D. António em Celebração Ecuménica: “promover atos concretos de aproximação entre as diversas Igrejas”

Foto: Duarte Gomes

A marcar o encerramento da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos decorreu sexta-feira, dia 25 de janeiro, na Igreja de Santa Clara uma Celebração Ecuménica, presidida por D. António Carrilho, e participada por representantes das igrejas Anglicana, Presbiteriana e Luterana Alemã.

No inicio da celebração o Pe. João Carlos Gomes sublinhou que “juntamo-nos nesta noite para rezar pela unidade”. Este ano, lembrou, “o tema da Semana de Oração pela Unidade dos cristãos, escolhido pelas Igrejas da Indonésia, é “ Procurarás a justiça, nada além da justiça”. Este tema é imperativo por causa das recorrentes situações que trazem divisões e conflitos. Ao orarmos juntos, recordamos que, como membros do corpo de Cristo, somos chamados a buscar e a tornar visível a justiça. A nossa unidade em Cristo capacita-nos a tomar parte na luta mais ampla pela justiça e a promover a dignidade da vida.”

Quanto ao prelado começou por “saudar, com sincero afeto, os representantes das diversas Igrejas e suas comunidades na Madeira e Porto Santo” e por sublinhar e dar graças a Deus “pelos esforços já realizados, como sinais proféticos de união, celebrando o mesmo Deus, uno e trino, fonte de vida e de comunhão”. E grandes, disse, têm sido “os esforços conjuntos para promover a cultura do encontro, do diálogo, da defesa da vida, da paz e da fraternidade universal” e para “abrir caminhos novos de esperança, caminhos abertos ao diálogo, ao amor solidário e à misericórdia, para sarar as feridas que provocam males irreparáveis no coração da humanidade, como toda e qualquer espécie de injustiça e a guerra”.

Tendo como tema «Procurarás a justiça, nada além da justiça», apresentado pela Indonésia, esta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos procura assim lembrar que “sem justiça não há paz, nem solidariedade, nem desenvolvimento. Pelo contrário. Aumenta a opressão dos pobres e dos mais fracos”.

Citando o Papa Francisco, D. António lembrou que “quando rezamos juntos, quando anunciamos o Evangelho, servimos os pobres e os necessitados, nos reencontramos no caminho e o próprio caminho progride para a meta da visível unidade”. Neste contexto, frisou, “são as injustiças, as ideologias políticas ou religiosas e o arbitrário abuso do poder que maiores danos causam à família humana e até ao próprio ambiente”.

“Como cristãos somos convidados a escutar o sopro do espírito e a evangelizar o nosso próprio coração, para que triunfe em nós, a mansidão, a humildade e o amor”, salientou o prelado, para logo referir que “só assim poderemos ser autênticos promotores da paz, autênticos promotores da harmonia entre as pessoas, entre os povos”.

D. António fez ainda referência ao legado espiritual de Thomas Merton, “monge trapista, prestigiado escritor e conferencista, empenhado no diálogo ecuménico e intereligioso”, que se mantinha “atento aos graves problemas do nosso mundo, nomeadamente o racismo e a pobreza” e que dizia que “o amor é o nosso verdadeiro destino, o orgulho faz-nos artificiais, a humildade é o nosso caminho” ou ainda que “o nosso trabalho consiste em amar os outros, sem nos determos a pensar na utilidade dessa ação. Isso já não é connosco, não é assunto nosso”.

O próprio Concílio Vaticano II “lembra-nos que sem a mudança do coração não há diálogo ecuménico. Não há verdadeiro ecumenismo sem a conversão interior”. Isso só acontecerá quando todos “se esforçarem por levar uma vida mais pura, de acordo com o próprio Evangelho”.

Neste contexto, exortou a que assumamos o compromisso de  “promover atos concretos de aproximação entre as diversas Igrejas”, que se estendam também aos não crentes.

Já Ilse Berardo, da Igreja Luterana Alemã na Madeira, “sublinhou que o que foi, há anos, apenas um sub tema da Igreja, entre muitos outros é agora a meta principal do nosso agir dentro da própria instituição Igreja, tal como nas nossas comunidades e no mundo”. Sublinhou “o compromisso pela paz, justiça e salvaguarda da criação” tendo, a propósito do tema desta semana destacado o envolvimento da justiça, que não é mais, disse, do que o “lado humano” do Direito. Há que saber distinguir as duas situações e “criar comunidades solidárias” que se “preocupam com os princípios humanitários” e a “salvaguarda do nosso planeta”. E isso começa “na nossa própria casa”, com “gestos justos e solidários”.

O Rev. David, representante da Igreja Anglicana, partilhou algumas reflexões com os presentes sobre a importância da oração daqueles que seguem Jesus como se “fossem um”. Não o fazer significa “falhar na procura da justiça”. Esse é “um convite que é feito a todos e a cada um dos cristãos, independentemente da sua condição”, disse.

Por seu lado o Pastor Gameiro, da Igreja Presbiteriana da Madeira, falou de um “problema antigo, mas também muito atual: o da divisão dos seres humanos”, motivada pelas mais diversas razões nomeadamente pela “criação do poder nas pessoas”, que se manifesta “quando se desnivela as coisas”. Depois surge a justiça, “uma medida que se pode vestir com imperativos morais de diversa ordem”, como forma de equilibrar de novo as coisas, “para que não haja o pobre e o rico, o poderoso e o indefeso”. É desta justiça que se fala na Bíblia, “a justiça que não detém poder político, que é arbitral, é aquela que não pode ser alterada ao sabor do nosso desejo”. Também separou a justiça da lei, referindo que são duas coisas distintas e que hoje “vivemos num mundo muito dividido”, no que a estas questões diz respeito também por culpa das Igrejas que, “por contextualizarmos tanto a Palavra de Deus ao tempo de hoje, que começamos por vezes a relativizar essa palavra”.

No final da celebração, a palavra voltou a ser dada ao Pe. João Carlos Gomes que fez os devidos agradecimentos, nomeadamente às irmãs de Santa Clara pelo acolhimento, ao Coro do Livramento, ao organista Guilherme e ao Juntos pela Europa, que promoveu um pequeno convívio após a celebração. Aproveitou também para agradecer a D. António Carrilho toda a colaboração e empenho que teve desde o primeiro momento deste encontro anual.