Carolina encara vida missionária como “uma proposta de Deus que nos tira da caixa”

Foto: Duarte Gomes

Chama-se Carolina Fernandes, tem 25 anos e é do Estreito de Câmara de Lobos. Estudou em Lisboa, onde se licenciou em Economia tendo, no mês passado, terminado o mestrado em Economia Monetária e Financeira. Até agora nada de especial, pensará o leitor. E seria verdade se esta jovem não estivesse a poucos dias de partir para a Colômbia, para fazer o Curso de Formação como missionária Verbum Dei. Ao Jornal da Madeira Carolina, que se descreve como “uma pessoa de procura” e “como peregrina”, o que a tem “levado a percorrer uma serie de caminhos, quer para Fátima quer para Santiago de Compostela, conta-nos o que a leva a deixar a ilha, a família e os amigos e seguir aquilo que ela própria define como “uma proposta de Deus que nos tira da caixa e nos faz experimentar um sabor de alegria diferente.” 

Jornal da Madeira – Embora sem a ironia com que diz que algumas pessoas lhe fazem a pergunta, vamos nós fazê-la também: ‘Carolina o que é que vais fazer da tua vida’?

Carolina Fernandes Essa é uma pergunta simples de resposta e aplicação complexa! Seja onde for, quero fazer da minha vida um espaço, quero fazer da minha vida um lugar para tantos, especialmente para aqueles que não o têm. Neste momento, para mim, isso significa um passo concreto no sentido da vida consagrada dando início à minha formação na Fraternidade Missionária Verbum Dei.

Jornal da Madeira – Quando é que sentiu esta vontade de se tornar missionária e porquê a escolha da Fraternidade Missionária Verbum Dei (FMVD)?

Carolina Fernandes No princípio não foi uma vontade de me tornar missionária, foi sim uma vontade de descobrir o que viviam as missionárias Verbum Dei que conhecia e que me pareciam ser tão felizes com tão pouco, dentro daqueles parâmetros que eu considerava prioridade em questão de felicidade (um bom trabalho e por consequência um bom ordenado, que nos permite ter uma casa grande e um carro “à maneira”, uma vida controlada, sem fugir muito da linha pensada e cheia de segurança). A Verbum Dei não foi evidente, nem sequer na questão de personalidade, não sou uma pessoa extrovertida, que gosta de falar para grandes plateias ou de ser o centro da atenção, como tantas vezes acontece quando pensamos numa pessoa que se dedica à pregação.

Não sei se escolhi a FMVD ou se Deus a escolheu para mim, o meu caminho tem-me mostrado um misto entre os dois. Um desafio e simultaneamente um fascínio, é ir descobrindo uma proposta de Deus que nos tira da caixa e nos faz experimentar um sabor de alegria diferente.

Jornal da Madeira – Como é que a família e os amigos reagiram a esta sua decisão?

Carolina Fernandes As reações foram mistas, inclusive para uma mesma pessoa. Agradeço muito por ter um núcleo de família e amigos onde nos acompanhamos muito de perto em qualquer dimensão da vida. Eu e os meus amigos crescemos juntos na fé e por isso sabemo-nos muito irmãos e companheiros para todos os momentos. Contudo, uma decisão destas, tanto para a minha família como para os meus amigos – por muito que não seja uma surpresa – tem implicações práticas no dia-a-dia, na presença física, na distância geográfica… Assim, as reações foram agridoces, que variam entre a saudade ou nostalgia que quase se vive antecipadamente e uma alegria e felicidade muito grande pela opção.

Jornal da Madeira – No dia 27 de dezembro a Carolina parte para a Colômbia, onde iniciará o Curso de Formação. Parte com que expetativas?

Carolina Fernandes Parto para um continente novo, uma nova cultura onde se fala outra língua por isso a primeira expetativa é desafiar as fronteiras (as físicas e externas, mas também as internas), o ganhar uma perspetiva de mundo e desfocar o meu olhar do “quentinho da Europa”. Ao nível formativo e de discernimento espero ainda um acesso a outras ferramentas que me podem permitir continuar a dar passos em frente. E por fim espero “pessoas”.

Dou-me conta que se tivesse que contar a minha história nunca seria num formato de “eu”, mas sim num formato de “nós”, por isso espero poder continuar a deixar-me deslumbrar pela humanidade de pessoas com quem construo histórias.

Jornal da Madeira – Missão é receber, mas é também dar. O que espera poder levar e dar de si?

Carolina Fernandes Espero levar-me, espero poder dar-me – esse é o primeiro desafio porque é muito fácil ficar por um “a pessoa tal é que teria jeito”, “fulano tal seria muito mais apropriado do que eu”, “sei de uma pessoa a quem esta missão assentaria que nem uma luva” e esquecer que também há em mim um presente.

Espero levar uma Carolina que, como até agora, desafia o rotineiro, o legislado e o “sempre assim”, procurando a verdade por detrás dos nossos pressupostos de sempre para poder receber e dar sentido.

Jornal da Madeira – Quanto tempo dura a formação e que planos tem para depois da sua conclusão?

Carolina Fernandes A nossa formação inicial dura dois anos e depois disso o percurso habitual será que se façam os primeiros votos (de pobreza, castidade e obediência) e se inicie o estudo de Filosofia e posteriormente Teologia. O plano, acho eu, que é viver cada tempo como cada tempo com aquilo que ele (o tempo) me tenha para oferecer e com aquilo que eu tenha para entregar e partilhar.

Jornal da Madeira – Em Ano Missionário que conselho deixa a outros jovens que sintam este chamamento? Muitos fogem dele com receio do que os outros vão dizer e, lá está, da ironia com que perguntam: Missionária?

Carolina Fernandes Aos jovens só posso dizer que sejam jovens… Que vivam a vida a sério, estejam com os amigos, vão ao café, tenham longas conversas, façam noitadas pelas coisas mais divertidas, experimentem a adrenalina das aventuras, do “ou é agora ou nunca”, apaixonem-se, sonhem com o futuro, sem nunca tirar os olhos e o coração do mundo que nos rodeia… porque é aí onde se faz caminho. E porque somos jovens façamos as “perguntas de um milhão”, as perguntas onde se jogam “a vida toda” que podem determinar adultos frustrados ou adultos com sentido. Quanto a Deus creio que, mais ou menos formulada, todos temos essa questão partindo de: “Existes ou não?”.

O meu convite é que arrisquemos na hipótese, arrisquemos na hipótese de Deus. Para escutar a Deus escutem a vossa vida, porque esse é o lugar privilegiado onde Deus se revela e onde Deus se propõe. Ele vem aonde estamos, não onde gostaríamos de estar.