Domingo XXXI do tempo comum: Um amor entrelaçado

D.R.

Por D. António Couto

1. O que se passa no átrio do Templo tem carácter público. Vê-se que a discussão antes havida entre Jesus e os saduceus (Marcos 12,18-27) teve mais audiência além dos diretamente envolvidos. A prova é que o escriba que Marcos põe agora em cena em 12,28-34, que constitui o Evangelho proclamado neste XXXI Domingo do Tempo Comum, tinha presenciado essa discussão e tinha ficado satisfeito com a resposta dada por Jesus. Nem sempre os escribas andam carregados de malícia. O escriba de hoje é um homem atento, aberto, bem-intencionado e bem-disposto. A pergunta que faz a Jesus não é uma pergunta armadilhada, como sucede nos paralelos de Mateus 22,35-36 e de Lucas 12,25. A pergunta do escriba de hoje baseia-se precisamente no facto de ele considerar boa a resposta de Jesus aos saduceus. A pergunta que faz: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» (Marcos 12,28) é, portanto, bem-intencionada, não se destina a pôr Jesus à prova, nem a arrastá-lo para o plano inclinado da interminável discussão académica. De facto, os mestres judeus, lendo minuciosamente a Lei, ou seja, os cinco primeiros Livros da Bíblia [= Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio], e reduzindo-a a preceitos, tinham contado lá 613 preceitos, sendo 365 [tantos quantos os dias do ano] negativos e 248 [tantos quantos, assim se pensava então, os membros do corpo] positivos.

2. A questão que entretinha os mestres e as suas escolas era a de estabelecer uma ordem nesses 613 preceitos ou mandamentos, dizendo qual consideravam ser o primeiro ou o mais importante ou o maior, e assim por diante. Discussão pedante, interminável e natural fonte de conflitos, pois, como sói dizer-se, cada cabeça sua sentença, cada mestre sua sentença. Pelo menos. Pois é conhecido o velho dito acerca dos hebreus: «Onde está um hebreu, há duas opiniões». Qual seria então a posição de Jesus nesta matéria, e como a defenderia?

3. Porque Jesus percebeu a boa intenção daquele escriba, assim também lhe responde, de forma direta e amigável, com apreço, começando por citar ou rezar o Shemaʽ Yisraʼel [= «Escuta Israel], a mais importante afirmação de fé do povo hebreu: «O primeiro é este: “Escuta, Israel: o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua inteligência e com todas as tuas forças”» (Marcos 12,29-30), oração que todo o hebreu piedoso recitava todos os dias, de manhã e à tardinha, e que é formada pelo texto do Deuteronómio 6,4-5. Mas Jesus não dá por terminada a sua resposta, pois continua assim: «O segundo é este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”» (Marcos 12,31a), citando o Livro do Levítico 19,18. E agora sim, fecha a sua resposta, dizendo: «Não há outro mandamento maior do que este» (Marcos 12,31b). O escriba perguntou a Jesus pelo primeiro. Na sua resposta, Jesus expõe o primeiro, mas acosta-lhe o segundo, concluindo que os dois são um único mandamento: «Não há outro mandamento maior do que este».

4. Para Jesus, o primeiro mandamento são dois amores entrelaçados: amar Deus e amar o próximo. O génio cristão consiste na capacidade de manter unidos e bem articulados e equilibrados estes dois amores, pois há quem, para amar a Deus se afaste dos homens, e quem, para lutar ao lado dos homens, se esqueça de Deus. Ora bem, o realismo bíblico ensina-nos que onde e quando estes dois amores se separam, ficamos no terreno da mentira, da falsidade e da idolatria. Na verdade, quando tu dizes que amas a Deus, mas não te importas do próximo, não reages perante as injustiças e não lutas contra a opressão, a que Deus te referes? Não seguramente ao Deus de Jesus Cristo, mas a um deus por ti próprio construído. Do mesmo modo, quando dizes que amas o próximo e o serves, mas recusas entregar-te totalmente a Deus, cairás facilmente nas mãos dos ídolos (a tua ideologia, o teu modelo de libertação, a tua política), e pensando que amas o próximo, nem te apercebes que o estás a instrumentalizar: queres libertá-lo, impondo-lhe as tuas ideias, a tua visão do mundo, a tua justiça. Já para não dizer, e isto é até o mais grave, que enquanto queres ajudar o homem a ser mais homem, o estás a afastar da sua necessidade mais profunda, da sua busca essencial, que é o próprio Deus.

5. Dois amores entrelaçados e inseparáveis. Cada um leva à verificação do outro. Mas não iguais. Amar a Deus, único Senhor da nossa vida, requer a totalidade de nós: «com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua inteligência e com todas as tuas forças». Este amor não é divisível com nenhum outro. Não se chega a Deus com alguma coisa de nós. Só chegamos a Deus se formos inteiros, com todas as nossas raízes, caule, folhas, flores e frutos. A medida do nosso amor a Deus é a inteireza e a totalidade. Chegados a este ponto, impõe-se que nos interroguemos acerca do nosso real comportamento para com Deus: não sucederá que, atolados nos afazeres e preocupações do dia-a-dia, não cheguemos sequer a pensar n’Ele, não tenhamos tempo para Ele, que muitas vezes nos sintamos inseguros e cheios de dúvidas, que não saibamos sequer o que fazer com Ele? A medida do amor ao próximo tem um tempero diferente: somos nós («como a ti mesmo»).

6. O escriba aprova o dizer de Jesus: «Muito bem, Mestre, tens razão…» (Marcos 12,32-33). E Jesus aprova o dizer do escriba: «Não estás longe do Reino de Deus» (Marcos 12,34). Entre Jesus e o escriba existe uma recíproca admiração. Também esta nota é importante, dado que habitualmente, o Evangelho trata os escribas com duras críticas. O texto de hoje diz-nos que, também entre os escribas, há pessoas «não longe». Portanto, para o Evangelho, não há categorias ou classes de pessoas excluídas à partida. E é o amor a Deus e ao próximo a chave que abre a porta do Reino de Deus.

7. O texto de Deuteronómio 6,2-6 é hoje o chão lavrado deste belo Evangelho. Aí ouvimos a fortíssima exortação de Moisés, no último dia da sua vida: escutar, amar, praticar é o caminho para a Terra Prometida e para a Felicidade. E a grande homilia que é a Carta aos Hebreus (hoje 7,23-28) diz-nos que Jesus, o Filho, é o nosso verdadeiro Sumo-Sacerdote, que preside, hoje também, ao culto dos nossos lábios, das nossas mãos e do nosso coração.

8. Um Deus fiel, seguro, firme como «rocha», que não oscila nem engana, atento e próximo do homem, sobretudo dos mais fragilizados e em dificuldade, eis o fluxo poético que nos oferece o grande Te Deum que é o Salmo 18, que tem muitas afinidades com o «Cântico de David», registado em 2 Samuel 22. Deixemo-lo tomar conta de nós. Este Deus e este fluxo poético. E cantemos com o orante e como ele, com todo o coração, alma, mente, energia, arte: «Eu te amo, Senhor, minha força!» (Salmo 18,2).