Caminhar juntos: com as vítimas da solidão

D.R.

É já considerada a nova epidemia das sociedades modernas e pode afetar crianças e jovens como adultos, idosos ou doentes, sobretudo nas grandes cidades ou nas pequenas aldeias desertificadas do interior. Um estudo apresentado no Congresso anual da Associação Americana de Psicologia referiu mesmo que a solidão pode ser um risco para a saúde como a obesidade

“A vida hoje é caracterizada por uma correria doida deixando esquecido “o outro”. Perdem-se os hábitos de convivência e vizinhança ficando “sozinhos, rodeados de estranhos”, como afirma António Caspurro, psicólogo e diretor técnico da Arrimo – Organização Cooperativa para o Desenvolvimento Social e Comunitário que atua na promoção da saúde e erradicação da pobreza e da exclusão social, na cidade do Porto. Viver num ambiente de rejeição e de conflito entre estranhos conduz ao stresse, com todas as consequências a nível psíquico e biológico –  a falência do corpo e das suas defesas.

A pessoa só, vive angustiada e deprimida. A doença come as resistências e avança para a morte prematura em 50%. E António Caspurro explica: “O ser humano é social por natureza. Quando fica privado de relações minimamente satisfatórias, com outros seres humanos, necessariamente isso interfere negativamente com a sua saúde mental. 

A depressão é a expressão mais vulgar da patologia associada à solidão, mas as consequências de uma vivência prolongada do isolamento, pode mesmo desencadear comportamentos “psicóticos mais graves”. Isto mesmo me explicou, há nove anos, um médico, que consultei na Suiça e outro que tinha consultado em Joanesburgo, na África do Sul, tinha referido o mesmo.

“A nossa mente desenvolve-se a partir do relacionamento com o mundo exterior e em particular com outros seres humanos”, explica o psicólogo da Arrimo. Por isso será anormal uma pessoa, com suas capacidades cognitivas a 100%, estar inserido num ambiente em que os outros não possam comunicar porque são quase todos surdos, mudos, com Alzheimer ou atacados nas suas mentes. Será para esta pessoa um ambiente redutor das suas capacidades acelerando sua doença e até a sua morte.

Daqui “o cuidado que devemos ter para com as crianças, os jovens e adultos para que possam vencer a solidão e o isolamento”, afirmou Alfredo Teixeira, no JN.

A rejeição e o pôr de parte os membros da família ou do grupo – escolar, desportivo, lúdico, de teatro, negócio, eclesial, paroquial -, fazendo de conta que não existem, não falando com eles nem se interessando pelos seus trabalhos ou pelos seus sofrimentos, são altamente prejudicais para a saúde. Há muitas mortes imprevistas de jovens que se explicam por atos desta natureza. No mundo hodierno, eles multiplicam-se exageradamente. E as consciências, mesmo cristãs, não assumem os homicídios em que colaboram nem a falta da caridade evangélica que anunciam.

Papa Francisco apela insistentemente para o cuidado a ter com estes nossos irmãos: “É imperioso ouvirmos a voz dos débeis, dos mais fracos, dos abandonados, dos esquecidos, dos sem ninguém”. Aliás sempre foram os preferidos de Jesus  e são a “riqueza” da Igreja católica.