Pe. Amaro Gonçalo: “Estamos demasiado habituados a ver a missão como um ‘à parte’ ou um adorno da nossa vida cristã”

D.R.

No próximo dia 24 de novembro o Colégio de Santa Teresinha volta acolher mais uma Jornada Diocesana do Apostolado dos Leigos. Este ano o convidado “de fora” é o Pe. Amaro Gonçalo, que acedeu conceder-nos uma pequena entrevista em que se apresenta aos nossos leitores e em que partilha algumas das ideias que conta abordar na referida jornada. Uma delas é a de que “estamos demasiado habituados a ver a missão como um ‘à parte’ ou um adorno da nossa vida cristã”. Outra é a de que “não há estratégias pastorais que nos valham, se o ardor da santidade não contagiar os outros, porque a primeira forma de evangelização é o testemunho”. 

Jornal da Madeira – Em linhas gerais, e em jeito de apresentação, quem é o Pe. Amaro Gonçalo?

Pe. Amaro Gonçalo Sou natural de Eiriz, Paços de Ferreira, diocese do Porto. Nasci numa família de 12 irmãos. Eu e a minha irmã gémea somos os mais novos. Tenho 52 anos. Entrei para o Seminário com 18 anos. Sou Padre há 27 anos. Fui Pároco, numa cidade do interior, Amarante, em duas paróquias, São Gonçalo e São Veríssimo, ao longo de 16 anos, dois dos quais em acumulação com o cargo de Diretor-Adjunto do Colégio de São Gonçalo. Desde 21 de setembro de 2008, já fez dez anos, sou Pároco de Nossa Senhora da Hora, conhecida, aqui no Continente, pela Efanor (a Fábrica dos carrinhos de linhas) e hoje muito marcada por uma grande superfície comercial, o Norte Shopping, que é vizinho “concorrente” da Igreja. É uma paróquia urbana, com mais de 30 mil habitantes, 26 grupos paroquiais, sem contar os da frequência da catequese, que acompanha cerca de 550 crianças, adolescentes, jovens e também adultos. Na Diocese do Porto, estive estreitamente ligado à conceção do Plano Diocesano de Pastoral para o quinquénio 2015-2020 e tenho colaborado na elaboração das caminhadas diocesanas de vivencia dos tempos fortes do ano litúrgico. Continuo a fazer parte da Equipa de Coordenação Pastoral. Sou membro eleito do Conselho Presbiteral da Diocese. 

Jornal da Madeira – É a primeira vez que vem à Madeira? 

Pe. Amaro Gonçalo Curiosamente, fui à Madeira, pela primeira vez no Verão de 1992, ainda sem conhecer a nomeação para as Paróquias de São Gonçalo e São Veríssimo, em Amarante. E, como me chamo “Gonçalo”, não me passou despercebida a placa direcional para “São Gonçalo” à saída do aeroporto. Seria esse o nome do meu lugar de missão, ao regressar de férias. Estive três dias na Ilha de Porto Santo, há dois anos, para vir dar um abraço a um casal amigo, nos seus 25 anos de matrimónio. 

Jornal da Madeira – Como é que encarou este convite para ser um dos oradores destas Jornadas Diocesana do Apostolado dos Leigos?

Pe. Amaro Gonçalo Encarei-o com surpresa, porque não sou “especialista”. Ou melhor, a especialidade dos párocos é a de “clínica geral”. Tenho Mestrado em Ciências da Educação, gosto muito de ler e de estudar, para estar a par e poder corresponder aos desafios que a cultura atual me coloca. Mas, como não sou “perito” em Teologia Pastoral, estranhei o convite. Mas sei que, através da internet e das redes sociais, e pelo próprio “contágio” entre colegas, tenho muitos “fãs” e seguidores da minha “produção pastoral”, muitos “amigos”, “leitores” e “correspondentes” na diocese do Funchal, tanto padres, como fiéis leigos, sem esquecer o vosso Bispo, que partiu do nosso Porto para a Madeira em missão.  

Jornal da Madeira – Na sua primeira conferência vai abordar “A consciência Missionária de todos os Batizados”. Perdemos de alguma forma essa consciência. Esquecemo-nos, de alguma maneira, que ao recebermos o Sacramento do Batismo nos foi dada essa tarefa?

Pe. Amaro Gonçalo Sim. Estamos demasiado habituados a ver a missão como um “à parte” ou um adorno da nossa vida cristã. Reduzimos a ideia de “missão” à de uma voluntária colaboração na paróquia ou de pertença a algum movimento ou instituição da Igreja, esquecendo-nos de que a missão começa em casa, na família, no próprio meio, ou, como diz o Papa Francisco, citando um outro autor “esquecemo-nos disto: não é que a vida tenha uma missão; mas a vida é uma missão”. E essa missão é algo gravado no mais íntimo do coração do cristão como se, sem ela, o nosso ser se esboroasse por completo. É mais ou menos isso que diz São Paulo, na expressão “ai de mim se não evangelizar”, que é como quem diz, “ai de mim, estou perdido, desfaço-me, desintegro-me, esfrangalho-me…. se não anunciar o Evangelho”. A missão brota necessariamente do encontro com Jesus Cristo, porque tal graça não pode ficar guardada como relíquia de museu nas nossas recordações. Depois, irei insistir numa coisa: isto do “respeito pela diferença” (que é bom e justo) está-nos a fazer cair na tentação da “indiferença”. Renunciamos a propor e a contagiar a alegria da fé, por força de respeitos humanos e por falta de convicções, ardor e ousadia e até por cobardia.

Jornal da Madeira – “Paróquias Missionárias. Como?” vai ser outro dos temas que vai abordar. A propósito das paróquias li que o senhor padre considera que elas “tendem a ser um espaço caloroso, para quem nelas se abriga”, mas que podem ser também um espaço de “isolamento” dos fiéis. Como é que se combate esse isolamento e essa tendência para as pessoas se acomodarem? 

Pe. Amaro Gonçalo A resposta à pergunta vem um pouco naquilo que já disse. Não há estratégias pastorais que nos valham, se o ardor da santidade não contagiar os outros, porque a primeira forma de evangelização é o testemunho. Podemos realizar muitas iniciativas, lançar muitas propostas, sair para a rua, mas se cada um, na sua casa, no seu lugar, no seu emprego, nos seus lugares de vida comum, não deixar arder esta chama da fé que se apega, não conseguiremos praticamente nada e então tudo se apagará, no final da festa. Estou mesmo convencido disto, diz o Papa: “a Igreja não precisa de muitos burocratas e funcionários, mas só de missionários apaixonados, devorados pelo entusiasmo de comunicar a verdadeira vida”. Nenhuma técnica ou motivação serão suficientes para relançar a missão, às gentes de além-mar ou entre as nossas gentes, “se não arder nos corações o fogo do Espírito”, que nos santifica, se não irradiar da nossa vida a beleza, o fulgor e o ardor da santidade. 

Jornal da Madeira – Mas então quanto à conversão missionária das paróquias? 

Pe. Amaro Gonçalo O Papa fala no risco de as pessoas se tornarem, na paróquia, “um grupo de eleitos que olham para si mesmos”, preocupados apenas em assegurar a gestão corrente dos serviços religiosos, de tal modo que muitas vezes nós, os padres, em vez de “pastores” nos tornamos “penteadores das ovelhas” e os fiéis, em vez de queimarem energias na missão, tornam-se consumidores passivos, uma espécie de “ovelhas de engorda”. Uma Paróquia, sobretudo nos meios urbanos, se não está atenta e se vive em “circuito fechado” torna a Igreja absolutamente irrelevante no seu meio. Para ser missionária, ela precisa que cada um dos seus fiéis se torne um guia solícito no meio das gentes que andam à procura, mesmo se aparentemente meio-perdidos; precisamos muito de cristãos capazes de serem bons ouvintes, interessados na escuta dos que têm histórias de vida para contar, a fim de ajudar a “desvendar” nelas a presença de Deus, que ali permanece escondida. Missão não é colonização, como se fôssemos acrescentar mudar a marca da sua roupa. Missão é, antes de mais, anunciar Aquele que se esconde no desejo e até no desvario de cada pessoa. Na verdade, Deus atua em todos e em todos Se encontra. Portanto, não se trata, na missão, nem de propaganda da fé, nem de colonização religiosa. Mas de propor um sentido, a quem no mais fundo de si mesmo já possui tantos sinais da graça, tantas “sementes do Verbo”, como diziam os Padres da Igreja. Tenho medo que se confunda “missão” com colonização ou “evangelização” com saturação de mensagens bíblicas. 

Jornal da Madeira – Por onde começa então a missão nas paróquias?

Pe. Amaro Gonçalo As paróquias têm de primar pela qualidade do seu ambiente humano e cristão, pela beleza e atração das suas celebrações, pela qualidade dos serviços que prestam, a começar por um acolhimento alegre e exigente, por um diálogo paciente, face a face, e não pela afronta ou pela exibição do poder da estrutura sobre quem vem pedir qualquer coisa e nem sequer sabe falar o nosso «eclesialês». Estamos contaminados pelo “´vício administrativo” nas nossas paróquias, quando elas, na sua organização, horários e estilos, não são muito diferentes das repartições de finanças ou dos CTT, com todo o respeito para os seus funcionários. As chamadas “periferias existenciais” estão todos os dias a entrar-nos pela porta dentro e não vale a pena ter um grande impulso para se fazer ao mar, se não cuida bem das pessoas em terra. Um mau acolhimento, uma celebração descuidada, uma homilia desastrada, uma exigência desproporcionada, uma decisão insensata… são uma enorme pedra de tropeço no caminho dos crentes em demanda, cuja fragilidade emocional não suporta o nosso “primarismo pastoral”. Depois acho que as Paróquias devem tecer redes de proximidade e de parceria com as pessoas e instituições em campo, para que se tornem significativas e sejam um sinal do Reino, precisamente no tecido social e cultural da comunidade. 

Jornal da Madeira – O senhor padre defende, e já escreveu até sobre isso, que há palavras que precisam de um alargamento semântico: vocação, santidade e também missão. Nenhuma delas é, em seu entender, “propriedade” de meia dúzia de pessoas. Antes pelo contrário…

Pe. Amaro Gonçalo Falámos ao início desta conversa, em ardor da santidade, que é vocação universal de todos os batizados, e da qual deriva, por assim dizer, a vocação universal à missão. Mas são termos que estão demasiado conotados com uma parte, uma elite, um grupo dentro da Igreja. Por isso, temos de alargar o seu campo semântico. Sim, comecemos pela “Vocação” de que tanto se falou no último Sínodo. Esta não é um privilégio exclusivo de padres, freiras e monges, mas tem a ver com a resposta que todos os batizados são chamados a dar à voz do Senhor, que os chama à Sua presença, à intimidade da amizade com Ele e ao seu seguimento feliz, no caminho da vida. A partir daqui vocação implica escuta e resposta, definição de um projeto de vida para cada pessoa, tendo como modelo inspirador Jesus Cristo, que veio para servir e dar a vida. É preciso dizer a todos, sobretudo aos mais novos: «Não importa onde, não importa como, nem importa tanto o que fazes “na vida” mas o que fazes “da” tua vida». Agora há uma coisa: não existe, na Igreja, a figura do cristão “solteirão”, sem compromisso nem serviço aos demais. Portanto, não há cristãos “sem vocação”. Porque todos somos chamados a seguir Jesus Cristo, em todas as idades, profissões, estados de vida. 

Jornal da Madeira – Quando se fala de Missão, e estamos num ano dedicado precisamente à Missão, pensamos sempre em projetos distantes, “missões ad gentes”. Mas a verdade é que devemos e podemos ser missionários exactamente onde estamos… 

Pe. Amaro Gonçalo Missão não é tarefa de especialistas, de peritos da evangelização, em terras além-mar. Todo o discípulo é missionário, porque a experiência amorosa do encontro com Cristo frutifica numa alegria que ninguém aguenta guardar só para si. E esta missão, mesmo sendo necessária, lá longe, “em terras de missão” não pode ser ignorada cá perto, a começar pela nossa vida, pela nossa casa, pela nossa terra. Quantos amigos e familiares, colegas e companheiros de trabalho ou de convívio, desconhecem a Cristo, nunca se deixaram encontrar com Ele, nunca descobriram a alegria do Evangelho? Que fizemos para deixarem brotar de dentro de si a água viva da presença de Cristo?! Por isso, insisto (e ressalvando toda a admiração e gratidão pelos “missionários” ad gentes… em terras mais ou menos longínquas): realmente “eu sou uma Missão na minha terra” e então sim, somos todos missionários. Não necessariamente “ad gentes” (aos gentios, lá mais longe) mas sempre “inter gentes” (entre os nossos, entre as nossas gentes). Se eu puder “entrar pela Madeira dentro” para vos ajudar a vencer a síndrome de Jonas (depois falaremos) e incendiar-vos com este fogo do Evangelho, regressarei muito feliz pelo desassossego a que o mar já vos habituou. Obrigado por esta bela oportunidade, que não vai ser de trabalho, para mim, mas de encontro e de festa com todos vós. Até breve, se Deus quiser.