Vozes, palavras e líderes em tempo de mudança de Bispo

Duccio, Chamamento de Pedro e André (det.) | National Gallery of Art, Washington, EUA

A sociedade e as comunidades nacionais atuais estão bastante fragmentadas. Proliferam e multiplicam-se vagas de tribos atuais quando se esperaria encontrar sociedades organizadas para o bem comum e a solidariedade.

Abundam cabecilhas que não cessam de se constituírem chefezinhos autoritários a levantar a voz e impor as suas crenças de tribo. Será que a sociedade de cidadãos se está a quebrar em mil pedaços e a ficar reduzida a pequenas ditaduras individualistas? Debatem-se inúmeras visões de como deve ser a sociedade, mas não se acerta muito. Os antropólogos e sociólogos têm amplo campo de análise das diferenças ente as tribos primitivas e as atuais, entre estas e a macro-sociedade organizada de cidadãos civilizados. Inúmeras parcelas da sociedade se desintegram e assumem comportamentos emocionais, agressivos e destrutivos de tribos primitivas. Estão aí as cenas de divisões nos partidos políticos, nacionais, europeus e internacionais, nos clubes de futebol, blocos, uniões e federações, nas espiritualidades, Igrejas e religiões. Atingem questões banais ou fraturantes, casamentos gays, género, etc. Estão presentes nas fações da UE, nas polémicas do Brexit (Clara Ferreira Alves) e dos Estados Unidos, nos sindicatos e grupos profissionais.

O mito bíblico de Babel (Gen 11, 1-9) parece descrever os dois aspetos deste novo tribalismo atual: domínio de sofisticada tecnologia, construção de torres do homem-deus para invadir o céu e se pôr no lugar de Deus; desagregação desentendida e abandono da procura do bem comum da humanidade. Esta proliferação tribal tem um aliado nas redes sociais e nos seus geniais utilizadores: criam e manipulam sempre mais tribos e caciques. Degeneram em micro-bombas atómicas a estilhaçar a família e toda a espécie de organização de grupos humanos e nações. Lançam vozes e palavras pouco humanas, badalam de forma ensurdecedora sons de irracionalidade emocional, agressiva e homicida nas sociedades alargadas em formação. Alguns iludem-se que podem construir casas com calhaus soltos sem os unir fortemente uns aos outros com o cimento do amor e não com betume tóxico da torre de Babel.

Só com unificações sucessivas a vida se desenvolve: átomos em células, células em moléculas, estas em órgãos, homens e mulheres em famílias e comunidades humanas. Felizmente, no meio deste desconcerto ainda se ouvem palavras humanizadas, sábias, de sentido eterno, dirigidas a toda a Humanidade, diferentes de sons desafinados sem solidariedade universal. Nem tudo se reduz a questiúnculas de partidos, clubes de elites desavindas e frustradas, seitas e capelinhas de likes e fake news, guerrazinhas e jogos de euforia/depressão e negativismos de muitos umbigos do mundo, egos juxta-postos e cancerosos.

Haverá líderes do bem comum, e da Palavra de sociedade fraterna com Pai? Graças a Deus, alguns, e não apenas o Papa Francisco. E líderes à altura da missão de aglutinar a cidade dos homens? Alguns também, a propor que a sociedade de todos os homens se articule e agregue à cidade de Deus. Utilizam palavras de sentido que superam o tempo e o espaço, vindas da Sabedoria de antes dos tempos; palavras imortais para além deste cenário da vida. Nem tudo vai cada vez pior. Afirmá-lo é esquecer e ocultar a realidade permanente da Árvore da qual brotam continuamente novos ramos, vida renovada, sempre a nascer e crescer. Teimam, porém, outros em fazer crer que já secou e que agora é que a Igreja global acaba de vez. Para uns a vida só serve para se tornar rico, e para reduzir os outros a escravos condenados a desaparecer por nem para enriquecer prestarem. Para que serviriam esses falhados? Estorvam os da vida farta, os homens-deus, diria Fulton Sheen, que terá profetizado este tempo, em 1947.

Contudo mais de dois biliões de pessoas continuam a crer que a vida tira todo o sentido do Deus-homem, não do homem-deus. Será que a mudança de bispo da já diocese global do Funchal terá alguma relação com esta fragmentação tribal? A questão é atrevida. Contudo, ambos os Bispos vieram da parte da Palavra (Jesus) e do Papa, líder de palavras que não são dele. O Bispo cessante tirou o seu lema da “Palavra” eterna que disse: “Faz-te ao largo” (Lc 5, 1-11) na diocese que se fez ao Mar até ao fim do Globo terrestre; e o Bispo que entra escolheu a palavra da confiança em Quem dá a ordem: “na tua Palavra” vou fazer-me ao largo e lançar as redes nesta Ilha do Mar imenso em cujas orlas dois biliões de cristãos Te seguem e confiam na Tua palavra.