Jovens sem medo 

D.R.

No Dia Mundial da Juventude 2018, – o Papa Francisco pediu aos jovens que não ficassem em silêncio, como que “anestesiados”. Esta declaração ou desafio, sem o citar,  surgia depois da “March For Our Lives”, organizada por estudantes e que juntou mais de 500 mil pessoas em Washington, e outras centenas de milhar em várias cidades norte-americanas e do mundo, contra o acesso às armas nos Estados Unidos.

Os serviços de informação do Vaticano tinham anunciado que Gabriella Zuniga, de 16 anos, e a sua irmã, Valentina, de 15 anos, ambas alunas da escola secundária de Parkland, no estado da Flórida, que foi alvo de um tiroteio no mês passado que provocou 17 mortos, assistiram à missa. A agência divulgou uma fotografia das irmãs a segurar um cartaz onde se lia “Protejam as nossas crianças, não as nossas armas”.

“A tentação de silenciar os jovens sempre existiu”, afirmou Francisco, citado pela Reuters. “Há muitas maneiras de silenciar os jovens e de os tornar invisíveis. Muitas maneiras de os anestesiar, de os sossegar, de não perguntar nada, de não questionar nada. Há muitas maneiras de os ‘sedar’, de os impedir de se envolverem, de tornar os seus sonhos inócuos e tristes, fúteis e queixosos”.

 “Não fiqueis quietos. Mesmo que os outros fiquem quietos, mesmo se nós, as pessoas mais velhas e os líderes, alguns corruptos, ficarmos quietos, se o mundo inteiro ficar quieto e perder a alegria, eu pergunto-vos: Vós ides gritar?”, … e a assistência, composta na sua maioria por jovens, respondeu “sim”.

Presentes nesta missa 300 adolescentes que, a convite do Vaticano, tinham passado uma semana a debater os desafios e problemas que os jovens enfrentam na actualidade e a forma como a Igreja Católica os pode apoiar. Este grupo entregou um documento final com as conclusões das conversas ao Papa.

Na véspera decorrera a “March For Our Lives” (A Marcha Pelas Nossas Vidas), marcha que partiu da iniciativa de um grupo de sobreviventes da escola de Parkland, alvo do tiroteio no mês passado, com o objectivo de pedir legislação para um maior controlo ao acesso de armas nos Estados Unidos – e assim evitar os muitos homicídios em massa nas escolas deste país.

A iniciativa, que teve como centro a capital Washington, mais concretamente o edifício do Congresso, rapidamente ultrapassou as fronteiras norte-americanas, tendo sido organizadas iniciativas semelhantes em mais de 800 locais em todo o mundo.

O Papa Francisco convida frequentemente os jovens a terem um maior protagonismo e a incomodarem os pastores com sua criatividade. (Carta aos jovens; viagem ao Chile e Peru). Tem-se feito ouvir num apelo aos jovens que serão o nosso futuro.

Em dezembro de 2017 exortou-os: “Arrisquem-se! Saiam! Façam as coisas bem! Façam isso por Deus!, interroguem-se: o que posso eu fazer por Jesus e pelo bem dos outros?”.

O responsável pela Pastoral Juvenil da Arquidiocese de Évora, padre Fernando Lopes, considera que a juventude “é generosa” e “busca um amor maior para a sua vida”. A   demonstrá-lo esteve a presença  de centenas de jovens no «Qnoite». Reuniu todos os movimentos juvenis, numa noite especial, para preparar o que é especial da fé: Morte e Ressurreição de Jesus”. E sublinhou: os jovens “estão abertos à proposta da Igreja” e fazem “caminhada”. 

Um breve apontamento acerca do ‘medo’. Os seres humanos são mais violentos que os animais, num tipo de conflito que é interno e recíproco, e potencialmente interminável, ao qual nenhum sistema judiciário consegue pôr fim. E hoje, todos os dias, as pessoas matam e matam-se. E cria-se um ambiente de medo. Porque a vida é um valor que certos ‘movimentos’ desprezam e aviltam como conhecemos do procedimento da Mafia ou da maçonaria. O Papa Francisco desafia as multidões a viverem “sem medo”, evitando a indiferença perante “lugares de sofrimento, de derrota, de morte”. E o medo impede os jovens de sonhar. Então ele repete muitas vezes aos jovens: “Os grandes sonhos, para permanecerem como tais, têm necessidade de uma fonte inesgotável de esperança, de um Infinito que sopre dentro e os expanda.  Grandes sonhos precisam de Deus para não se tornarem miragens ou delírio de omnipotência”. Desafiou as pessoas a viverem  “sem medo”, na peregrinação a Roma, intitulada “Por mil estradas”, – uma iniciativa que antecipou o Sínodo dos Bispos sobre os Jovens, a decorrer no Vaticano. Vivemos num tempo em que muitos dos nossos anciãos  e jovens – porque não todos nós ? – sofremos na “solidão da noite”, nas “estradas perigosas” ou em “casas nocturnas” – onde há assaltos, torturas, mortes, num ambiente ‘incrível’, mesmo ‘dantesco’!

Os jovens não podem deixar de sonhar, senão perdem a juventude. Assim:

O secretário-geral do Sínodo dos Bispos – o cardeal Lorenzo Baldisseri, afirmou no dia 1 de outubro 18,  – que o tema dos jovens “é, certamente, um ‘desafio’” mas a Igreja “não tem medo” de os “enfrentar”, na apresentação da assembleia que se realiza de 3 a 28 de outubro. “É um evento de importância central para o Povo de Deus, pastores e rebanho, e para toda a sociedade, por causa do tema, os jovens, todos os jovens da terra, em vista da civilização do amor sempre sonhada”.

E o Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil Vocacional (SDPJV) de Bragança-Miranda vai promover o Festival Jovem Diocesano da Canção Mensagem, com o tema ‘Não temas, mergulha!’, a 17 de novembro. Nem a Igreja nem os jovens têm medo e “mexem-se”. Há que enfrentar os novos desafios com coragem e num diálogo aberto.