Pe. Amaro Gonçalo: “A missão não se dirige a territórios, dirige-se a corações e a pessoas”

O sacerdote falava na Jornada do Apostolado  dos Leigos durante a qual defendeu que é preciso “formar discípulos” e que isso só se consegue quando há “encontro com Cristo”.

O Pe. Amaro Gonçalo apresentou duas conferências: “A consciência Missionária de todos os Batizados” e “Paróquias Missionárias. Como?" | Foto: Duarte Gomes

O secretariado diocesano de pastoral da diocese do Funchal organizou este sábado, no Colégio Santa Teresinha, mais uma edição da Jornada do Apostolado dos Leigos. Um dia de reflexão, desta feita em torno do tema do  presente Ano Pastoral: “Ser Cristão, Viver em Missão”.

Os trabalhos começaram às 10 horas com a oração da manhã. Seguiu-se uma pequena intervenção do bispo do Funchal, que começou precisamente por saudar a assembleia e por agradecer a todos quantos estiveram envolvidos na preparação desta jornada, que procura “acentuar a missão dos leigos” e os novos desafios que lhes são propostos. Lembrou também que estas jornadas estão ligadas à Festa de Cristo Rei, “o contemplar de Cristo na missão que O trouxe”. Uma missão que “é preciso colocar no coração da igreja”  algo que , disse, “não se faz por milagre, não se faz por uma graça especial”,  mas estando cada vez mais presente “no coração da Igreja e através da Igreja no Coração do Mundo”. D. António Carrilho desejou ainda que a Jornada pudesse ser mais um contributo para uma reflexão conjunta no sentido de encontrar caminhos neste ano dedicado à Missão. Um ano que diz respeito a todos, mas em particular a todos os batizados porque “ser batizado é sempre uma exigência de viver a fé e a consciência de ser enviado em missão”. Não se pode, pois, “dissociar o viver do testemunhar”, disse o prelado, para logo acrescentar que “a palavra do Evangelho tem de ser repetidamente anunciada para chegar ao nosso coração, ao coração das nossas instituições, ao coração do mundo”.

D. António aludiu ainda aos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo para referir que “são 600 anos de missão”, “da marca do Evangelho e dos valores que ele inspira” e que  “é necessário reavivar, para que não se perca o sentido fundamental daquilo até que são as nossas tradições”. Por isso mesmo “aqui estamos, num dia de reflexão, de encontro, de partilha e de amizade” dispostos  “a receber, para partilhar”.

Formar discípulos com experiência do encontro

Seguiram-se duas intervenções do Pe. Amaro Gonçalo, uma precisamente sobre A consciência Missionária de todos os Batizados” e outra sobre “Paróquias Missionárias. Como?”. Em declarações ao Jornal da Madeira, a quem já havia dado uma entrevista, o sacerdote explicou que lhe foi pedido que “falasse um bocadinho da consciência missionária de todos os batizados”. Uma abordagem, frisou, “que a mim me parece fundamental, dado que não há nenhuma estratégia missionária, nenhuma campanha, que resolva esta urgência de cada cristão no seu meio, na sua família , no seu contexto, ser testemunha da fé, irradiar essa fé e convocar e chamar outros ao conhecimento íntimo de Jesus Cristo”. Trata-se de algo que é, no seu entender, “absolutamente básico” quando se fala em missão, mas que não se resolve de uma hora para a outra e sem refletirmos sobre algumas realidades.

Neste contexto, prosseguiu, era também importante, “esclarecer bem o conceito de missão, porque podemos correr o risco de pensar em missão como colonização ou quase uma espécie de ideologização da mensagem cristã”. A verdade é que “a missão não se dirige a territórios, dirige-se a corações dirige-se a pessoas, e não tem em vista, digamos assim, dar-lhes o que elas não têm, mas antes ajudá-las a descobrir o que elas já têm”. No fundo é “fazer germinar as sementes do Verbo que estão nelas”.

Outra questão importante para as comunidades, e para a Igreja, tem a ver com a saída missionária. E, de facto, “não há outra saída para a Igreja: ou ela é missionária ou ela morre. Bem, morrer não morre porque ela é assistida pelo Espírito Santo e o Espírito Santo gera em nós este desassossego e vai à nossa frente e faz um trabalho que nós não podemos também fazer por ele, porque apenas podemos ser instrumentos da sua ação.” No entanto, temos de ter consciência de que é preciso “enfrentar e vencer aquilo a que eu chamo de síndrome de Jonas, que não é mais do que o medo de frequentar os territórios difíceis”. Por outras palavras, é preciso “sairmos da nossa zona de conforto, de acharmos que os outro são inconvertíveis, que são terra de mata e queima, que são o pecado, que são impossíveis de ser evangelizados ou que não têm abertura à conversão”.

Muitas vezes, acrescenta o Pe, Amaro Gonçalo, “confundimos aquilo que eu chamo o respeito pela diferença com a indiferença, isto é, não tomamos consciência do tesouro de que somos portadores, guardamos o tesouro para nós e deixamos o outro por sua conta”.  No mundo das finanças costuma-se dizer que “há vida para além do deficit”. Porém, na Igreja, “não há vida se não superarmos o deficit missionário”. Neste contexto, é preciso dar importância aos leigos. Afinal, “hoje, a grande missão não está centrada na figura dos bispos, dos padres ou dos missionários ‘ad gentes’, mas nos leigos”. São eles, frisou, “os grandes protagonistas, porque são eles que estão no mundo, inseridos no tecido social e cultural e é aí que eles constroem o reino”. Assim sendo, há que “perceber, reconhecer e dar importância aos leigos”. O próprio Papa Francisco já disse por mais do que uma vez que “a hora dos leigos chegou, mas parece que o relógio parou. O que nós temos de fazer é dar corda ao relógio”. Para tal, “é preciso que não nos preocupemos só em dirigir a missão para os de fora, mas também para os de dentro, e fazer os cristãos perceberem esta dívida que eles têm, em relação ao mundo, de anunciar Jesus Cristo”. Só quando isso acontecer “vamos deixar de andar na nossa introversão eclesial e deixar de andar fechados sobre nós mesmos, até porque isso não é caminho.”

Aqui chegados se percebe que o grande desafio, neste caso da própria da Igreja, é de “formar discípulos”. Uma tarefa difícil, admitiu, que só se consegue “fazendo caminhos e percursos”, que levem à “experiência desse encontro com Jesus Cristo”. Para isso é preciso começar a “reavaliar se as experiências que temos para oferecer”, da catequese à Eucaristia, passado pelas áreas sócio-caritativas, proporcionam esse encontro. E é preciso “fazer discípulos, porque só um discípulo faz outro e só um discípulo pode ser missionário”. Além disso, “também não podemos acantonar a missão”. É preciso estar sempre atento, lendo a realidade, sem medo de mudar rotinas e hábitos instalados. Afinal, até o próprio Papa Francisco diz que a frase “sempre se fez assim”, tantas vezes repetida, não serve como critério pastoral. Além disso é preciso missionários alegres, com sentido de humor e capazes de enfrentar a vida de uma forma menos ‘pesada’, deixando-se levar pela crença de que Deus guiará os nossos caminhos.

Paróquias não são repartições públicas

Quanto às paróquias elas “têm de primar pela qualidade do seu ambiente humano e cristão, pela beleza e atração das suas celebrações, pela qualidade dos serviços que prestam, a começar por um acolhimento alegre e exigente, por um diálogo paciente, face a face, e não pela afronta ou pela exibição do poder da estrutura sobre quem vem pedir qualquer coisa e nem sequer sabe falar o nosso ‘eclesialês’”.

Estamos contaminados, diz o Pe. Amaro Gonçalo, “pelo “vício administrativo” nas nossas paróquias, quando elas, na sua organização, horários e estilos, não são muito diferentes das repartições de finanças”. As chamadas “periferias existenciais” estão todos os dias a entrar-nos pela porta dentro e não vale a pena ter um grande impulso para se fazer ao mar, se não se cuida bem das pessoas em terra.” Um “mau acolhimento, uma celebração descuidada, uma homilia desastrada, uma exigência desproporcionada, uma decisão insensata… são uma enorme pedra de tropeço no caminho dos crentes em demanda, cuja fragilidade emocional não suporta o nosso ‘primarismo pastoral’.”

Neste contexto o Pe. Amaro Gonçalo defende que as paróquias devem adotar novos estilos de evangelização e enumera alguns deles: “Devemos adoptar um estilo amável e acolhedor, um estilo dialogal, um estilo de vida pobre e um estilo familiar”. Além disso, defende, “as Paróquias devem tecer redes de proximidade e de parceria com as pessoas e instituições em campo, para que se tornem significativas e sejam um sinal do Reino, precisamente no tecido social e cultural de cada comunidade.”

Outros testemunhos de missão

Após o almoço, seguiu-se um painel com tema “Testemunhos da Missão”, em que foram intervenientes o Frei Alexandre Jorge (ofm) que falou sobre “O papel dos Franciscanos na Evangelização das nossas Ilhas”.

Começou por uma breve alusão à vida de São Francisco de Assis, ele que fundou a Ordem dos Frades Menores, aprovada em 1209 pelo papa Inocêncio III e não tardou a espalhar-se pela Europa, incluindo Portugal.

Falou depois da ligação  às ilhas sublinhou, desde logo, o facto de que “a presença dos Franciscanos na Madeira se confunde com a própria descoberta da Ilha”. A bordo das caravelas de João Gonçalves Zarco vinham dois Franciscanos, que aqui celebraram “a primeira missa em Machico”. Desde então a ilha foi sempre “procurada por frades em busca de uma vida mais simples e solitária”.

Com o passar dos anos foram “prestando assistência religiosa nas primeiras capelas erigidas na cidade e arredores”, tendo-lhes sido entregue também “o cuidado  pastoral das primeiras paróquias”, em 1430. Mais tarde, 1459/1460, funda-se o Convento de São Bernardino, o primeiro fora do Funchal, que ficou “célebre e afamado em toda a Ilha, e até no continente, por ter ali vivido e falecido Frei Pedro da Guarda (1435-1505), a que o povo chama “santo servo de Deus” (VERÍSSIMO, 2002, 79-91)”.

Hoje, no recuperado edifício, “vivem três irmãos”, sendo este convento um dos imóveis que resistiu até aos nossos dias. Mas se muito do património edificado desapareceu, já o património imaterial ligado às tradições culturais e religiosas é vasto, e permanece bem vivo entre os madeirenses, mostrando “a sua alma franciscana”. Falamos, por exemplo, de tradições associadas ao Natal, à Páscoa e à Eucaristia.

Desde a sua chegada à ilha até à atualidade, “o carisma franciscano constitui a matriz espiritual da alma e da identidade madeirense, em parte devido à implantação geográfica dos conventos franciscanos, que cobriam uma extensa área desde Machico até à Calheta”. A partir destes espaços, os frades empreendiam missões indo ao encontro das gentes que se habituaram à presença dos Franciscanos.

À intervenção do Frei Alexandre, seguiu-se a da Irmã Dulce Pinto, que falou sobre “O testemunho e a acção Missionária da irmã Wilson”, que em toda a sua vida “teve uma atenção especial ao dom da caridade”. A sua missão foi “Ide e anunciai o Evangelho” e continua a ser missão das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, numa Igreja em saída, como o fez a Irmã Wilson. Já no seu tempo ela saiu da cidade ao encontro dos mais desfavorecidos, dos mais vulneráveis.

Dirigiu muitas obras e criou outras quantas, ligadas sobretudo à saúde e ao ensino, em vários pontos da ilha. Muitas continuam ainda hoje a funcionar, e a ser referência do trabalho da “boa Mãe”, como era chamada por muitos daqueles a quem ajudava sem receber nada em troca, a não ser esse carinho que todos tinham por ela. Um exemplo de alguém que se “adaptou à realidade da Madeira, sonhou, chorou, lutou e venceu, venceu pelo amor”, pela vontade de acudir a todos os que dela precisavam, fosse de pão, de amor ou da Palavra. É um exemplo de que, de facto, e como diz o Papa Francisco, todos podemos ser santos.

Já o Pe. Ricardo Teixeira (scj) falou sobre “A acção Missionária dos Padres do Coração de Jesus”. Apesar da presença dos Dehonianos na Madeira ser muito mais recente do que a dos Franciscanos, há 72 anos que estão entre nós, a verdade é que há todo um trabalho feito, que é reconhecido e valorizado, nomeadamente na área do ensino com a fundação do Colégio Missionário. Um colégio que foi fundado em pouco menos de um ano, já que os primeiros sacerdotes chegaram à ilha em dezembro de 1946 e em outubro do ano seguinte o Colégio Missionário abria portas com 10 seminaristas, “oito deles missionários Dehonianos ainda vivos”.

Numa altura em que se fala de crise de vocações, uma das missões do Pe. Ricardo passa por percorrer as escolas da ilha fazendo “promoção vocacional”. Uma promoção que conta com muitos quilómetros percorridos, muitas horas de conversa, que por vezes é olhada de lado, mas que acaba por dar os seus frutos, aparecendo alguns rapazes no colégio “sempre com esse sonho da missão”. Não é fácil este trabalho, mas tem de ser feito e feito em colaboração com outras instituições de ensino, que é onde os jovens estão e onde estão as associações de pais. E feito também “nas zonas pastorais em que estamos presentes, nomeadamente na Ribeira Brava, nas suas várias freguesia e no Curral dos Romeiros.”

A terminar o Pe. Ricardo Teixeira falou ainda da sua experiência como missionário na China, que só não foi prolongada porque o seu visto não foi renovado. Diz que foi “uma missão desafiante”, num país onde os cristãos continuam a ser perseguidos, mas onde as Igrejas e as comunidades cristãs existem e mantém-se, “não porque têm grandes missionários”, mas antes porque “têm uma grande fé”.

Finalmente o Pe. Carlos Almada, o mais jovem sacerdote diocesano, falou sobre o tema “Juntamente com os jovens, levemos o Evangelho a todos”. Um tema que é também o título da carta do Papa Francisco para o mês das missões, publicada em outubro passado. Uma carta que é mais um sinal dos muitos que tem marcado o pontificado do Papa Francisco no que aos jovens diz respeito e que, conforme refere o Pe. Carlos tem “uma base de tradição bíblica, uma fé, uma figura, personagens bíblicas, mas também há alusão aos grandes documentos da igreja, que o Papa não tem medo de citar, os grandes documentos da Igreja, principalmente do Concílio Vaticano II, ou a Carta de Paulo VI, que ele dirigiu ao jovens logo que acabou o Concílio e em que ele dizia: jovens o concílio também foi para vós; o Concílio diz que conta convosco, vós sois a força da evangelização”.

Mais recentemente Francisco quis ouvir os jovens, para saber o que é que eles pensam, do que é que precisam e como é que a Igreja os pode acompanhar.  É o episódio dos discípulos de Emaús, narrado pelo evangelista Lucas, o fio condutor do Documento Final desse Sínodo dos Jovens, que olha para o contexto, para “a realidade” em que vivem os jovens. Olha, como frisou o Pe. Carlos, para “onde estão os nossos jovens, se era aí que eles deviam estar e se era aí que a Igreja queria que eles estivessem”.

Claro que para conhecer essa realidade é preciso tempo. Tempo para uma escuta empática que, com humildade, paciência e disponibilidade, que permite dialogar realmente com os jovens, evitando respostas pré-concebidas e receitas prontas.

Os jovens, de facto, querem ser “ouvidos, reconhecidos, acompanhados” e querem que a sua voz seja considerada interessante e útil no campo social e eclesial. E a verdade é que a Igreja nem sempre teve essa atitude. Muitas vezes sacerdotes e bispos, sobrecarregados por muitos compromissos, lutam para encontrar tempo para o serviço da escuta. Daí a necessidade de preparar adequadamente também leigos, homens e mulheres, capazes de acompanhar as jovens gerações. Diante de fenómenos como a globalização e a secularização, além disso, os jovens movem-se em direção a uma redescoberta de Deus e da espiritualidade e isso deve ser um estímulo para a Igreja, para recuperar a importância do dinamismo da fé.

Por outro lado “os jovens também têm de se sentir protagonistas”, refere o Pe. Carlos Almada, para logo sublinhar que “o Papa convidou a que os jovens tenham voz nos secretariados nacionais diocesanos da pastoral juvenil e vocacional, para que digam o que os da sua idade querem e o que a Igreja pode dar”. Agora é preciso passar à ação e ver como enquadrar a juventude, de uma forma transversal, na vida da Igreja.

A Jornada Diocesana do Apostolado dos Leigos terminou pelas 16 horas, com vésperas de Cristo Cristo Rei.