Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada: “A imagem do padre na opinião pública já conheceu melhores dias”

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada | D.R.

Esta sexta-feira, dia 30 de novembro, vai ser apresentado, na Igreja de São Martinho, o livro “Nós, os Padres – 11 padres confessam-se”. A apresentação terá lugar pelas 19 horas, e estará a cargo do Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, ele que redigiu o texto final desta obra, com prefácio de D. António Couto, Bispo de Lamego. Procurando desvendar um pouco do conteúdo do livro, que tem a chancela da Alêtheia Editores, solicitamos ao Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada que nos respondesse a algumas questões. Dessa ‘conversa’ ficamos a saber, por exemplo, que “a imagem do padre na opinião pública já conheceu melhores dias” e que se tende ainda a olhar “o padre como uma figura anacrónica, uma espécie de ser de outras eras que, por isso mesmo, está em vias de extinção.” A propósito das expetativas para esta apresentação, o sacerdote diz que “são muitas”, porque “a Madeira, que já deu ao mundo e à Igreja muitos e muito bons padres, continuará certamente a proporcionar mais operários para a messe do Senhor.”

Jornal da Madeira – “Faltava um livro que desse notícia dos padres que não são notícia, para contrapor às notícias dos padres que o são”. A frase é sua, mas eu faço dela a minha primeira questão: faltava um livro assim, nestes tempos algo conturbados da Igreja? 

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada Talvez seja muita presunção dizer que, de facto, este livro fazia falta. Mas talvez não seja descabido afirmar que, infelizmente, a imagem do padre na opinião pública já conheceu melhores dias. Não apenas pelos graves escândalos que afectaram a imagem dos sacerdotes católicos em tantos países de tradição católica – como a Irlanda, o Chile, os Estados Unidos da América, etc. – mas também porque se tende a considerar o padre como uma figura anacrónica, uma espécie de ser de outras eras que, por isso mesmo, está em vias de extinção.

Jornal da Madeira – Como foi escrever, apenas a duas mãos, onze testemunhos de pessoas que, tendo a mesma vocação, são de faixas etárias diferentes e de diversas proveniências sociais e eclesiais?

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada De facto, o livro não foi escrito a duas mãos, mas a onze, se é que nenhum dos entrevistados é ambidestro. Eu, como director da colecção, limitei-me a propor um questionário, a que todos responderam com total liberdade. Depois de lidas todas as entrevistas, acrescentei umas breves notas finais. Foi de propósito que se procurou que o universo dos padres interrogados para este efeito fosse muito variado, para que fosse representativo de todos os padres e não só de alguns. Daí as suas diversas proveniências sociais e eclesiais. Também há alguma variedade em relação às idades, embora a maioria dos entrevistados sejam padres novos, mas já com alguma experiência do ministério sacerdotal.

Jornal da Madeira – Este livro aborda não só temas institucionais, como também questões do foro mais pessoal. Fala de crises de identidade, das alegrias e tristezas dos ‘confessados’, das suas zangas e frustrações, dos seus hobbys e amores. No fundo fala de homens com vidas mais comuns do que se possa pensar…

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada Sim, esse propósito foi também intencional. É verdade que o padre, ao ser constituído como tal, é de certo modo separado dos outros homens, para se dedicar exclusivamente a um ministério que o configura muito especialmente com Cristo. Contudo, o seu lado humano permanece e é bom que se tenha consciência de que, antes de se ser padre, é-se homem e é-se cristão. Uma visão excessivamente espiritualista do sacerdote não corresponde à realidade e pode ser origem de crises de identidade que, de outra forma, poder-se-iam  evitar. 

Jornal da Madeira – Apesar das restrições que a vida sacerdotal lhes impõe, a verdade é que as confissões mostram que todos eles são felizes à sua maneira…

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada Foi, com efeito, um resultado surpreendente deste inquérito, como aliás sublinho no posfácio. Tende-se a ver a vida sacerdotal como entrega, sacrifício, renúncia, etc. Com certeza que tudo isso é verdade também, mas os padres não são, em geral, pessoas que humanamente não se realizaram, nem homens que, à força de carregarem um tão pesado fardo, vivem amargurados e angustiados … A sua vida, mais do que renúncia é uma afirmação de amor, mais do que sacrifício, é uma vida em abundância e, por isso, mais do que pessoas impossibilitadas de um amor terreno, são pessoas que optaram por um amor maior e por uma paternidade mais abrangente do que a da carne. Pelas suas próprias palavras se percebe que, dentro da normalidade da sua condição humana, são em geral muito felizes, apesar das dificuldades inerentes à sua condição.

Jornal da Madeira – Estes testemunhos podem ser importantes para os jovens que precisam decidir o seu futuro?

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada Creio que sim, muito embora a vocação sacerdotal, como qualquer outra vocação cristã, não se decida porque outros a seguiram, mas porque se descobre que é Deus quem chama. Ninguém casa porque os outros também casam, mas porque encontrou um amor pelo qual vale a pena dar a vida toda. A vocação sacerdotal é, afinal, a apaixonante descoberta desse maior amor por Deus e pelos irmãos. Mas saber que outros, que também fizeram essa descoberta, são felizes, certamente ajuda a corresponder ao apelo divino e a nele perseverar.

Jornal da Madeira – Esta sexta-feira, dia 30 de novembro, fará a apresentação deste “Nós, os Padres” na Madeira, mais precisamente na paróquia de São Martinho. Que expectativas para este momento, numa Diocese que também tem tido, como tantas outras, os seus problemas?

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada As expectativas são muitas, porque a Madeira, que já deu ao mundo e à Igreja muitos e muito bons padres, continuará certamente a proporcionar mais operários para a messe do Senhor. Deste tão belo arquipélago partiram também muitos migrantes que, em países africanos e americanos, deixaram exemplos de cidadania e de virtude cristã. Isso quer dizer que em todos os madeirenses há uma implícita vocação missionária, porque são, à partida, pessoas capazes de partir para terras distantes e aí trabalhar afincadamente pelo bem comum e pela propagação da fé. São também, por regra, pessoas com grande capacidade de sacrifício: só assim se explica a sua expansão por todo o mundo. Estou certo que Deus continuará a abençoar esta terra com muitas vocações sacerdotais e religiosas e que também haverá muitos leigos santos, porque é sobretudo nas famílias autenticamente cristãs que nascem as vocações para a vida sacerdotal, religiosa e missionária.