O sexo dos padres, o silêncio do Papa e o apoio ao Papa

D.R.

O sexo dos padres

O sexo dos padres foi tratado por alguns jornalistas com certa leviandade e com o tom ‘secular’ e anti-católico que reinam sobretudo no mundo ocidental, envenenado como está por ‘valores’ liberais, ‘sem ética’ e ‘individualismo feroz’. Alguns padres pretenderam seguir um caminho errado – no intuito de defender a Igreja –  lembrando o trabalho muitas vezes doloroso em favor da promoção de milhões de “crianças” nas Missões do terceiro mundo. Mas o certo é que a Igreja é santa e o abuso sexual de menores, a pedofilia, mesmo que houvesse um único caso entre os 400 mil padres, o comportamento da Igreja devia ser o mesmo: «tolerância zero».  Todos os católicos devem lutar contra este crime ‘hediondo’ e ‘gravíssimo’. Mas embora todas as denúncias, relatórios e notícias destes casos seja um vergonha na Igreja, têm de ser uma ‘chaga a ser curada’. Nisso vemos um Papa Francisco humilde, sofredor, perante esta avalanche que está caindo sobre a Igreja. Sente-se ao lado das ‘vítimas’. E permitam-me dizer que não é com ‘facilitismos’ que o ‘ dente’ será arrancado. Será com a fidelidade a Jesus de Nazaré e aos compromissos livremente assumidos. Juan Uriarte, autor do livro ‘el celibato’ e bispo, diz que a tendência para a pedofilia se regista em alguns clérigos e em muitos outros seres humanos com origem num grande défice no desenvolvimento sexual e afetivo do sujeito. E afirma: “A frequência desta prática, patológica e destruidora, no âmbito familiar, profissional, educativo e lúdico, não é quantitativamente menor que no âmbito celibatário”. 

O silêncio do Papa Francisco

No voo de regresso da Irlanda, não comentou a carta do Arcebispo Carlo Viganó em que o acusava de conhecer o comportamento pedófilo do cardeal norte-americano McCarrick. O papa remeteu os jornalistas para a sua “maturidade profissional” para, com ela, tirarem as conclusões da leitura do documento. Como referiu o Padre Calado em artigo no JN: “a credibilidade das acusações desmoronou-se” e o “silêncio do Papa acabou por estimular o bom jornalismo”. O ataque de Viganó é mais um que surge a enfrentar o Papa Francisco. Muitos bispos, arcebispos e cardeais se pronunciaram, saíram em defesa do Pontífice, aprovando o difícil trabalho de reformas que vem implementando. Mas na Igreja há também aqueles que toleram as reformas, mas se vão calando porque as ‘abominam’. Não querem comprometer-se. 

O Papa Francisco reagiu com uma carta reafirmando a necessidade de “tolerância zero” e a responsabilização de quem cometeu ou ocultou tais crimes. Os abusos sexuais são “um crime que gera profundas feridas nas vítimas, nas suas famílias e em toda a comunidade, crentes e não-crentes”, admite.

O pontífice defende que as comunidades católicas devem unir esforços para “erradicar essa cultura da morte”. O texto fala de “vergonha e arrependimento” perante acontecimentos que exigem uma resposta “global e comunitária”, que rejeite qualquer “omissão” e promova a “solidariedade” perante quem sofre.

O Papa assume os erros cometidos pela Igreja Católica, no passado, e diz que é preciso “pedir perdão e procurar reparar o dano causado”. Perante grandes dificuldades, mesmo que sejam de fariseus como os que se atiraram a Jesus em Nazaré, na sua terra e o expulsaram “como cães raivosos”, da cidade… Jesus passou pelo meio deles… O  Papa Francisco responde com o pedido de “perdão”, com grande “vergonha e dor”… e remete-se ao “Silêncio e à Oração”. Para quem quer confrontos é seguramente a melhor resposta.

O apoio ao Papa Francisco

Os membros da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores revelam que se sentem “apoiados” pelo apelo do Papa Francisco “à liderança” da Igreja para “implementar tolerância zero e maneiras de responsabilizar todos aqueles que perpetram ou encobrem esses crimes”. Olhando para o futuro, é preciso gerar uma cultura capaz de evitar essas situações.

Defensor de Francisco, o cardeal António Marto diz que os católicos ultraconservadores estão a aproveitar a “catástrofe” que são os abusos sexuais na Igreja para “atacar violentamente” o Papa. Em entrevista ao Observador, disse que os crimes de pedofilia praticados por padres católicos, divulgados nos últimos anos, deixaram os membros da Igreja Católica “profundamente chocados” e suscitaram um “sentimento de grande humilhação”. Garante que o Papa Francisco está a trabalhar no sentido de reformar a Igreja também neste campo.  O cardeal de Fátima acredita que Francisco vai sair “reforçado” de toda esta polémica, “quando tudo se esclarecer”.

Os bispos portugueses escreveram ao Papa a condenar o “drama do abuso de menores por parte de membros responsáveis da Igreja”. Criticam as “tentativas de pôr em causa a credibilidade” do Papa Francisco e manifestam “fraternal proximidade e o total apoio” ao líder da Igreja Católica neste momento, sublinhando que estão em “plena comunhão”.

Os bispos de todo o mundo estão a reagir à polémica e aos ataques ao Papa. Uns falam em “desilusão”, outros em “puro ódio”. 

Num outro artigo apresentaremos a reacção dos católicos da Ásia quer bispos, quer leigos.

[atualizado às 17:35 horas]