Idosos e memória(s)

D.R.

O dia internacional do idoso é um estímulo para falar deles e de modos de lhes tornar o envelhecimento mais ativo e realizador para prevenir e reduzir as limitações da idade avançada.

As técnicas e metodologias são úteis, mas não dispensam o relacionamento e convívio diário com eles. Os manuais dizem que os idosos começam por esquecer os factos recentes e manter os mais remotos da sua vida; e algumas investigações indicam que as canções resistem mais ao esquecimento. Este fato poderá ajudar no relacionamento com eles.

Por um lado, os idosos, para manterem uma certa autonomia, precisam de funcionar com a memória dos dados atuais relativos ao espaço, tempo, atividades e pessoas que os rodeiam no dia-a-dia. Por outro lado, se os cuidadores insistem só nesses dados, na espectativa de treinar os hábitos diários e a memória para conseguir que o idoso funcione melhor, a técnica pode ocasionar um efeito secundário negativo.

Não é raro encontrar idosos infelizes porque à volta deles se teima em os pressionar a falar apenas das realidades do presente. Na verdade os idosos, tal como os jovens e as crianças gostam de falar da sua vida, presente, passada e dos sonhos e projetos do futuro.

Enquanto a vida das crianças é quase só presente e alguns sonhos, a dos jovens já tem passado, limitado, presente, que desejam gozar ou s ela se evadir, e um futuro a chegar com lentidão, mas cheio de projetos e sonhos cor-de-rosa; ao passo que os idosos têm um passado longo e eventualmente rico e gozoso, um presente breve a passar depressa, por vezes pesado, e um futuro ainda mais breve e incerto.

Pressioná-los a falar só do presente ou do futuro pode aumentar os seus estados ansiosos e depressivos. Corre-se o risco de aumentar o seu sofrimento quando se persiste nessa orientação. Para estimular a sua memória e contentamento precisam de pessoas à sua volta que conheçam os dados da sua vida, os períodos de maior sucesso, para ouvirem a falar dessas realidades e manterem com eles um relacionamento que estimule a sua memória, e, mais que isso, lhes faça reviver as experiências de sucesso, alegria e contentamento.

Ainda recentemente os cuidadores de um idoso muito esquecido se surpreenderam quando, ao recordar-lhe os nomes dos filhos, a terra e casa que construiu e outros dados da sua vida, ouviram palavras de resposta e observaram expressões de sorriso que outros já não esperavam. Os idosos precisam de ser estimulados em relação ao presente e ao passado. 

Nos cursos de pedagogia repete-se que para ensinar o Joãozinho não basta conhecer bem a disciplina a ensinar; é preciso conhecer também o Joãozinho. Isto mesmo se pode aplicar ao cuidador de idosos; não basta conhecer bem e aplicar as técnicas; é preciso conhecer o idoso, e principalmente, as suas experiências agradáveis devidas aos sucessos nas fases mais produtivas da sua vida.

Vigora agora a tentação exagerada de proteção de dados pessoais para evitar contratempos, mas, levada ao extremo, pode também desumanizar mais a vida dos assistidos. Por vezes, com ela, afloram práticas de maior estigmatização de pessoas já tão estigmatizadas.

Não é humano privar o idoso do seu nome, dos nomes dos seus familiares; nem privá-lo do seu rosto, dos nomes dos seus familiares e das estórias do seu passado. O tabú que se está a gerar tem a ver com o medo e vergonha da doença, da limitação e da morte. Se os que giram à volta dele e os amigos que o visitam não lhes podem lembrar as realidades agradáveis da sua história e só se limitam a lamentá-los, tornam-nos cada vez mais infelizes. E como poderão lembrar sem usar os meios que se usam para os cuidadores: ter os nomes e fotos expostos para eles não esquecerem e para quem lida e fala com eles os usar com frequência sem hesitações.

Os idosos, de memória muito limitada, precisam que os cuidadores em funções de ajuda, profissionais ou os familiares e visitantes amigos lhes recordem o nome e realidades agradáveis do seu passado. O sentimento de identidade positiva destes idosos precisa de ser reforçada dezenas de vezes ao dia pelos que se relacionam com eles sob pena de o relacionamento não ser humanizado e de lhes aumentar o sofrimento. Não se irá pensar que há vidas de pessoas que não têm nada de positivo a recordar.

A capacidade de focar no positivo da vida de cada idoso é desafio a que os cuidadores são convidados a responder, sempre e apesar de muitas limitações de alguns deles. Não será também para isto que foi instituído o dia internacional do idoso?