Igrejas lembraram o fim da Primeira Guerra com celebração ecuménica em que rezaram pela Paz

Foto: Duarte Gomes

Integrada nas iniciativas que têm assinalado os 100 anos do fim da I Guerra Mundial decorreu sexta-feira, dia 9 de novembro, na igreja de Santa Clara a celebração ecuménica ‘Juntos pela Paz’, presida pelo bispo diocesano, D. António Carrilho, e participada por representantes das igrejas Anglicana, pastor Barry Thomas, Presbiteriana, pastor Jorge Gameiro e Luterana, Ilse Berardo.

No inicio da celebração, o cónego Fiel de Sousa, lembrou aspectos relacionados com a história, nomeadamente o facto de durante a Primeira Guerra Mundial, a baía e a cidade do Funchal terem sido atingidas por dois bombardeamentos realizados por submarinos alemães: o primeiro ocorreu na manhã de 3 de dezembro de 1916, pelo U38 e o segundo na manhã de 12 de dezembro de 1917, dias depois de ter sido inaugurado o Monumento às Vítimas da Guerra, realizado pelo U156. Este novo ataque iniciou-se às 6:20 horas e durou cerca de 30 minutos. O submarino bombardeou uma área dispersa da cidade com cerca de 50 tiros para terra e ao contrário do bombardeamento do ano anterior anterior causou a morte de 5 pessoas e ferimentos a 30 outras. Uma das granadas caiu na Igreja de Santa Clara, ferindo o Padre Abel da Silva Branco que se encontrava a celebrar missa.

Por essa razão, volvidos 100 anos, foi escolhida a Igreja de Santa Clara para esta celebração ecuménica, que se dividiu em três partes distintas: a caminhada da luz, a escuta da palavra de Deus e o compromisso e envio. Uma forma de recordar e homenagear, “todos os que pereceram ou ficaram feridos nos ataques, não apenas na Madeira e em Portugal, mas no mundo”. Afinal, disse ainda o vigário geral, “o tempo já passado não nos dá o direito de os esquecermos ou os relegarmos para os arquivos das nossas estantes”.

Também não podemos “esquecer a realidade actual” que, “num compromisso universal”, nos obriga a que “gritemos bem alto, aos quatro cantos do mundo, jamais à guerra, à violência e à morte”. Em vez disso é preciso, frisou, “construir um mundo onde a paz não seja uma miragem, mas sim uma realidade”, na certeza de que “esta tem de nascer, em primeiro lugar, no coração de cada homem”.

Depois deste acolhimento, com parte das luzes da apagadas e a igreja a ser iluminada pela cintilante luz das velas que cada um segurava, deu-se início à celebração propriamente dita. Nela participaram entidades civis e militares, mas também inúmeros fiéis, mais ou menos anónimos, que se quiseram juntar a esta oração comum pela paz. Uma celebração em que houve momentos de palavra e de silêncio, de cânticos e de orações cantadas e de palmas, em que foi entoado o toque fúnebre pelos mortos, pela Banda Militar, que tocou ainda o Hino da Alegria e mais tarde, já no claustro, o toque da alvorada.

Após o momento de silêncio pelos mortos, Graça Alves leu um texto da sua autoria em jeito de oração (que publicamos na íntegra). Um texto em que se dizia que “as grandes coisas, moram em palavras pequenas”, tal como a palavra “Mãe”, “pai” ou “Paz”, a qual “transporta, em si, toda a serenidade do mundo, quando o fantasma da guerra escurece os dias e nos rouba a esperança”. Um texto através do qual “percebemos, então, que na palavra Paz, mora a essência do coração da Humanidade e, dentro dele cabe tudo o que é preciso para sermos felizes, na nossa diversidade”.

Um texto que termina chamando-nos a todos a um compromisso do qual depende essa Paz que tanto almejamos: “Deus é a Casa onde cabemos todos. Hoje, aqui, juntos, unidos pela paz, somos os braços da videira que se ergue do chão, somos as estrelas que se acendem na noite, somos o grito de esperança que arrasa as guerras. Hoje, como há 100 ano, assinamos o armistício. Dentro de nós, uns com os outros, em Deus”.

Mais adiante, cada igreja ali representada fez a sua oração pela Paz, intercalada pelo cântico “Laudate, omnes gentes, Laudate Dominum”. Ilse Berardo lembrou, que a 9 de junho de 1918, entre milhares de crianças, “nasceu uma menina, a minha mãe, na derrotada Alemanha”. Uma partilha pessoal, para sublinhar que aqueles eram “tempos de destruição, de culpa e de desespero” e para referir que “as crianças não herdam a culpa, mas sim a responsabilidade”, como aconteceu com a sua mãe, de “cair nas trevas de uma Alemanha desviada do caminho dos teus mandamentos”. Num contexto mais em sintonia com a actualidade que vivemos, Ilse Berardo disse que é necessário “condenar e combater todas as formas de racismo, nacionalismo e homofobia”, como forma de caminhar para a Paz.

Já Jorge Gameiro falou da origem da guerra. Falou de Caim e Abel, que mais do que irmãos, representam “dois povos, dois paradigmas de sociedade”. Disse mesmo que as guerras começaram “no dia em que se construíram os celeiros e em que a riqueza foi guardada”. Os que não semeavam queriam colher, os que não cuidavam queriam ter e assim se iniciaram os conflitos. Isso deu lugar à incapacidade de olhar para a diferença como algo positivo e que nos enriquece.” Depois da Primeira Guerra, disse, outras mais vieram, sinal de que “não aprendemos com os nossos erros”. Basta ver o dinheiro que se continua a gastar em armas e que podia, e devia, ser “investido na educação do mundo, na educação para a Paz e para o respeito pela diferença”.

Barry Thomas, por seu turno, referiu-se ao esforço que é preciso continuar a fazer para “vivermos Unidos e em Paz, como é vontade do Senhor”. Para isso apelou a “Deus todo o poderoso”, que coloque no coração dos homens, especialmente daqueles que têm a responsabilidade e autoridade de governar, essa semente da Paz.

Por fim o bispo do Funchal também fez a sua oração que também aqui publicamos na integra, mas de que registamos esta passagem: “Que todas as nações deponham as armas,/Os ódios, as violências e as guerras,/E se transformem em mensageiros,/em instrumentos de Paz./Que não tenham medo de partilhar os dons,/De secar as lágrimas dos que choram,/Dos que sofrem e se perdem nos labirintos da vida.”

Seguiu-se a cerimónia de envio e a bênção final, após a qual os presentes foram convidados a passar ao claustro. Ali fez-se um brinde ao centenário do fim da guerra, mas sobretudo um brinde pela Paz, que muitas nações precisam encontrar no mundo actual, onde os conflitos continuam a ceifar vidas, muitas delas inocentes.

Recorde-se, a terminar, que o cessar-fogo aconteceu a 11 de novembro de 1918, episódio mais tarde conhecido como Dia do Armistício, que é assinalado hoje com diversas iniciativas e momentos.