Homilia diária do Papa: Rezar pelos bispos

Edward Longo «Jesus com os apóstolos»

Por L’Osservatore Romano

«Ultimamente parece que o Grande Acusador acordou, irritado com os bispos», procurando «revelar os pecados, para que sejam vistos, a fim de escandalizar o povo». Mas «a força do bispo — “homem de oração, no meio do povo e que se sente escolhido por Deus” — contra o Grande Acusador é a prece, a de Jesus por ele e a própria».

Foi uma oração «pelos nossos bispos: por mim, por estes que estão aqui na frente e por todos os bispos do mundo» que o Papa Francisco pediu celebrando, na terça-feira 11 de setembro, a missa em Santa Marta. E aos bispos pediu que permaneçam sempre «próximos do povo de Deus, longe de uma vida aristocrática» que afasta a sua «unção» sem serem «arrivistas» ou «procurando refúgio nos poderosos e na elite».

«Comovem o coração a simplicidade e a transparência, com a qual Lucas nos narra a eleição dos apóstolos, dos primeiros bispos» observou o Papa, referindo-se ao excerto evangélico proposto hoje pela liturgia (Lc 6, 12-19), comparando-o com a atualidade, recordando que neste período «aqui em Roma estão a decorrer — um deles já terminou — três cursos para os bispos». Promoveram, comentou, um curso «de atualização para os bispos que completaram dez anos de episcopado» que «se concluiu recentemente».

No entanto, explicou o Pontífice, «neste momento estão a decorrer dois cursos: um para setenta e quatro bispos que pertencem às dioceses que dependem da Congregação de Propaganda Fide». E outro no qual participam «cento e trinta, cento e quarenta» prelados «que pertencem à Congregação para os bispos». Portanto, disse o Papa, todos «os novos bispos, mais de duzentos», participam «nesses dois cursos». E desta forma, confidenciou, «pensei que neste momento, quando no Vaticano se realiza esta atividade com os novos bispos, talvez fosse bom meditar um pouco sobre a eleição dos bispos: como Jesus a realizou a primeira vez, o que nos ensina».

«São três aspetos — afirmou Francisco referindo-se ao trecho de Lucas — que causam admiração da atitude de Jesus». Antes de mais «que Jesus reza». O evangelista escreve: «Jesus foi para o monte a fim de fazer oração, e passou a noite a orar a Deus». A «segunda» atitude é que «Jesus escolhe: Ele escolhe os bispos». E a «terceira, Jesus desce com eles para um sítio plano onde encontra uma grande multidão: no meio do povo». Precisamente estas, explicou o Pontífice, são as «três dimensões do ministério espicopal: rezar, ser eleito e estar com o povo».

«Jesus ora, reza pelos bispos» prosseguiu o Papa. «É a grande consolação que um bispo sente nos momentos difíceis: Jesus reza por mim». De resto, «disse-o explicitamente a Pedro: “Rezarei por ti, para que a tua fé não esmoreça”». Sim, insistiu Francisco, Jesus «reza por todos os bispos. Neste momento, diante do Pai, Jesus ora. O Bispo encontra consolação e força na consciência de que Jesus ora por ele, está a rezar por ele». E «isto leva a rezar». Pois «o bispo é um homem de oração».

«Pedro tinha esta convicção — observou o Pontífice — quando anunciava ao povo a tarefa dos bispos: “A nós a oração e o anúncio da palavra”. Não disse: “A nós a organização dos planos pastorais”». Portanto, espaço à «oração e ao anúncio da palavra». Deste modo «o bispo sabe que é protegido pela oração de Jesus, e isto leva-o a rezar». E orar «é o primeiro dever do bispo. Rezar pelo povo de Deus, por si mesmo, pelo povo de Deus. O bispo é homem de oração».

«A segunda dimensão que vemos aqui — explicou o Papa — é que Jesus “escolhe” os doze: não são eles que escolhem». E «isto também nos discípulos: o endemoninhado gadareno que queria seguir Jesus», depois de ter sido libertado dos demónios. Mas, resumindo, Jesus respondeu-lhe «não, não te escolhi, tu permaneces aqui e praticas o bem aqui». Porque «o bispo fiel sabe que não escolheu; o bispo que ama Jesus não é um arrivista que vai em frente com a sua vocação como se fosse uma função, talvez olhando para outra possibilidade de ir em frente e subir na vida». Na realidade «o bispo sente-se escolhido. E tem a certeza de ter sido escolhido. Isto leva-o ao diálogo com o Senhor: “Tu escolhestes-me, que sou pouca coisa, que sou pecador”. Tem a humildade. Porque ele, quando se sente escolhido, percebe o olhar de Jesus sobre a própria existência e isto dá-lhe a força».

Resumindo, o bispo é «homem de oração, homem que se sente escolhido por Jesus». E depois, acrescentou Francisco, é «homem que não tem medo de descer a um sítio plano e permanecer próximo do povo: é precisamente o bispo que não se afasta do povo: aliás, sabe que no povo há uma unção para o seu ministério e encontra no povo a realidade de ser apóstolo de Jesus». Eis «o bispo que permanece distante do povo — afirmou o Pontífice — que não tem atitudes que o afastam do povo; o bispo toca o povo e deixa-se tocar pelo povo. Não vai procurar refúgio nos poderosos, nas elites, não. Serão as elites a criticar o bispo; o povo tem esta atitude de amor em relação ao bispo, e tem aquela a que chamamos unção especial: confirma o bispo na vocação».

«Homem no meio do povo, homem que se sente escolhido por Deus e homem de oração: esta é a força do bispo» repetiu o Papa, sugerindo que «é bom recordar, nestes tempos em que parece que o Grande Acusador acordou, irritado com os bispos. É verdade, todos somos pecadores, nós bispos». O Grande Acusador, afirmou o Pontífice, «procura revelar os pecados, para que se vejam, para escandalizar o povo. O Grande Acusador que, como ele mesmo diz a Deus no capítulo 1 do Livro de Job, “dá voltas pelo mundo procurando o modo para acusar”. A força do bispo contra o Grande Acusador é a oração, a de Jesus, por ele e a própria; e a humildade de se sentir escolhido e permanecer próximo do povo de Deus, longe de uma vida aristocrática que o priva desta unção».

Na conclusão Francisco exortou a rezar «hoje pelos nossos bispos: por mim, por estes que estão aqui na frente e por todos os bispos no mundo».