Contas do tempo de 2018, em conto

D.R.

Como usastes o teu tempo, pergunta o fiscal do ano?

– Não tinha pensado que ia haver esta fiscalização. Nem fiz qualquer registo.

– Foi pena. Devias ter passado oito horas por dia a dormir.

– Isso era perder tempo demais. Passei três horas diárias em reuniões, noitadas, TV, filmes, pornografia e o resto, na bilhardice. Dormia cinco, seis horas e tomava outros tantos cafés quando vinha o sono.

– Perdestes parte do teu melhor tempo. Dormir, também é trabalho e saúde. Muito boas ideias e soluções na vida surgem durante o sono e os sonhos. Pergunta a S. José.

– E tu, rapaz, em que gastastes o tempo? Imagino que estudavas seis horas por dia na escola e mais algumas em casa. E uma hora a cuidar da tua mente, coração e espírito

– Não. Só estudava na escola quando não recebia SMS ou twitava. Mas ainda usava mais seis horas por dia no telemóvel para conseguir mais likes que os meus amigos. Respondia a centenas de mensagens, chats, fotos e tantas coisas. Tudo somado à volta de 7-8 horas por dia. Dizem que é demais e que já sou um viciado. Mas olhe que agora já bebo menos. Bem, vou ao bar e festas com outros, mas com a cisma dos facebooks, twitters e chats não nos fica muito tempo para beber. E já me chatearam a tirar fotos quando fico bebido e as mandaram para a minha namorada e para os meus melhores amigos. É chato!

– Vamos ouvir este político: quantas horas usou em políticas de bem comum a favor dos seus protegidos.

– Não estou a perceber. Não tenho protegidos. Tenho o povo que me paga. Mas gastava muito tempo a pensar e a receber sugestões para evitar aborrecimentos a Deus se permitisse que no meu povo se falasse muito de Deus e de Cristo e assim. Dou uma ajuda aos colegas para evitar que se blasfeme Maomet e tornar a Europa neutra e tolerante em religião mesmo que blasfemar Cristo não seja grande problema.

– Temos aqui um endinheirado. Você gastou muito tempo a ajudar os pobres?

– Bem, eu não conheço nenhum pobre. A maior parte do meu tempo foi gasto a vender bens a quem tem dinheiro, vender mais, receber mais, mais lucro e ser mais rico que os ricos que conheço. Lá um dos vossos chefes diz que isto é ganância. Para mim é sucesso. E tempo bem usado.

– Você aí em que é que gastou os feriados e fins de semana, o tempo livre? Ora, nos festivais. Gosto muito. Vou a todos.

– É um amante da arte.

– Não. Sou amante é das gastronomias. Não é bem da cozinha, é mais da adega. Talvez pertença mais aos pingados que aos vorazes ou gulosos, como o papa Francisco chamou a não sei quem.

– Esta senhora aqui. Talvez deseje falar do uso do seu tempo no ano que acaba.

– Nada de especial. Conversas de comadres, muito tempo. Compras, saldos, arrumar sacos e mais sacos, limpeza… A cozinha mal deixa tempo para ir à igreja ao domingo ou alguma vez de semana. Depois as telenovelas, uns telefonemas e petiscar a toda a hora. Alguns dizem que sofro de consumismo, mas nada que se compare com os magnates donos disto tudo. Esses é que consomem o deles e o dos outros e ainda nos obrigam a pagar-lhes a voracidade. A esses é que devia interrogar.

– Tem razão, mas não tenho tempo. Nem os juízes têm que chegue para tantos.

– E aqui, o amigo. Você é um santo, dizem, diga-me lá como é que gastou a maior parte do tempo do ano 2018, a rezar, penso.

– A maior parte a dormir, felizmente. Felizmente porque foi sem comprimidos. E felizmente, também porque tenho sonhado muitas vezes com a santidade, mas às vezes tenho cada surpresa. Já sonhei que o diabo me queria apanhar! Gastei horas e horas a teimar que não tinha que ser santo e cair no orgulho.

– Esse é que foi tempo perdido.

– Talvez não. De tanto querer ser santo há o risco de me convencer que consigo sozinho. Dizem que ninguém se faz santo sozinho. Será?

– O vosso chefe disse: «sem mim, nada podeis fazer» (Jo,15). E há tantos por aí a teimar e ensinar: «Faça-se, santo, você mesmo».

– É! Nem ligam a Deus e ao seu Enviado, pensam que não precisam. Não sei se vale a pena chamá-los a prestar contas! Só as prestam a si mesmos. Alguns até poderão ter uma parceria com o diabo, mas não está bem averiguado. Enfim, gente de poder soberano!

Caros, todos, publicanos e cobradores de impostos, Bom Ano Novo, muitos dons do Céu! Nem esqueçam a lamentação de Maria, em 19.09.1846: «tendes seis dias para trabalhar… e não me quereis dar o sétimo?»