Um missionário heroico

Catedral Católica de Estocolmo | Foto: D.R.

As férias são feitas de muitos encontros. Após alguns dia pela Escandinávia, celebrações e encontros na Missa nas catedrais católicas de Estocolmo e Oslo, em ambientes de reevangelização; encontros na peregrinação de 12 e 13 de agosto em Fátima, visita aos Padres conhecidos da Casa do Clero, seguiram-se os encontros acolhedores e celebrativos com sobrinhos e amigos, e um médico; com o pároco de S. Simão de Litém nas festas da Assunção e dos Patronos da terra com igreja e capela cheias e quase ausência de crianças e jovens. Nalgumas celebrações recordaram-se com oração os oito sacerdotes vivos e os três falecidos desta freguesia, que bem se pode orgulhar e os agradecer ao Senhor. Um dos encontros trouxe conversas com um deles;  e sobre um dos falecidos que vou resumir. O pároco P. José Frazão evocou o P. Manuel Nogueira, foi direto ao assunto e pediu-me para escrever alguma notícia para o tornar mais conhecido na paróquia pois tinha falecido como missionário santo em Nampula; e insistiu que a sua vida se presta a uma apresentação plurifacetada. Prometi fazer o que pudesse. Com efeito, o Padre Manuel Nogueira foi aluno brilhante na catequese e escola primária, consagrou-se na vida religiosa, continuou brilhante e hospitaleiro como formador de jovens, na enfermagem, na licenciatura de teologia e no curso de pastoral em Roma. Mas o que o distinguiu mais foi a sua vida de hospitaleiro e missionário consagrado à evangelização durante trinta anos em Moçambique a partir de 1972. Entregou-se, com alma e coração, na diocese de Nampula como colaborador direto do arcebispo D. Manuel Vieira Pinto e do seu sucessor: catequizar crianças e adultos, assistir doentes mentais, construir comunidades, igrejas e capelas. A sua ação de missionário decorreu em tempo de tensões de transição da colonização para a independência revolucionária de ideologia marxista. Foram tempos tumultuosos com inúmeros problemas para as obras da Igreja e a evangelização. O P. Manuel nunca desanimou na ação de evangelização e na formação persistente de formar comunidades cristãs. A sua capacidade de mobilizar estas comunidades de cristãos e não cristãos tornou-se notável e constituiu um espinho para os políticos marxistas que se arrogavam os únicos com legitimidade para mobilizar o povo com o fim de lhe inculcar a ideologia comunista. A ação do P. Manuel tornou-se bem aceite na catequese, encontros pré-matrimoniais de jovens, sessões de teatro popular da sua autoria, encenações da via- sacra, etc. Tornou-se suspeito perante a polícia política de Moçambique por estar a prejudicar os objetivos políticos. Foi espiado, interrogado, preso, encerrado na prisão local; e, meses depois, libertado sem julgamento, e, de novo, preso e transferido para a prisão da Namaacha de Maputo, ameaçado de expulsão, posto em prisão domiciliar e, finalmente, deixado regressar ao seu trabalho de missionário. O que mais o fazia sofrer na prisão era estar afastado da sua comunidade religiosa e do seu rebanho. Temeu principalmente que viesse a ser expulso, o que terá sido evitado por influência do Bispo D. Manuel Vieira Pinto. Continuou o árduo trabalho apostólico. Foi o braço direito do bispo, nas relações da diocese com os muçulmanos, professor do seminário, ativo nos boletins de informação da diocese, professor de latim no seminário e no curso de direito da universidade católica, mestre de noviços da Ordem, diretor espiritual, etc. Era considerado um sacerdote santo disponível para todo serviço de Deus. Em plena atividade missionária e prestes a colaborar numa semana de pastoral da saúde em Anchilo, adoeceu gravemente. Foi transferido para ser tratado. Diagnosticado um cancro avançado, o seu estado piorou rapidamente e veio a falecer em 26 de outubro de 2003, em Lisboa. Em Nampula perdura a fama de santidade deste heroico missionário. Bastantes, entre eles o postulador da Ordem, reclamam o processo de beatificação que tem sido adiado por mudanças de pessoas na diocese e nas comunidades cristãs que ele fundou. Muitos lá e cá continuam esperançados que o processo será iniciado.

 

Surpresas de envangelização da Escandinávia

O hotel estava do outro lado da rua, quase em frente à catedral católica de Estocolmo. Na tarde da chegada, a 31.07.2018, fomos visitá-la. Infelizmente a missa tinha acabado e um acólito informou que no dia seguinte seria à mesma hora. Às 17.30, no dia seguinte, lá estávamos para rezar o terço e concelebrar. Apareceu o mesmo acólito adulto a convidar para me ir paramentar. Chama-se Sérgio (Ettori). Na sacristia o P. Pio, coreano, agostiniano de uma congregação sul-coreana, ia presidir e convida-me a usar também a casula. Nos cumprimentos disse-lhe que era Irmão de S. João de Deus. Logo outro padre de preto, com cabeção, diz ser da Opus Dei do norte da Espanha, a dizer que conhece bem os Irmãos de Santurce, sua terra, por também ser médico. A missa foi em sueco que concelebrei seguindo por um livrinho em inglês que me acompanha. Participavam, em dia de semana, umas 40 pessoas. No fim, já na sacristia meti conversa com o acólito, vieram mais surpresas, e fiz uma foto com o padre Pio. Fiquei a saber que a Irmã sacristã era polaca. Mas mais longa foi a conversa com o Sérgio. Foi Irmão de S. João de Deus na Itália, entrou na Ordem em Brescia, nos anos 1950, fez o noviciado com o P. Ireneu, que eu conheci, no tempo do superior geral Moisés Bonnardi. No plano de fundar uma casa na Suécia, o Irmão Sergio, agora Ettori, veio ali estudar o ambiente. A fundação não foi por diante mas a certa altura, Sérgio já casado, tornou-se imigrante neste país onde tem tomado parte na evangelização. É pai de quatro filhos e há longos anos, dizia, é acólito permanente e segundo cerimoniário da catedral nas celebrações mais solenes. No meu livro “Transmigrações…”(ver wook aires gameiro) relatei outras surpresas, e agora desejo acrescentar a da catedral católica de Oslo. Chegámos a esta cidade na tarde de sábado, 4.08.2018, e logo, para não perder a visita guiada no domingo, corremos para a catedral, a 8-10 minutos do hotel, para concelebrar a missa dominical. Ofegante subí a escadaria da colina e na entrada perguntei a um homem se havia missa. “Vai começar a missa em polaco”. Corri à sacristia, apresentei-me aos dois sacerdotes, um deles a dizer que era norueguês e o outro polaco. Um deles ia presidir e logo mostrei o cartão e que desejava concelebrar; paramentei-me. Havia mais assembleia que em Estocolmo, e canto. No fim da missa o padre convidou-me a ir para a sacristia enquanto ele, paramentado, ficou a rezar, com quase todo o povo, a ladainha e o rosário. Em 2009, na mesma catedral, celebrei duas vezes em inglês com um padre vietnamita, que era ao mesmo tempo vigário e reitor do seminário da diocese de Oslo. Atualmente, na catedral, há missas dominicais em inglês, norueguês, croata, espanhol, francês, tagalog (filipino). À porta algumas pessoas queixavam-se de já não haver em alemão. Em Estocolmo a comunidade católica da Igreja de Santa Eugénia, no centro, conta 100 nacionalidades e celebra cinco missas aos domingos com a grande igreja cheia. Nestes países teimam em germinar sementes antigas de fé cristã e católica, muitas delas em hibernação há séculos. Vão crescendo quase despercebidas dos apressados e desatentos. Estas plantazinhas observam-se de modo especial nas igrejas católicas. Em Bergen, na Igreja católica de S. Pedro, em 4ª feira, terminava a missa com pouco mais de uma dúzia de pessoas. Uma das diferenças entre igrejas é que nas católicas estão sempre presentes as imagens de Nossa Senhora e o sacrário de Jesus eucarístico. Na catedral de Nossa Senhora, protestante e nacional, de Copenhaga, estavam a recolher píxides do altar. Teria havido uma celebração. O edifício atual do século XIX, substituiu a igreja católica do século XIII de que felizmente manteve o nome. Os santos titulares das catedrais católicas são Erik (Estocolmo), Olavo (Oslo) e Angário (Óscar) Copenhaga. Ao visitar algumas das muitas dezenas de igrejas luteranas nacionais e evangélicas, nestas cidades, sente-se o apelo de orar pelos missionários católicos que vem de países longínquos re-evangelizar estas populações ativando sementes cristãs adormecidas. E pensar que são países com o PIB mais alto, mais % de ateus e mais % a favor do aborto! (Bioéthique, Santé et Science, Hristo Xiep,1 juin 2018). E também as acolhem e empregam mais refugiados nos milhares de postos de trabalho para os quais não têm gente.