Caminhar juntos: “enviados em missão” sem “bezerros de ouro”

D.R.

Na festa da Apresentação da Virgem Maria no Templo, na homilia, o Papa Francisco disse aos fiéis que a Igreja não deve ser “casa de negócios”, porque a redenção de Jesus é sempre gratuita. “A Liturgia propõe a passagem evangélica na qual Jesus expulsa os vendilhões do Templo, que transformam a casa de oração em covil de ladrões. Este gesto de Jesus é um verdadeiro ato de purificação: o Templo tinha sido profanado e, como tal, também o Povo de Deus, profanado com o grande pecado do escândalo… O Povo de Deus ia ao Templo, não por causa daqueles profanadores e vendedores, mas para encontrar Deus. Porém, deparava-se com a ‘corrupção’ que escandalizava”.

O Papa referiu o mesmo tipo de comportamento que pode escandalizar o povo: as atitudes não sacerdotais no Templo, o comércio e o mundanismo. “Quantas vezes, ao entrarmos na igreja, nos confrontamos com uma lista de preços: casamentos, batizados, bênçãos, intenções de Missa? E o povo escandaliza-se…” E Francisco foi ainda mais claro: “Quando aqueles que estão no Templo – sejam sacerdotes ou leigos – se transformam em homens de negócios, o povo escandaliza-se. E todos somos responsáveis por isto. Os leigos, inclusive! Porque se vejo que isso acontece na minha paróquia, devo ter a coragem de o dizer diretamente ao pároco. É curioso: o povo de Deus perdoa aos sacerdotes que apresentam alguma fraqueza,… Mas há duas coisas que o povo de Deus não perdoa: um padre agarrado ao dinheiro e um padre que maltrata as pessoas”.

O coordenador nacional dos Centros Juvenis Salesianos de Espanha, padre Santi Dominguez, disse que “os jovens pedem coerência à Igreja”. “Acredito que qualquer jovem pede à Igreja que seja próxima, que os escute e acompanhe quando têm decisões importantes a tomar, que lhes dê espaços de crescimento pessoal e em grupo”. De acordo com o mundo atual e com os problemas de hoje”, referiu.

O sacerdote vê o Papa Francisco como uma referência para a juventude, para os jovens crentes ou até para aqueles que andam mais afastados. “O Papa Francisco fala de forma que todos entendem, passa uma imagem mais fresca, natural e próxima; acompanha as palavras com gestos”, referiu. Nós, os padres, lamentamo-nos porque que as igrejas estão vazias e que os jovens, depois do crisma “piram-se” da Igreja. E não será culpa nossa?…

Vêem no padre uma figura que diz muita coisa bonita, mas não se safa de ser como os outros na falta de testemunho e paixão por Jesus de Nazaré. Vêem-no, como diz o Papa Francisco, tendo como ídolos “o sucesso, o poder e o dinheiro” que escravizam. O Pontífice, referindo-se ao Livro do Êxodo, denuncia a tentação do povo de Deus que diante da precariedade do deserto procura um deus à sua medida, uma religião “faça você mesmo”.

O “sucesso, poder e dinheiro” são “os grandes ídolos, as tentações de sempre” que se encontram representadas no bezerro de ouro. É “o símbolo de todos os desejos que dão a ilusão da liberdade mas escravizam, porque o ídolo escraviza sempre”.

“A referência a Deus torna-nos fortes na fragilidade, na incerteza e até na precariedade”. Ao contrário, “sem a primazia de Deus caímos facilmente na idolatria, afirma o Papa

Reconhecer a própria fragilidade não é a desgraça da vida humana, mas é a condição para abrir-se Àquele que é verdadeiramente forte”. Com efeito, «fomos curados precisamente através da fragilidade de um homem que era Deus, pelas suas chagas. E a partir das nossas debilidades podemos abrir-nos à salvação de Deus», concluiu. Abrir-nos para a alegria de anunciar e testemunhar apaixonadamente o Jesus de Nazaré.

O bispo da Diocese de Viana do Castelo, D. Anacleto Oliveira, alerta numa Carta Pastoral – setembro 2018 – para o perigo da “contradição” entre o discurso e a prática dos católicos. “Talvez, uma das razões principais da falta de evangelização ou do seu fracasso na Igreja de hoje, incluindo a nossa Diocese, seja a contradição entre o que se prega e o que se faz, ou entre o que se diz e o modo como é dito”. Pede uma Igreja evangelizadora e acolhedora.

O bispo de Vila Real, D. Amândio Tomás realça que o cristão “não vive, nem anuncia Jesus Cristo”, sem a oração de ação de graças, sem a Eucaristia e o Domingo, “e sem o empenho da caridade, em prol dos outros, em todas as circunstâncias”.

“O ardor missionário exige labor, oração, conversão do coração, prática sacramental, o arrependimento dos pecados, o amor e solidariedade, com os frágeis e excluídos.

E recordo ainda as palavras de D. António Carrilho, quando bispo do Funchal, escritas no texto «Ser cristão, Viver em Missão»: “Ninguém pode ficar de fora nesta caminhada comum de redescobrir e viver e beleza da nossa vocação batismal e a alegria de testemunhar Cristo no mundo. Ser batizado é sempre e ao mesmo tempo uma exigência de viver a fé e a consciência de ser enviado em missão”. Salvamo-nos, salvando os outros.