Missa de Natal na Sé: D. José Tolentino desafiou a “lutar por uma antropologia onde a inteireza da pessoa humana seja defendida e contemplada”

Foto: Duarte Gomes

D. José Tolentino de Mendonça alertou os cristãos madeirenses para  “uma mudança antropológica” que está a acontecer no mundo, uma “mudança, de que se calhar nem nos damos conta”, mas em que “a técnica vai-se introduzindo nos nossos modos de vida, nas relações que construímos uns com os outros”.

Esta mudança, disse o arcebispo titular de Suava na homilia da Eucaristia de Natal na Sé do Funchal, “cria uma espécie de pessimismo cultural” em que “o que nos seduz e apaixona é o plano do virtual e não o plano do histórico, e não o plano do real.”

Numa altura em que “o mundo e a ciência estão a caminhar cada vez mais para a inteligência artificial, acreditando que a única coisa que é preciso conservar no homem é o cérebro, e que se conseguirmos isso, conservamos tudo da pessoa humana”, há que aproveitar o “tempo do Natal” para “perceber que o ser humano não é apenas cérebro, mas é a totalidade: é vida, é mãos, é rosto, é pés, é o abraço, é a existência da sua completude, é a carne, mesmo na sua vulnerabilidade, mesmo na sua doença, mesmo na sua extrema dificuldade, porque é na carne que brilha a glória de Deus.”

É por isso, frisou D. Tolentino, “que nós cristão lutamos por uma antropologia onde de facto a inteireza da pessoa humana seja defendida e contemplada. A vinda de Deus à nossa humanidade, ajuda-nos a perceber o que é que nós somos, o que é que nós somos chamados a viver como criaturas. E há um desafio muito grande hoje nas nossas sociedades que é de facto este de dar valor à pessoa humana, em vez de fugirmos para dentro das redes, para dentro do digital, para dentro do artificial, valorizarmos aquilo que é a natureza humana.”

Na sua primeira visita à ilha depois da ordenação, D. Tolentino fez questão de passar pela Catedral onde foi ordenado sacerdote, há 28 anos. Depois de agradecer a D. António “o seu acolhimento” e “aquele que por meio de si, a querida Diocese do Funchal me faz nesta primeira vez em que, como bispo, concelebro consigo”, D. Tolentino recordou precisamente a passagem do prologo do evangelho São João, em que se diz que ‘o Verbo se fez carne e habitou entre nós’. Fê-lo para sublinhar “que Deus tomou e toma a nossa história, a nossa condição humana, aquilo que nós somos como carne, como mistura de sangue, de sonho, de desejo, de paixão, de coisas que conseguimos e que não  conseguimos, de feridas, de traumas, de projeções”. Em suma para lembrar que “Deus abraça a nossa humanidade, porque o ‘Verbo se fez carne’ e por isso nós sentimos a possibilidade de nascer”.

E o tempo de Natal, frisou, “ajuda-nos tanto a perceber que nós ainda não acabamos de nascer”. “Como mulheres e como homens, disse, estamos em processo, em nascimento, não nascemos só uma vez, vamos nascendo em cada dia, em cada estação, ao longo da nossa vida”. Neste contexto, frisou, “o verbo nascer não está esgotado, não está acabado e Jesus ensina-nos isso; ensina-nos a nascer e a acreditar que ele verdadeiramente se fez carne, que abraçou a nossa condição, que abraçou a nossa história”.

A concluir desejou que “o santo tempo de Natal nos confirme como filhos amados de Deus e cada um de nós sinta esse amor de Deus derramado nos seus corações e possa ser instrumento e espelho desse amor na vida do mundo.”

Já D. António Carrilho, antes da bênção final e dos votos de “um Santo e Feliz Natal para todos”, “agradeceu a presença de D. Tolentino e a mensagem que nos deixou” e “a todos vós aqui presentes”, ou os que escutavam a celebração através do PEF, pelo “testemunho da vossa fé, da vossa alegria e da vossa esperança”.

“Assim fazemos festa”, disse o prelado. Uma festa que tem “a sua tónica exterior”, mas cujo grande significado “parte do íntimo do nosso coração” no “reconhecimento do Filho de Deus no meio do homem”.