Construir a paz na casa comum

D.R.

52º Dia Mundial da Paz – 1 de Janeiro 2019

«A boa política está ao serviço da paz»

1.É este o tema da Mensagem do papa Francisco para o Dia Mundial da Paz (DMP). O 52.º DMP, comemorado no dia 1 de janeiro de 2019, pretende sublinhar que “a responsabilidade política pertence a cada cidadão”, nomeadamente “quem recebeu o mandato de proteger e governar”, e ao mesmo tempo salvaguarda o direito e incentiva “ao diálogo entre os atores da sociedade, entre gerações e culturas”.

O presidente do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral (Santa Sé), cardeal Peter Turkson, disse que a Mensagem do Papa é um desafio aos governantes, para se tornarem “mediadores” de um verdadeiro futuro para todos. E frisou que a principal missão da política deve ser “assegurar o bem-estar de todas as pessoas” e a boa “gestão dos recursos”, sem excluir ninguém.

O Papa pretende que 2019 seja um ano de paz para todos, pois a política está ao serviço das relações cívicas, da mediação, da construção da amizade entre todos, do bem estar para toda a família humana.

Quando a política perde este horizonte do “serviço à coletividade humana”, converte-se num “instrumento de opressão, marginalização e até destruição”.

Vícios que colocam em perigo a paz social

2.Papa Francisco indica 12 “vícios” que atualmente impedem a política de dar seguimento a todo o seu potencial humano e social, enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social”.

São eles: “A corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio”.

Mas há ainda outras  ameaças como “o exercício da violência através de guerras ativas ou guerras frias”, e o “desrespeito ou abuso dos direitos das pessoas, incluindo o direito ao usufruto da Criação”.

Proteger os direitos humanos e eliminar o terror

3.A vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais.

O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. No mundo de hoje, uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria, soldado ou refém dos grupos armados. 

A política devia ser um caminho quotidiano de encontro, de diálogo, de conciliação e reconciliação mútua, mas temos hoje várias nações que ainda vivem em clima de tumulto permanente, como “a Síria, o Afeganistão, o Iémen”, e  mais algumas dezenas. 

O último “vício” político apontado pelo Papa é a crise migratória que rebentou nos últimos anos, devido a fenómenos como a guerra e o terrorismo, a perseguição étnica e religiosa, a pobreza e a desigualdade social. A  política deve ser implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade humana.

Todos empenhados em construir a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado…, tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo, e a paz com a criação, descobrindo a responsabilidade que compete a cada um de nós, como cidadão deste mundo.

A preocupação pelas gerações futuras

Preocupado com as novas gerações, Francisco sublinha: “a política não deve privar os jovens do seu futuro, ou privá-los da experiência da paz”, como está acontecendo. A paz não se reduz a uma relação de forças, nem é um mercado eleitoral de interesses.

 “A boa política está ao serviço da paz: respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras”.

Papa argentino reforça que “a política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem”, mas quando a prioridade é “a busca do poder a todo o custo”, ela “leva a abusos e injustiças”, salvaguardando apenas os interesses de certos indivíduos privilegiados com exclusão dos outros.

A saudação ensinada por Jesus de Nazaré «A paz esteja nesta casa!», podemos substituí-la por «A paz esteja na nossa casa comum», o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos chamados a cuidar com solicitude.

O Papa Bento XVI recordava que: «a ação do homem sobre a terra, se é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação da pólis, da cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana» (Caritas in veritate, 2009).