Tradição dos ‘tabuleiros’ ainda se mantém na Ponta do Pargo

D.R.

A freguesia da Ponta do Pargo ainda mantém viva a tradição dos ‘tabuleiros’, por ocasião da Festa de Santo António. A celebração, que se realizou no passado dia 1 de Setembro, voltou a recordar esta forma peculiar de trazer as ofertas do povo para os bazares, que é única na Madeira. 

De facto, que se saiba, não há mais nenhum outro sítio na ilha onde os produtos da terra, e não só, cheguem ao adro da igreja em tabuleiros de madeira, devidamente ornamentados. Apenas ali, naquela freguesia do concelho da Calheta, a tradição ainda se mantém, embora por “carolice de uns quantos, que não querem ver isto morrer”.

Antigamente, os tabuleiros eram trazidos única e exclusivamente por mulheres. A tarefa, devido ao peso e às distâncias que se tinham de percorrer a pé, obrigava a que cada sítio reunisse um grupinho de senhoras, que se pudessem ir-se revezando ao longo do percurso. 

Estamos a falar de tabuleiros que chegavam a pesar 30, 40, e às vezes mais quilos, ornamentados com papel de joeira e tecidos bordados, hoje substituídos por “rendas” de papel que, “fazem a mesma vez”.  

No fundo de cada tabuleiro era colocada uma altura generosa de trigo – ainda hoje é assim – e um ou três, cartuchos de açúcar. “Só isso já está a ver o peso que dava”, diz-nos o senhor com quem ficamos à conversa no adro, enquanto o Pe. Roberto Aguiar, Pároco da Ponta do Pargo, foi com a Banda Municipal da Ribeira Brava, à “parte de baixo” da freguesia buscar mais dois tabuleiros.

Hoje, infelizmente, os tabuleiros são em menor número e alguns produtos que neles se colocavam, como por exemplo os ovos – que chegavam a ser às centenas – foram substituídos pelo dinheiro, umas garrafas de vinho e bolos. “Dá menos trabalho, e no fim das contas temos o que queremos”, dizem-nos.

Nem o facto de há uns anos “alguém se ter lembrado de trazer os tabuleiros de carro até à Cruz do Salão”, a uns 200 metros da igreja, para que as pessoas andassem menos, foi suficiente para evitar que a tradição quase se perdesse. A emigração e “o desinteresse dos mais novos por estas coisas” foram outros factores que contribuíram para a festa já não ser tão rija como noutros tempos. Só para se ter uma ideia, ela sempre coincidiu com a Festa do Bom Jesus da Ponta Delgada, mas isso nunca lhe roubou romeiros. Antes pelo contrário. Muitos dos que iam ao Bom Jesus, depois “amanheciam aqui, para comprar nos bazares, semilhas e outras coisas que não tinham”.

Em 1996, altura em que estivemos pela primeira vez na ‘Festa dos Tabuleiros’, já estes vinham de carro, mas continuavam a ser em número suficiente para que o adro se enchesse de bazares de uma ponta à outra. Agora já não é assim. E isto apesar dos esforços da paróquia para que a tradição não morra e dos regentes que continuam a ser escolhidos e a ter por missão manter viva a ‘Festa dos Tabuleiros”, na Ponta do Pargo.