As origens da arte cristã – na senda da (L)luz

Séc. III-IV, Roma, Catacumba de Priscila, Teto do Cubículo da Velada, Cenas paradisíacas com o Pastor-Crióforo ao centro, Jovens hebreus na fornalha ardente, pormenor do ciclo de Jonas, e referência biográfica da mulher ali sepultada | D.R.

Por P. António Estêvão Fernandes

A celebração da Festa de Todos os Santos (1 de Novembro), bem como a Comemoração de todos os Fiéis Defuntos, a ela unida pela celebração no dia seguinte, oferece-nos a oportunidade de visitar aquilo a que podemos chamar o berço da arte cristã. De facto, as suas raízes encontram-se, na sua quase totalidade, nos lugares onde os cristãos sepultavam os membros da comunidade cristã e a eles prestavam culto funerário, desde fins do II século. O primeiro artefacto cristão é o comumente chamado “Troféu de Gaio”, pequeno monumento que assinala a sepultura do apóstolo São Pedro, na Necrópole Vaticana, referido por Eusébio de Cesareia, na História Eclesiástica. Acostada à sepultura do apóstolo e mártir, encontramos uma pequena decoração arquitetónica que assinala a memória do culto funerário da comunidade cristã ao Apóstolo Pedro.

Contudo, o fundamental berço da arte cristã são as catacumbas. Antes de tudo é importante clarificar o termo “catacumbas”. Refere-se, primeiramente, a uma área geográfica maioritariamente composta por substratos arenários com cavidades (etimologicamente o termo catacumbas significa “junto das cavidades”), situada na Via Ápia, em Roma. Posteriormente, aquele termo designará os espaços utilizados maioritariamente pelos cristãos para sepultar os seus defuntos, seja por uma questão económica, era muito mais barato sepultar segundo o sistema desenvolvido nas catacumbas, do que à superfície, seja por uma questão de fé, pois os cristãos sentiram a necessidade de terem um espaço para sepultar os membros da sua comunidade unidos pelo vínculo da mesma fé e de por eles rezar. De esclarecer ainda que estes espaços não foram usados pelos cristãos como esconderijo, para se protegerem de perseguições ou para celebrarem a sua fé em segredo. Eram lugares conhecidos das autoridades e do povo romano. Esta conceção deriva uma interpretação errónea de algumas fontes antigas que apontavam para a residência alguns Papas naqueles espaços. Ali residiram de facto, mas depois da sua morte. Desde o início as catacumbas foram, única e exclusivamente, lugares de sepultura e de culto fúnebre aos membros das comunidades cristãs e mais tarde lugares de peregrinação para veneração dos seus santos mártires.

Séc. III, Roma, Catacumbas de S. Calisto, Cubículo dos Sacramentos (A3), Faixa superior: ciclo de Jonas, Faixa central, Cenas de Banquete e Batismo de Jesus | D.R.

A ressurreição no início da Arte Cristã

Os primeiros dois séculos da era cristã são marcados por um silêncio iconográfico que deriva da tendência anicónica judaica (os judeus não podiam fazer imagens segundo os mandamentos da lei), mas sobretudo pela lenta organização e estruturação das comunidades cristãs, no seio do império romano. Este período é de facto um espaço de incubação, no qual a linguagem iconográfica, arquitetónica e funerária cristã se insere no contexto da linguagem profana em vigor. Assim, é no III e IV século que, nas catacumbas de Roma, se desenvolvem as primeiras pinturas nas paredes, tetos e outros espaços livres. São imagens muito simples, do âmbito da “arte popular”, de estilo comum à arte pagã desse mesmo período. A linha semântica que preside a esta iconografia embrionária não é a da morte, nem mesmo do martírio. 

O léxico iconográfico é de caracter cristológico e soteriológico, evocando a ressurreição e a dimensão salvífica da fé em Jesus Cristo. Por um lado é apropriada a linguagem iconográfica pagã, seja na constituição de um ambiente paradisíaco, pela figuração de flores, aves, do pastor-crióforo (mais tarde identificado com Cristo Bom Pastor), seja com a representação figurativa dos banquetes fúnebres, também realizados durante algum tempo pelos cristãos, e cujos elementos pictóricos, algumas vezes, são identificados com a Eucaristia. Por outro, destaca-se a progressiva transferência das narrativas bíblicas para a linguagem iconográfica. As cenas bíblicas de Jonas e de Lázaro (prefiguração da Ressurreição), abundantemente usadas na decoração escultórica dos sarcófagos em fase posterior, mas também as passagens do baptismo de Jesus, da serpente elevada no deserto por Moisés e do sacrifício de Isaac são, entre outros, dispositivos pictóricos frequentemente usados na inaugural iconografia cristã. Fora do contexto catacumbal, incontornável é a Domus Ecclesia, em Dura Europos, na Síria, datada dos anos 30-40 do III século, e cuja decoração no ambiente do batistério é também de caracter cristológico.

O caminho da Luz

Um dos elementos característicos da arquitetura catacumbal é o uso do lucernário. Uma espécie de canal de luz, que permitia iluminar os espaços e os corredores subterrâneos das catacumbas com luz natural e fazer com que o oxigénio ali chegasse, proporcionando ao mesmo tempo a extração, para o exterior, dos materiais escavados na feitura das sepulturas. O lucernário assume progressivamente um caracter fundamental porque ilumina os percursos subterrâneos mas sobretudo porque acentua os programas iconográficos presentes em algumas paredes catacumbais. Assinala o itinera ad sanctos, o caminho que levava aos Santos ali sepultados, quando as catacumbas se tornam importante meta de peregrinação para as comunidades cristãs, que ali acorriam para venerar os santos e pedir a sua intercessão.

As duas celebrações cristãs que assinalam o início do mês de novembro recentram-nos de modo especial no Mistério Pascal de Jesus, e não deixa de ser curioso que desde o início das comunidades cristãs, a devoção aos Santos é realizada no contexto onde os cristãos sepultam e rezam pelos seus defuntos, lugar onde nasce a iconografia cristã que ajuda a desvelar a meta da vida Cristã, a ressurreição em Cristo. Ainda que a paisagem iconográfica dos nossos atuais cemitérios seja marcada pela presença da Cruz, que no âmbito cristão é indesligável do mistério da Ressurreição, o testemunho das primeiras comunidades cristãs relembra-nos que o mistério da morte só tem sentido se iluminado pela Luz gloriosa da ressurreição de Cristo, na manhã de Páscoa. Que a celebração da comunhão dos Santos e dos nossos fiéis defuntos reavive em nós a esperança que o cume da nossa peregrinação pessoal e comunitária é o encontro com Cristo Ressuscitado, Luz do mundo, plasmada e iluminada de modo tão concreto nos primórdios da arte cristã.