O Mistério da Encarnação na Arte Cristã (I)

CORREGIO, A Noite, 1530, Alemanha, Galeria de Dresda. Adoração ao Menino do qual emana tão intensa luz que a jovem pastora coloca a mão diante dos olhos.

O Natal, que de forma tão exuberante e festiva celebramos, é um dos núcleos fundamentais da arte cristã. De facto, o fundamento teológico da arte cristã está intimamente ligado ao mistério da Encarnação que, tão profunda e densamente, escutamos no prólogo do Evangelho de São João: «E o Verbo Se fez carne, e habitou entre nós, e nós vimos a Sua glória» (Jo 1,14). Imersos nestas palavras desde há muitos séculos, é-nos difícil compreender a autêntica revolução que o cristianismo operou, no contexto da religião judaica.

O Deus de Israel, que falou a Moisés da sarça-ardente, não podia ser visto, sob pena de se conhecer a morte. A Sua presença não era manifesta por um sinal visivo, mas escondido. A Arca da Aliança, que continha as Tábuas da Lei, conservada no Sanctum Sanctorum do Templo de Jerusalém, por detrás de um véu, era inacessível ao povo e era esse o sinal. Ali, apenas uma vez por ano, só o Sumo Sacerdote podia entrar, transpondo o véu. A invisibilidade da Arca era o símbolo maior da invisibilidade de Deus.

A Encarnação, o Verbo de Deus que vem à história humana, altera assim e por completo, a conceção judaica da presença de Deus. O Verbo escondido junto de Deus, a Sua Palavra, faz-Se carne e torna-Se visível entre nós, presente nos caminhos da Galileia, da Judeia e de Jerusalém, nas palavras e gestos próprios da comunicação humana. O Deus, que antes Se manifestava escondido, deseja agora ser encontrado. O Deus, que antes proibira o Seu povo de fazer imagens, envia até nós o Seu próprioFilho, que diz decididamente que «Quem Me vê a Mim, vê Aquele que Me enviou» (Jo12, 45). A Encarnação do Verbo, que Se fez homem para ser revelação de Deus invisível, está assim articulada com as imagens humanas, as obras de arte, que “falam” de Deus.

Os Primórdios da Celebração do Natal

A celebração do Natal nas comunidades cristãs inicia-se apenas por volta do séc. V, sendo primeiramente uma festa celebrada em Roma e posteriormente no Oriente. À celebração litúrgica do Natal, com as três missas como as conhecemos hoje – Missa da Noite, Missa da Aurora e Missa do Dia de Natal – juntaram-se, ao longo da história da Igreja, os cânticos em latim e nas línguas vernáculas, as obras de arte, os presépios, as representações e os autos de Natal. De entre os presépios, o realizado por São Francisco de Assis é o mais emblemático. 

Iconograficamente, podemos estruturar a temática do Natal em três polos fundamentais: o primeiro compreende os prelúdios do nascimento de Jesus; o segundo refere-se à natividade propriamente dita; e o terceiro engloba os temas que lhe são complementares, ou seja, a adoração dos pastores e dos magos.

A Iconografia dos Prelúdios do Nascimento de Jesus

A primeira parte fundamenta-se no Evangelho de São Lucas e retrata, sobretudo, a viagem de Nazaré a Belém. Terá pouca expressão iconográfica, pois será eliminada por confusão com a Fuga para o Egipto, tendo esta última prevalecido. Nos exemplares que chegaram até nós, São José é representado com a serra de carpinteiro ao ombro, conduzindo o burro que leva Maria grávida. Segue-lhe um anjo que conduz um boi, que era o único bem que José e Maria possuíam. Escassa é a representação de Maria de pé, caminhando diante de José que conduz o burro, algumas vezes de cor branca, como aquele de que se serve Jesus para entrar em Jerusalém. Estabelece-se assim a ligação imediata entre o Seu nascimento e a Sua paixão, polos da mesma missão. A recusa de alojamento a José e Maria é outra temática iconográfica que precede o nascimento, bem como o recenseamento e a espera do nascimento de Jesus, temáticas iconográficas bem mais esporádicas.

Ícone da Natividade, Belém, Basílica da Natividade, Séc. XV, no qual se vêm as parteiras na tarefa de “Lavar o Menino”, e com a dúplice presença também na manjedoura.

A Iconografia do Nascimento de Jesus

 O segundo polo condensador da iconografia do Natal desenvolve-se à volta do nascimento de Jesus propriamente dito. No ocidente, é especialmente representado como forma de adoração a Jesus, enquanto que, na tradição oriental, este momento é exposto como um verdadeiro parto, com  alguns elementos que o envolvem: Maria deitada que repousa dos trabalhos do parto, a presença e ajuda das parteiras e o “Lavar do Menino”.

A presença das parteiras foi alvo de debate pelos Padres da Igreja, sobretudo pelo facto de a sua origem derivar dos evangelhos apócrifos. Contudo, a piedade popular manteve-as, recordando até iconograficamente os seus aspetos mais extraordinários, como a história de Salomé, uma das parteiras, que  não acreditando no parto virginal de Maria, perdera as mãos, sendo-lhe depois devolvidas quando se arrependeu e colocou os seus braços sobre o Menino Jesus, acabado de nascer. Esta fonte apócrifa, o seu desenvolvimento iconográfico e a consequente problemática em volta da virgindade de Maria levou ao desaparecimento deste tema da arte cristã depois do séc. XIII.

À presença das parteiras está ligado o tema do “Lavar o Menino”, em cuja tarefa ajudam Maria e José. Já representado por volta do séc. IX, este tema terá derivado da iconografia pagã do Nascimento do Deus Baco, presente em alguns sarcófagos de âmbito pagão. O “Lavar do Menino”, assumido em breves períodos no contexto cristão, terá na arte simbólica da Idade Média um aprofundamento, equiparando-se o altar ao presépio e a banheira que purificou o Menino à Pia Batismal. Ainda assim, este tema iconográfico desaparecerá por volta do séc. XV, sobretudo por razões doutrinárias, uma vez que se defendia que o nascimento de Jesus teria acontecido de maneira sobrenatural e sem qualquer resquício de parto natural. A partir daqui, desenvolver-se-á uma iconografia do nascimento de Jesus enquanto adoração do Menino, numa acentuação de pendor cristológico evidente.

O tema da adoração a Jesus nascido em Belém é de tradição marcadamente ocidental e impõe-se totalmente a partir do séc. XV. Iconograficamente, é representada com a presença de Maria, que genuflete diante de Jesus, com as mãos unidas, mas também com o destaque do Menino luminoso, que é fonte de claridade e de luz nas trevas. Esta novidade iconográfica é atribuída a Corregio, na sua famosa “Noite da Galeria de Dresda” (1530). Posteriormente, acrescentar-se-á a presença dos anjos adoradores, começando por aquele que assiste ao nascimento, o Anjo Astróforo, que conduzirá os Magos até Jesus, e pelo Anjo Anunciador, que comunicará a notícia aos pastores. Progressivamente, a iconografia angélica da natividade desenvolve-se com a multiplicação de anjos infantes que adoram Jesus ou que Lhe oferecem um concerto de vozes e instrumentos. Desta iconografia farão parte também os pastores e reis. A todos estes elementos, juntar-se-á a presença do boi e do burro, também eles ajoelhados em gesto de adoração. Embora de fonte apócrifa, a sua presença estaria ligada ao facto de José os ter levado por ocasião do recenseamento: o burro para transportar Maria e o boi para ser vendido para depois pagar os impostos.

Em muitos dos elementos da celebração do Natal da nossa comunidade diocesana, podemos reconhecer alguns traços do desenvolvimento da iconografia cristã do Natal. A exuberância da luz, as músicas entoadas pelas crianças em muitas das celebrações da noite de Natal, equiparadas aos coros angélicos, a antiga tradição do “Lavar o Menino”, que ainda se mantém em algumas comunidades cristãs, denotam a particular simbiose entre as fontes dos evangelhos canónicos e apócrifos e entre estes e alguns elementos que a própria comunidade cristã foi acrescentando. Ainda hoje, esta simbiose torna-se presente, fazendo do Natal na Madeira um autêntico laboratório artístico, nas nossas casas, igrejas e ruas.

Que isso nos lembre que, na celebração do Natal, o mistério da Encarnação de Jesus começa fundamentalmente pela vida humana de cada um de nós, chamada a acolher e a se deixar tocar por Aquele que nos traz a Vida de junto de Deus. Tudo o resto só será autêntico e fiel, se derivar do Encontro com o Verbo da Vida.