Igreja: Desafios à Igreja no mundo atual

D.R.

“A humanidade está numa viragem histórica evidente no progresso que se verifica, quando contribui para o bem-estar das pessoas na saúde, na educação e na comunicação. No entanto a alegria de viver muitas vezes é precária. Aumentam as doenças, cresce a falta de respeito, a violência e a desigualdade social fazendo aparecer o medo e o desespero no coração das pessoas” (EG 52).

Não à economia de exclusão

Como o mandamento «não matar» põe um limite para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não se pode tolerar lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome.

Não se pode tolerar a lei do mais forte, criando “bolsas” de população excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem horizontes, num beco sem saída. Assim teve início a “cultura do descartável”: “O ser humano é considerado um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora”.

Uma crise antropológica

A crise financeira, tem sua base numa crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criámos novos ídolos. O fetichismo do dinheiro e a ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo humano. Este é reduzido apenas ao consumo.
Os lucros de poucos crescem exponencialmente, e os da maioria estão cada vez mais longe do bem-estar dessa minoria feliz. Surge uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta com dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter é sem limites.

O dinheiro é para servir

Esta atitude baseia-se na rejeição da ética e na recusa de Deus. A ética inspira um desprezo sarcástico; é considerada contraproducente, demasiado humana, pois relativiza o dinheiro e o poder. É uma ameaça, porque condena a manipulação e degradação da pessoa.

Deus é considerado perigoso, na medida em que chama o ser humano à sua plena realização e à independência de qualquer tipo de escravidão. «Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos “. (São João Crisóstomo, In Lazarum, II, 6)

Os ricos devem ajudar os pobres

O dinheiro é para servir! O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los.(EG 58)

A exclusão e a desigualdade nas sociedades e povos geram a violência. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir a tranquilidade. (EG 59) A violência potencializa-se quando os excluídos veem crescer a corrupção nos seus Governos, empresários e instituições. (EG 60)

Desafios culturais

Os desafios à evangelização manifestam-se por vezes em verdadeiros ataques à liberdade religiosa ou em perseguição aos cristãos, que, nalguns países, atingiram hoje níveis alarmantes de ódio e violência, de um autêntico genocídio.

“A fé católica de muitos povos encontra-se hoje perante o desafio da proliferação de novos movimentos religiosos, alguns tendentes ao fundamentalismo e outros que parecem propor uma espiritualidade sem Deus.” (EG 63)

A secularização

O processo de secularização tende a reduzir a fé e a Igreja ao âmbito privado e íntimo. Vivemos numa sociedade da informação que nos satura com imensos dados, e acaba por nos conduzir a uma tremenda superficialidade no momento de enquadrar as questões morais.

Apesar de toda a corrente secularista que invade a sociedade, em muitos países – onde o cristianismo está em minoria – a Igreja Católica é uma instituição credível perante a opinião pública, fiável no que diz respeito ao âmbito da solidariedade e preocupação pelos mais indigentes. Sobretudo na saúde, educação no mundo inteiro – escolas e universidades.

A crise na família

A família atravessa uma crise profunda. A fragilidade dos vínculos reveste-se aqui de especial gravidade, porque se trata da célula básica da sociedade. O matrimónio tende a ser visto como mera forma de gratificação afetiva, que pode constituir-se ou modificar-se de acordo com a sensibilidade de cada um. O individualismo pós-moderno e globalizado debilita o desenvolvimento e a estabilidade dos vínculos entre as pessoas e distorce os vínculos familiares.

Perante as guerras e conflitos, nós, cristãos, insistimos na proposta de reconhecer o outro, de curar as feridas, de construir pontes, de estreitar laços e de nos ajudarmos «a carregar as cargas uns dos outros» (Gal 6, 2).

Onde os valores cristãos ocidentais?

O substrato cristão dalguns povos – sobretudo ocidentais – carece de uma realidade viva. Encontramos, especialmente nos mais necessitados, uma reserva moral que guarda valores de autêntico humanismo cristão. Receberam o batismo e exprimem de variadas maneiras a sua fé e solidariedade fraterna.

Nestes há que: acompanhar, cuidar e fortalecer a riqueza que já existe e, nos países de outras tradições religiosas ou secularizados, há que procurar novos processos de evangelização. Há fragilidades que precisam ainda de ser curadas: o machismo, o alcoolismo, a violência doméstica, escassa participação na liturgia, crenças fatalistas ou supersticiosas e outras (EG 69). E os abusos sexuais a menores na Igreja, na família e em instituições da sociedade moderna.

O desafio nas cidades

Descubramos Deus habitando na “pólis”, nas cidades: nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças. A presença de Deus está nos que promovem a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça. Deus não Se esconde de quantos O buscam com coração sincero. (EG 71)

As cidades são cenário de protestos em massa, onde milhares de habitantes reclamam liberdade, participação, justiça e várias reivindicações… “Nas cidades, facilmente se desenvolve o tráfico de drogas e de pessoas, o abuso e a exploração de menores, o abandono de idosos e doentes, várias formas de corrupção e crime.” (EG 75)

Um mundo doente a precisar de gestos e atitudes evangélicas para recuperar a saúde.