceu da aproximação à celebração dos 25 anos da fundação do Serviço Educativo no MASF, o mais antigo da Madeira

A abertura das conferências contou com a presença de D. Nuno Brás, que participou no evento pela primeira vez, e que na sua intervenção, valorizou a importância das mesmas “não apenas para o Museu de Arte Sacra do Funchal”,  mas “para a cultura na nossa ilha”.

Definindo como património a herança que recebemos dos nossos nossos pais e que faz parte da nossa identidade, o prelado disse que “nunca ninguém foi tão revolucionário que conseguisse passar sem algo que o ligasse àqueles que o precederam”, também no que a esta questão diz respeito e ainda que “toda esta realidade seja uma realidade viva” e a que nos “tenhamos de adaptar, acomodar e enriquecer”.

Neste contexto, defendeu a importância de “não desligarmos o património da vida”, porque se assim for o património passa a ser “uma realidade morta”. Esse é, de resto, um risco e “tristemente a realidade de tantos museus que se tornam simplesmente repositórios de património, por muito bonito que ele seja”.

No museu, disse, “não está simplesmente aquilo que é expressão de um indivíduo, mas está presente o que faz sentido para determinada cultura, aquilo em que ela se revê e expressa e que por isso mesmo é colocado à disposição de todos”, frisou.

Quanto a refletir sobre património e educação, o prelado diz que esta é “uma questão urgente”. Educar, disse, é ajudar alguém a expressar sentimentos, ideias, gostos, visão do mundo e a saber colocar a “questão que nos marca como seres humanos: por quê?” e procurar as muitas respostas.

Património como convite à fé

Antes desta intervenção, em declarações aos jornalistas, o prelado falou dos seus projetos para a área do património, sublinhando que eles passam “essencialmente por colocar esse património, não apenas em termos de exposição cultural, como tem sido feito e “bastante bem feito”, mas também de “mostrar que esse património é uma expressão da fé” e também “um convite à fé dos que nos visitam”.

Sobre a questão de deixar ou não determinadas peças em capelas e igrejas, e do risco que isso pode representar, D. Nuno Brás sublinha que “o património é sempre vulnerável, são coisas passageiras”. A este respeito acrescentou que “não podemos ser fundamentalistas, tudo aquilo que existe, nasceu, existe e desaparece. Agora, claro, que vamos preservar o máximo possível, mas tendo sempre em conta que este património não foi feito simplesmente como uma obra de arte, foi feito como uma obra de arte para o culto, e portanto estaríamos a desvirtuar o património se o retirássemos do culto”.

O bispo do Funchal disse ainda saber que há um levantamento do património existente na Madeira, que está “bastante bem feito”, mas confessa que ainda não teve tempo para se debruçar, a fundo, sobre esta matéria.

Quanto à questão da preservação e da partilha de responsabilidades neste âmbito entre a Igreja e o Governo Regional, D. Nuno Brás diz que em “equipa que ganha não se mexe”. Neste aspeto, crê, “as coisas estão a andar bastante bem, seja no sentido do Governo Regional assumir a responsabilidade de que estas realidades não são simplesmente eclesiáticas, porque de facto é património de toda a ilha, é património da própria sociedade madeirense e numa colaboração muito grande da diocese no sentido de perceber que este património sacro ultrapassa também a sua própria dimensão, para ser um património também da própria sociedade madeirense.” A igreja, garante, “tem assumido e vai continuar  a assumir o papel de fiel depositária de todo este património”.

25 anos de Serviço Educativo

Como já se disse, o MASF tem o serviço educativo mais antigo da Madeira, em termos de museus, estando prestes a completar 25 anos. Cerca de 3.000 pessoas passam por ano neste serviço. Trata-se de um público muito diversificado conforme revelou João Henrique Silva, o director do Museu, que se referiu à actividade deste serviço como “fundamental para o museu ser mais e melhor conhecido”, afirmou.

Quanto à iniciativa ‘As Conferências do Museu’,  João Henrique Silva explicou que foram criadas para “alargar a presença do Museu na sociedade, na cidade, junto do público e para criar porventura novos públicos”. O museu não se quis ficar pelo trabalho tradicional de salvaguardar, dar visibilidade e comunicar a colecção. “Era importante criar um evento que, no fundo, faça do Museu também um centro cultural que irradia conhecimento, e tem uma interface com a sociedade, através do público que procura aprofundar o seu conhecimento sobre as artes e a actividade artística”.

As conferências foram a forma encontrada de “criar um espaço de reflexão, diálogo e partilha de conhecimentos, fazendo vir ao museu pessoas que têm verdadeiro conhecimento esta área”. Uma aposta que em dão resultado, até pelo número de inscritos para participar nestas iniciativas, que normalmente ultrapassam a meia centena.

Esta terceira edição das conferências, organizadas em dois painéis temáticos – Mediações educativas em museus e Educação patrimonial para todos – termina este sábado.