Vem aí a Festa…

Foto: Duarte Gomes

Nas ilhas o Natal é popularmente designado por Festa e só termina no dia de Reis, ou, em algumas localidades, no dia de Santo Amaro ou de Santo Antão, depois de desmontados os presépios tradicionais e demais decorações. 

Os festejos natalícios começam a ser organizados com grande antecedência, com os madeirenses a se prepararem espiritualmente, cumprindo a liturgia da Igreja e exteriorizando a sua fé nas cerimónias sagradas, mas conjugando essas práticas religiosas com as mais variadas manifestações profanas, como arranjar a casa, tratar da confeção de diversas iguarias, doces e licores típicos da época, matar o porco, armar o presépio, comprar presentes e organizar convívios familiares ou sociais.

Noutros tempos, a Festa era aguardada com muito mais entusiamo. As crianças ansiavam pela Festa, por toda a envolvência da época, desde a armação do presépio aos doces e iguarias típicas, à expetativa das roupas, dos sapatos e dos brinquedos novos, deixados no sapatinho, pelo Menino Jesus. 

Quanto aos adultos, também esperavam o Natal de um modo especial, pois nessa altura tinham uns dias de descanso, ao qual associavam os convívios e as festas litúrgicas nos templos.

Com o passar dos tempos as festividades foram-se adaptando às transformações sociais, económicas e até religiosas. No início do séc. XXI, com o aumento do poder de compra, a melhoria das condições de vida e consequentes alterações dos hábitos de consumo, algumas tradições natalícias foram gradualmente cedendo lugar a outras e muitas caíram em desuso. Os madeirenses já não esperam um ano para comer carne de porco, galinha ou outras carnes, ou para confecionar e comer os doces tradicionais, como acontecia outrora. 

As Missas do Parto

No entanto, apesar das diferentes transformações ocorridas na sociedade, o Natal continua a ser a quadra do ano mais celebrada pela população, quer a nível social e cultural, quer a nível religioso.

Tanto assim é, que os festejos iniciam-se com as novenas do Menino Jesus, também chamadas de Missas do Parto e realizadas em quase todas as paróquias da Madeira e Porto Santo. 

Diz-se que esta é uma das muitas tradições introduzidas pelos padres franciscanos aquando da sua ação pastoral nos primórdios do povoamento das ilhas. Este tempo de preparação é também uma devoção mariana, que comemora os nove meses de gravidez da Virgem Maria ou Nossa Senhora do Ó, popularmente designada Virgem do Parto.

As Missas do Parto eram, e ainda são, celebradas de madrugada, entre as 05h00 e as 07h00, sobretudo nas igrejas das zonas rurais. Antigamente, a vinda para a igreja era sempre muito animada. Vinha-se a pé, em grupos formados por familiares, amigos e vizinhos. Vinha toda a gente a cantar, ao som de vários instrumentos, entre os quais, gaitas, flautas, rabecas, machetes, pandeiros e castanholas, proporcionando-se momentos de grande folia e convívio. Hoje, o automóvel leva-nos para todo o lado, e já ninguém vai cantando.

Durante a celebração os fiéis entoavam e entoam cânticos próprios. O repertório de músicas e cantigas é muito vasto, remontando alguns dos versos aos tempos do povoamento.

Terminada a missa, a comunidade ainda hoje se deixa ficar pelos adros das igrejas, prolongando a celebração religiosa, numa ligação entre o religioso e o profano, com um convívio onde não faltam a canja e bebidas quentes como o cacau, mas onde também há licores, broas e outros doces e tradicionais da quadra. A música anima os por ali podem ficar, já que muitos, mal acaba a missa vão trabalhar.

A matança do porco

Outra tradição da Festa, já mais rara, é a matança do porco. A função, nome pelo qual também é conhecida a matança, acontece normalmente entre 8 de dezembro e o início das Missas do Parto, sobretudo no meio rural.

No dia marcado reúnem-se familiares e amigos para matar o animal, que foi engordado nos meses anteriores. A ocasião proporciona momentos de convívio, com partilha de petiscos e bebidas. O ritual da matança é realizado por vários homens: uns tiram o porco do chiqueiro, amarram-no, deitam-no no chão e seguram-no com força para outro homem, denominado “marchante”, desferir o golpe certeiro, com rapidez. 

O sangue do porco é aparado para um alguidar, porque vai servir de petisco, depois de cozido e temperado com alho, pimenta e salsa, e misturado com cebola picada. O animal é lavado, pendurado e cortado para se lhe limpar as vísceras.

O dia seguinte à morte do porco é reservado para desmanchar o animal, que é cortado em diversas partes. Antigamente as salgadeiras eram preparadas para receber a carne. Era aí que esta era conservada, a fim de poder ser consumida nos meses seguintes. Todas as partes do animal eram aproveitadas: a febra destina-se ao consumo durante a quadra natalícia; a barriga utilizada na confeção da tradicional carne de vinho e alhos; com uma parte da carne gorda faziam-se torresmos e a outra parte é para fazer banha, utilizada para fins culinários durante o ano. O debulho (intestino) limpo, escaldado e salgado para ser comido em sopas; a cabeça é salgada, para ser consumida mais tarde, com couves e semilhas. 

Também era hábito reservar uma boa porção para oferecer aos vizinhos, amigos e familiares que não tinham porco para matar ou que ainda não o tinham feito e que, por sua vez, retribuíam com a carne do seu porco. 

A limpeza e ornamentação da casa

A limpeza da casa, como já se disse, também era uma preocupação. Nesta quadra, efectuavam-se as grandes limpezas que consistiam em pintar as paredes, as portas e as janelas, lavar as vidraças, os pavimentos e a louça guardada nos armários. Todos os cantinhos eram ‘escafiados’. No mês de novembro, aproveitava-se o chamado verão de S. Martinho para lavar e passar a ferro as colchas, as toalhas e as rendas que estavam guardadas, para serem usadas na Festa.

Feitas as limpezas, arrumações e até eventuais obras nas residências, começava a azáfama da confeção dos licores e doces, das compras e das decorações natalícias, com flores naturais e artificiais e outros objetos típicos da quadra. As mulheres juntavam-se ao redor de um alguidar para amassar grandes quantidades dos típicos bolos de mel, broas de mel, broas de coco, rosquilhas e outras variedades de doces. 

Esses bolos e as broas eram cozidos no forno a lenha, sendo também frequente usarem-se os fornos das padarias, sendo a data previamente marcada no estabelecimento; ali se reuniam várias mulheres para cozerem as respetivas amassaduras, em alegres convívios, enquanto aguardavam pela sua fornada. Nas vésperas do Natal, faziam-se os licores caseiros de vários sabores, sendo os mais apreciados os licores de tangerina, de anis, de caramelo e o tim-tam-tum. Na véspera da Festa, amassava-se e cozia-se o pão. 

Nestes dias festivos, nas cidades, sobretudo no Funchal, as ruas ficavam mais movimentadas, enchiam-se de cor e de luz, e o comércio ganhava uma nova dinâmica que atingia o seu auge na noite de 23 (ainda hoje é assim). O povo concentrava-se sobretudo no Mercado dos Lavradores e arredores, onde se vão fazer as últimas compras. Adquirem-se hortaliças frescas e frutas, onde não faltam as laranjas, as tangerinas, as peras, os peros, as maçãs, as goiabas e o ananás. 

Hoje, até as searinhas que outrora eram deitadas de molho no dia da Imaculada Conceição e à terra na primeira Missa do Parto, são compradas nesta noite, com o trigo e a lentilha já a meio crescimento. Já poucos têm tempo de se dedicar a semear e a menos ainda a correr o risco do trigo não germinar a tempo.

Compram-se ainda as verduras, para o resto das decorações do presépio ou da lapinha e outros ornamentos natalícios, os galhos verdes e as flores, entre os quais, o alegra campo, o azevinho, as cabrinhas o musgo, os sapatinhos e os junquilhos, que dão um cheiro especial ao Natal.

A ida à Missa do Galo

Na véspera de Natal, destaca-se a celebração da Missa do Galo, pela meia-noite, na maioria das igrejas da Ilha. Os templos enchem-se de fiéis, para assistir à celebração litúrgica do nascimento do Menino. Em quase todas as paróquias realizam-se autos de Natal e romagens de pastores, homens e mulheres, trajando as vestes típicas, que entram na igreja cantando quadras ao Menino Jesus ao som de instrumentos tradicionais, nomeadamente cordofones, harmónio, ferrinhos, castanholas e pandeiros. Surgem carregados de oferendas, mormente hortaliças, fruta, carne de porco, galinhas, cordeiros e vinho, que entregam ao celebrante e que revertem a favor da paróquia ou do pároco. Quem não assistiu à Missa do Galo, pode assistir depois à denominada missa dos pastores ou missa da manhã. 

Uma prática típica desta cerimónia era a chamada pensação do Menino, representada depois da Missa do Galo. Normalmente ficava a cargo de um grupo de raparigas, designadas por pastoras, que, sentadas ou de joelhos, rodeavam o presépio e entoavam quadras preparadas para o efeito. Por vezes, levavam uma bacia, uma toalha e sabão, interpretando os cuidados que deveriam ser aplicados ao Menino após o parto. Considerado impróprio por alguns, este costume chegou a ser proibido pelo bispo D. Manuel Agostinho Barreto (1835-1911), e deixou de ser representado em muitas igrejas. Noutras sobreviveu, e ainda hoje é posto em prática.