A receita de João Hospitaleiro para a Quaresma

D.R.

Quaresma e festa de S. João de Deus obrigam a recordar e agir. Os tempos em que S. João de Deus viveu não foram fáceis, nem a sua vida foi isenta de tempestades. Cedo ficou privado de pais, frustrado de contratempos da vida de soldado em vez de glórias, anos obscuros à procura de rumo a tomar e tentativa em cruzada de defesa contra muçulmanos em Viena numa Europa a fervilhar de dissensões protestantes. Nas suas cartas aparece, talvez por isso, uma clara profissão de fé: acreditar em tudo o que professa e crê a Santa Madre Igreja (carta 2 GL 12). Da sua procura faz parte uma peregrinação a S. Tiago de Compostela, a busca perdida de rever os pais em Montemor-o-Novo, um salto a Ceuta, um apoio heroico a uma família desesperada nesse exíliouma crise de perda de fé de companheiro e a tentação de o ir salvar do lado dos muçulmanos. Um conselheiro evitou o risco de ele perder a fé e orientou-o para mais oração, em Gibraltar. Tardava, porém, a encontrar a receita para os seus males de busca, ele que iria ser chamado a curar as feridas alheias numa Granada semeada de pobres e doentes. Só quando o santo João de Ávila, com sangue hebreu, lhe fala de Cristo que cura as feridas de quem dele se aproxima é que pede e aceita a receita da misericórdia.

Depois de cura espiritual voluntária no manicómio real torna-se curador de feridos com misericórdia hospitaleira de tantos sem abrigo. Na sua hospitalidade de curado curador o primeiro ingrediente é Jesus Cristo em quem ele confia acima de tudo e a quem fala em oração incessante. Não faltaram na receita os pobres e doentes abandonados a quem ele aplica a sua ação contínua. Nos meios de ajuda recebidos da sua família de benfeitores, voluntários e outros colaboradores, mistura, em partes iguais, a misericórdia divina, a fé e a oração, dele, e dos que se lhe associam.

Os tempos eram conturbados: havia a Reforma, muitos mestres em nome próprio, os escândalos na Igreja, os ataques do Islão à Europa da cristandade, agora com mais lugar para as modernidades que para Deus. As expressões grandiosas das artes, letras e ciências davam mais predomínio à confiança nos recursos antropocêntricos que nos teocêntricos.

Para decifrar o sentido da palavra de Deus dispensavam-se os mediadores escolhidos por Cristo. Sola Scriptura bastava, como cada um a entendesse. Alastravam sempre mais as correntes de pensamento moderno (ista) e, com elas, os conflitos contaminados por ideologias pagãs que levaram a guerras e inquisições de vários rótulos no sul, centro e norte. Os pastores e os rebanhos multiplicavam-se; esquecia-se a palavra: e «ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor» (Jo10,16). A modernidade nem sempre aproximava dos irmãos pobres e miseráveis. Atraíam mais a filosofia grega e a teologia da prosperidade do Velho Testamento que Cristo pobre na cruz. Seduziam as doutrinas que abençoam os sábios e ricos de sucesso mundano, e esquecem os pobres das ruas a quem até as bênçãos de Deus parecem abandonar. Para João, eram outros cristos os doentes e pobres da rua e de casebres, as crianças enjeitadas, as mulheres de vida perdida, os presos em relações de ódio violento, os chamados “indignos”, os mouriscos discriminados. Nobres e ricos, os boticários, o arcebispo e os capelães do seu hospital eram todos bem-vindos à sua família de irmãos e irmãs. Todos são parte desse único rebanho e estão todos aos cuidados desse Pastor e de seus seguidores. A missão de João era viver essa palavra, lembrá-la a todos os seus parceiros e utentes, pobres e doentes. Era o que ele fazia mesmo quando alguns lhe diziam que ele acreditava demasiado nas histórias dos pobres indignos que o enganavam a pedir esmola. «Peço por amor de Deus, dão-me por amor de Deus, pedem-me por amor de Deus, dou por amor de Deus, o resto é com eles».

A vida e prática de João centravam-se em Cristo, em quem ele confiava como em mais ninguém; e, chegados a Cristo, colocava os pobres, doentes e todos os malvistos das periferias da abundância. João, Cristo, os pobres-doentes e benfeitores eram o seu triângulo curador: receita de fé confiante, de amor misericordioso e de humilde ação. O seu modelo de Quaresma era de oração, jejum e esmola com obras (Cf. Papa Francisco, Mensagem da Quaresma).

Funchal, Quaresma e Festa de S. João de Deus, 2019