Síria: A missão discreta da Irmã Samia

Foto: AIS

Por Paulo Aido

A cidade de Homs esteve no centro da guerra na Síria. Por lá travaram-se encarniçadas batalhas que trouxeram sofrimento e morte. No meio do caos, algumas irmãs do Sagrado Coração faziam o que podiam em socorro das populações. E nunca deixaram de erguer as suas vozes ao Céu em oração, mesmo quando as bombas caíam ao lado da sua casa.

Curar corações que choram. Numa simples frase cabe toda a vida, toda a missão da Irmã Samia Jriej, em Homs, a terceira cidade mais importante da Síria. Foi lá que começou o movimento de protesto contra o presidente Bashar al Assad, em 2011, que depois degenerou em guerra. Guerra que ainda não acabou. Aliás, dificilmente a guerra algum dia terminará para todas as pessoas que viveram o susto das bombas, o rebentar da artilharia, o zumbido das balas assassinas. Homs assistiu a algumas das mais encarniçadas batalhas nesta guerra que já entrou no oitavo ano. Até ao início de 2014, a chamada cidade velha de Homs ainda estava debaixo do controlo de milícias armadas. Cerca de três mil pessoas viveram aí encurraladas, durante meses, sem acesso a comida e a medicamentos, com os céus a serem sulcados por aviões que despejavam bombas e morte. A guerra em Homs é agora apenas uma dolorosa memória. É tão dolorosa que há pessoas que ainda começam a chorar quando recordam o barulho insuportável das metralhadoras, as bombas a deflagrarem cobardemente, deixando rios de sangue e gritos de dor. No meio do caos e do medo, as pessoas de Homs sabiam que podiam contar, no entanto, com o sorriso fraterno, com a ajuda indispensável das Irmãs do Sagrado Coração. Durante todos estes anos, elas têm sido uma espécie de anjos da guarda dos que choram, dos que sofrem. Dos que têm medo.

Irmã Samia das irmãs do Sagrado Coração com crianças | Síria | Natal de 2017 | Foto: AIS

A irmã catequista

Uma das irmãs é Samia Jrej. Todos a conhecem. Ela é jovem ainda, tem um sorriso doce, uma voz meiga e sabe que o trabalho que a sua congregação desenvolve na cidade de Homs é absolutamente vital. Além da catequese, de que Samia Jrej é a coordenadora, além do trabalho pastoral, as irmãs abraçaram outra frente de batalha na guerra pela reconquista da esperança. É preciso devolver sorrisos às crianças e jovens que tantas vezes não conheceram outra realidade que a de bombardeamentos, de pessoas feridas, de gritos de morte. A Irmã Samia aponta o dedo para o outro lado da rua, a apenas meia dúzia de metros, e mostra o local onde um dia deflagrou uma bomba. Foi uma explosão tão poderosa que destruiu parte do telhado da casa das irmãs. É difícil sobreviver-se a memórias tão cheias de violência. A catequese ajuda a isso e tem feito pequenos milagres. São cada vez mais os jovens que procuram as irmãs, que entendem que elas simbolizam a paz, a concórdia. O amor. E como os Sírios precisam tanto dessa vitamina que é o amor. As Irmãs do Sagrado Coração, em Homs, dedicam ainda uma atenção especial às crianças e jovens com dificuldades intelectuais. É preciso olhar para todos. Rezar por todos. Com elas ninguém fica para trás.  As irmãs olham para o futuro com a confiança da fé. Mas não esquecem o passado. “Há muitas crianças que viram coisas terríveis durante a guerra. Vir para aqui – explica ela a uma equipa da Fundação AIS que esteve recentemente em Homs – ajuda-as a curar-se e a ocupar a mente com algo que não seja a guerra…” Sempre que uma criança entra na capela do centro, se ajoelha e começa a rezar, a irmã esboça um sorriso. O trabalho das Irmãs do Sagrado Coração é apoiado pela Fundação AIS. Já o era nos tempos encarniçados da guerra e continuará a ser até que as feridas sarem por completo. A paz é muito mais do que a ausência de guerra. A Irmã Samia sabe que a verdadeira paz só se atinge com corações sossegados. E que nada se consegue sem oração. As irmãs, na sua simplicidade, estão a conseguir curar corações que ainda choram. São pequenos milagres que acontecem ali, em Homs, na Síria.