Adições e dependências. Que boias de salvação?

D.R.

Em mês de missões e de sínodo de jovens, participámos num encontro sobre adições (19-20 out. cssjd). Girou à volta de um olhar atento e científico para os possíveis náufragos e para os que lhes atiravam com boias de salvação, antes e depois de se estarem a submergir nos riscos de adição. A lista das dependências e os graus de riscos e danos alonga-se sempre mais: drogas disto e daquilo, álcool; vários tipos de obsessões compulsivas de jogos, compras, adições sexuais com crianças e adultos. São comportamentos em que a obsessão compulsiva, cativa a liberdade, marca presença na fronteira da doença mental em sentido genérico. Os danos também variam desde o comportamento de prazer a uma vida perturbada, no todo ou em parte. Os riscos mais chocantes foram apresentados por Félix de Carvalho, investigador do Porto, que avisou que ia falar de maldições para as gerações seguintes, filhos, netos e bisnetos. A lembrar o provérbio: os pais comem os figos e aos filhos rebentam os lábios. A nicotina, heroína, o álcool e dezenas de outras substâncias ameaçam com efeitos “chocantes”, já investigados, dizia. Como estender medidas de prevenção, tratamento e reinserção aos jovens? Jovens, do fim da adolescência aos 29 anos. De entre as boias de recurso e de salvamento apresentadas predominaram as científicas. Mas como o saber nem sempre motiva nem contrabalança a ânsia de repetir para a reduzir, foram propostas técnicas rigorosas de controlo voluntário e legal, quase sempre mal aceitas, e o tratamento do cérebro. E outras que funcionam como próteses sociais e familiares. São suplemento de “ vontade e decisão” para os dependentes incapacitados de se gerirem sem elas. Foram propostas para apoio dos que estão em risco de submersão e de morte prematura. Ouvir dizer que 20% das mortes são devidas às dependências e mais 25% às dietas danosas, também devidas a obsessões compulsivas de ingestão (total 45%!), deixa uma impressão amarga e uma dúvida sobre a esperteza humana e o progresso. E contudo, dizem-nos, tem se avançado muito na prevenção, dissuasão/redução de danos e reinserção! Uma voz autorizada repete que os problemas não são apenas de educação, são de política; mas se os políticos não quiserem fazer a sua parte, passam-se 50 anos e fica tudo sem efeito e as quantidades consumidas de álcool, per capita (totais) na população, continuam quase as mesmas. E porquê? Porque os políticos querem ganhar as eleições, mesmo à custa da saúde dos cidadãos. Os jovens, mais raparigas que rapazes, mas talvez mais a pensar nos rapazes que nelas, no tempo que lhes foi dado na convenção, recorreram às boias da ciência, arte, modas, família (às vezes permissiva), da educação e da escola multicultural, relativista ou de excelência. Quase sempre com fraca resistência à frustração, diziam alguns técnicos. São tantos a esbracejar à procura de excelência, mas nem sempre conseguem boia eficaz ao seu alcance; e alguns afundam-se. Fica a interrogação: dissuadir de se destruir com as dependências, em referência a quê? Para que serve uma vida sem adições? A que alternativa, firme e duradoira, recorrer? Veio-me ao pensamento se no Sínodo este problema foi enfrentado com propostas específicas do chamado encontro dos jovens com Cristo. Um arcebispo (Los Angeles) disse ali que os jovens são o presente e não apenas o futuro, mas, para isso, propõe uma relação significativa com Cristo, “a personal  encounter with Jesus Christ”. Será que os dados dos cientistas, mesmo de ciências exatas, sem os associarem ao valor de transcendência, motivam a não experimentar o que dá prazer? E será que motiva saber que os filhos dos filhos e dos netos, vão herdar as maldições de genes, gâmetas ou células sexuais reprodutivas danificadas pelas substâncias? Um diálogo imaginado para crianças e jovens de hoje, poderia ser: pai, avô, avó, se eu tenho esta anomalia, se me falta saúde, será devido aos erros que cometestes tomando substâncias nocivas por prazer, antes de me teres. Ainda ficou no ar a questão se os comportamentos aditivos de uso e jogos de telemóveis, de casino, de compras obsessivas e outros, também deixarão sequelas nos neurónios, moléculas e gâmetas de filhos, netos e bisnetos. Parece que a evangelização ao propor quem é Jesus Cristo, donde vimos e para onde vamos com Ele, como se fez com os jovens no Sínodo, poderia ajudar a ser mais responsável com o comércio e consumo destas substâncias. Bem, mas se vigora o paradoxo de  Jesus Cristo ser um dos maiores tabús. Nele não se fala, só ciências. Para alguns ameaçará com males maiores que todos os outros fatores? Alguns assim pensarão. Donde vimos para onde vamos? É questão que continua a badalar na sociedade e nas mentes: para que vivemos?