Turismo religioso e peregrinante

Igreja de madeira | Heddal | Noruega | D.R.

São distintos e inseparáveis os dois tipos de turismo que vivemos na Escandinávia, por mais de dois mil quilómetros de autocarro, com internet grátis, e uma dezena de ferrys entre ilhas e fiordes. Três capitais, mais quatro cidades, ao lado de dezenas e dezenas de lagos e túneis, dois fiordes, comboio de montanha, miradouros de parar a respiração e dilatar a alma pelas belezas da natureza.O assombro do miradoiro de Kierag, sobranceiro ao Lysefiorde, visto de cima e de baixo e o Preikestolen (púlpito), a 600-700 metros, visto do barco do fiorde. Os vickings passaram vida árdua com coragem desmedida. Cedo receberam a fé cristã e começaram a construir igrejas de madeira; 28 ainda perduram. Em Haddal (Tellemark) a catedral do século XIII é um espanto a obrigar a turismo religioso no meio das montanhas. Nas ruas das três capitais, as dezenas de igrejas luteranas nacionais, dependentes do monarca, alternam com outras confissões, ortodoxas e católicas. Até a 1517 eram todas “católicas romanas” estabelecidas entre os séculos VIII-XIII. A partir de 1536, por lei do rei da Dinamarca Cristiano III, no termo da união Calmar: Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia e Groelândia, unidos de 1397 a 1523. Neste ano todas ficaram luteranas nacionais, oficiais, do estado, subordinadas aos governos. Na Dinamarca ainda dependente do rei, é liberal e consumista, quase sem sacramentos. Restam as sementes cristãs a germinar, conversões e imigrantes católicos e ortodoxos. No século XXI iniciaram processos de autonomia dos governos em dois países. Em 2000, a da Suécia, mas, por lei, tem de seguir a fé evangélica-luterana. Deste então até 2017, diz a Wikipédia, passou de 83% para 59%, talvez por ter gays, divorciados e mulheres padres, bispas e uma arcebispa lésbica, junta com outra lésbica em “casamento”. Os católicos vão crescendo; são minoria de 2%, (120.000). A Igreja luterana da Noruega está a passar de Igreja Evangélica Luterana de Estado, para igreja nacional apoiada pelo Estado (!?). Os católicos provém de 80 nacionalidades e rondam os 150.000. A segunda religião da Escandinávia já será a islâmica. 

Até ao século XIX os católicos não tiveram liberdade legal e foram perseguidos. Não faltam sinais de sementes evangélicas. Stavanger ostenta uma bela igreja catedral luterana, de São Suinthum originário de Winschester, Inglaterra, construída no século XII. Foi reconstruida após um incêndio em estilo gótico nos séculos XIII-XIV. O folheto informativo da mesma, em várias línguas, em rodapé pastoral “lugar santo”, é um exemplo de sementes cristãs. Traduzo algumas expressões muito belas. Convida a ouvir “o sentido do Senhor”, “abrir o coração ao Espírito Santo”, à oração a “ Jesus Cristo, Filho de Deus, a pedir bênçãos e misericórdia para o seu povo, com as mãos trespassadas”; a colocar a “minha vida nas suas mãos”, renovando a fé explicita de: “ tu és o meu Deus, o meu tempo está nas tuas mãos”; a agradecer ao meu “Criador por ser seu filho”; “a pedir-lhe que mostre o caminho e dê força para o seguir, e me abrace com a sua bênção para a vida futura com esperança”. Na Igreja Marmorea de Copenhaga um folheto dava as boas vindas com o texto do salmo 63 e uma oração dos fiéis de Taizé.  

 E a Igreja católica na Noruega? Apesar de o seu patrono Santo Olavo, sepultado na catedral de Nídaros (Trondheim) ter sido um lugar de peregrinação na Idade Média, deu-se a rotura com Roma. Em 1536, após o fim da união Calmar, o rei Cristiano da Dinamarca tornou a Noruega um país luterano. Só em 1843 foi permitida a primeira paróquia católica em Cristiânia (Oslo); e, em 1845, foram permitidas outras confissões cristãs. Santo Olavo (995-1030) foi um dos evangelizadores, mas teve que abandonar o país para regressar em 1030, morrendo mártir na batalha de Stiklestad a 29 de junho do mesmo ano. Em 1857, em Bergen, foi celebrada missa católica pelo P. Cristovão Holfeld Houen em casa particular com 15-20 pessoas. A Igreja de S. Paulo desta paróquia foi construída a partir de 1864 por católicos vindos de países da Europa para trabalhar na cidade. A planta foi do italiano Eduardo Arborio Mello e foi concluída em 1876. No dia em que a visitámos, acabava a missa com uma dúzia de pessoas. Não chegámos a saber em que língua. Há ali missas em norueguês, polaco, tâmil, vietnamita, tagalog, eritreo, lituano, espanhol e latim. Como se vê, católicos da Ásia, Africa e Europa estão a semear sementes da Igreja católica num país em que a fé cristã já fora plantada pela Igreja única de Roma. Resta pedir e rezar para que germinem e cresçam com vigor num país de 3% de católicos.

Experiências de Escandinávia  

O guia foi uma bênção de erudição e de rica informação em geografia, história, geologia, botânica, antropologia. Não fosse o Xavier um doutorando. Ainda lhe perguntei as razões de na Europa quase só haver monarquias nos países nórdicos. Que ia pensar, nunca lhe tinha ocorrido a questão. Sugeri se não seria por os do sul serem católicos e a maçonaria não tolerar aí reis católicos para melhor dominar? Que ia ver, respondeu. À quarta a Estocolmo, tive uma surpresa na catedral católica de que falei noutro anexo. A travessia para Copenhaga foi por autoestrada, ponte e túnel do estreito de Malmo, ao passo que em 1980 foi de comboio, e em cima do ferry, no estreito de Helsingor. Foi um percurso de uns 700 kms com uma paragem para almoço ou piquenique em Jokoping à beira do segundo maior lago do país, o Vattern; passámos ao lado da cidade universitária Lund que o Papa Francisco visitou e logo pela ponte de 13 quilómetros e mais 9 de túnel submarino para atravessar a “orelha do mar” (Oresund) e entrar em Copenhaga. Visitámos a cidade dos reis “Cristianos” de nome omnipresente nos monumentos, com guia e em tempo livre. Uma cidade de bicicletas, sempre, da Sereiazinha, das muitas igrejas, como em Estocolmo, quase todas luteranas nacionais. Conseguimos visitar a catedral de Nossa Senhora, luterana nacional; a igreja de S. Pedro da comunidade alemã luterana; a Marmória do palácio Amália; e por fora a católica de Santo Ansgário (Oscar). No terceiro dia já íamos a caminho de Helsingor para apanhar o ferry para Helsingbord, já Suécia, a caminho de Oslo. Em 1980 atravessei-o no sentido contrário com o comboio em cima do barco. Tivemos almoço privado no MacDonalds, um hamburguer vegetariano, em centro comercial da cidade em Goteborg (cidade de Deus) com tempo para visitar  a igreja dos “alemães” por terem fundado aquela  cidade. Chegámos a Oslo pelas 17.30 e o nosso primeiro passeio foi subir a rua Rosencranz até à catedral católica para a missa dominical como conto noutro anexo. No dia seguinte visita guiada ao lugar mais visitado de Oslo, parque de 212 estátuas de pedra e bronze de Vigeland, já meu conhecido de 2009. Não são tão bizarras como alguns pretendem, são também um hino à vida com uma aberturazinha para a transcendência e eternidade da vida humana. São um poema de crianças, jovens, namorados, famílias e idosos. Ora em gritos de alegria, ora em olhares amorosos ou de tristes sentimentos de idade avançada e do passar e renascer. Outra visita surpresa foi à pista artificial e estádio de esqui. Uma maravilha única de técnicas inesperadas. De longe parece uma rampa de foguetões. Seguiu-se a visita ao interior da Câmara Municipal onde são entregues os prémios Nobel da paz, e ao porto. Agora três dias atravessamos montanhas, lagos, Lysefiord, ilhas, pontes, túneis, pelo ângulo Oslo-Stavanger-Bergen, com manchas de arvoredos, pinhos, olmeiros, pastagens, rolos já ceifados, rocha granito, mas não calcário, nem argilas. A primeira dormida em Vradal e a segunda em Stavanger. O guia ia dizendo que a Noruega quando deixou de estar governada pela Dinamarca, em 1904, era muito pobre. Na independência iniciou a sua revolução industrial, usando o seu maior recurso, a água, para fabricar eletricidade e, com ela e ar, fabricar o nitrato fertilizante. Este arranque mereceu ao país o reconhecimento do seu parque industrial de Rjutan-Notodden como património da UNESCO em 05.07.2015, na região que atravessámos, de lagos e montanhas na Tellemark. O guia foi contando outros milagres noruegueses. É um país sem corrução, o único que não esbanja nem se arruína com os recursos do seu petróleo e gás. Sabe gerir. Poderia fornecer energia elétrica a quase toda a Europa; país onde quase não se consomem bebidas alcoólicas, (monopólio de vendas do Estado), nem se bebe água engarrafada; os restaurantes servem a bela água norueguesa em jarros; não se vê fumar, ruas de lajens polidas e limpas; único país que decidiu não se desflorestar dos seus imensos arvoredos; país em que a propriedade de terrenos não dá direito absoluto sobre eles. Outros podem cultivar os não cultivados, sem autorização, desde que paguem renda. País que venera tanto a sua bandeira que a substitui por bandeirins para hastear nas suas casas, como se viam por toda a parte. Dá que pensar se não seria o caso de administrarem Portugal!?