Pe. Miguel Ferreira, sj: Igreja tem de continuar a fazer caminho com os jovens

Foto: Duarte Gomes

O Pe. Miguel Gonçalves Ferreira foi convidado para orientar o Retiro do Clero, que decorreu na Casa de Retiros no Terreiro da Luta, entre os dias 2 e 6 deste mês de julho. O Jornal da Madeira conversou com este sacerdote jesuíta, nesta que foi a sua primeira visita à Diocese do Funchal. É essa conversa, transcrita sob a forma de entrevista, que aqui reproduzimos e em que falamos do retiro, claro, mas também de outros aspetos, nomeadamente da Pastoral Universitária, área a que o Pe. Miguel está igualmente ligado. Em seu entender, em relação à questão dos jovens, o que a Igreja tem de continuar a fazer é “encontrar formas de estar presente e de fazer caminho com eles”, em todas as etapas, incluindo a da vida académica.

 Jornal da Madeira Pe. Miguel Ferreira, como é que decorreu este retiro na Madeira?

Pe. Miguel Ferreira – Durante esta semana procurei trazer ao clero da Diocese do Funchal uma proposta espiritual a partir do caminho de Santo Inácio de Loyola, dos exercícios espirituais que ele propõe. Além disso, durante estes dias, estivemos também a reflectir e a rezar sobre o tema do discernimento, que nos é proposto pelo Papa Francisco e a tentar perceber como é que podemos nós também discernir.

Jornal da Madeira–Este tipo de reflexão é feito num determinado sítio, neste caso a Casa de Retiros do Terreiro da Luta, com um determinado grupo, mas depois há sempre ensinamentos que se levam lá para fora, neste caso para as paróquias.

Pe. Miguel Ferreira – Claro. Este tipo de retiros serve também para se fazer uma paragem nas actividades do dia a dia. A vida de um pároco é cheia de muitas solicitações e de muitas necessidades a atender. Por isso mesmo é importante que, enquanto estou a responder a essas necessidadeseu possa estar centrado, mas que tenha ao longo do ano momentos para recentrar. É para isso que servem estes momentos. Para que a actividade seja feita à maneira e ao estilo de Jesus.

Jornal da Madeira – Não sendo este, naturalmente, o primeiro retiro que orienta que feedback tem tido destas iniciativas?

Pe. Miguel Ferreira – Primeiro que elas são necessárias aos sacerdotes e não só. Estas paragens são importantes para todos, leigos incluídos. Num tempo em que, se nós não temos cuidado, pode se tornar muito dispersivo, mais ainda se tornam necessários estes momentos de paragens. Caso contrário, passe a expressão, somos engolidos pela actividade do dia a dia e perdemos o rumo e o norte. Então, para todos, mas muito especialmente para os sacerdotes, porque estão envolvidos na comunidade cristã como pastores, como aqueles que têm a seu cargo uma paróquia, uma comunidade, então para eles ainda mais. Porque têm a seu cargo a vida e a situação de muitas pessoas e muitas realidades diferentes,  desde a catequese, a transmissão da fé, desde a ajuda aos mais pobres, desde a celebração do culto, a celebração dos sacramentos desde o encontro com a vida diária das pessoas, nas suas alegrias, dificuldades e sofrimentos. Então, mais ainda, é necessário parar.

Jornal da Madeira – É uma paragem para encontrar respostas? 

Pe. Miguel Ferreira:  Nem é tanto para encontrar respostas. Eu diria que é mais até para encontrar perguntas, as perguntas certas. E sobretudo é um tempo para encontrar-se com Jesus, que é aquele que nos chama e nos envia.

O essencial é mesmo encontrar-se com o Senhor. Por isso é que é um tempo de silêncio, é um tempo de recolhimento, é um tempo de oração mais intensa, é um tempo de escuta da Palavra, é um tempo de oração pessoal e de contemplação, através do qual acontece este encontro com o Senhor e é isso que nos recentra.

Não é pensar muito, não é fazer novos planos, não é parar para fazer novos projectos, não, é parar para se encontrar com Jesus. A partir daí, com o coração centrado, então partimos para as solicitações do dia a dia.

Jornal da Madeira: Esteve reunido com 16 sacerdotes da nossa Diocese. É um bom número, no sentido de mais pessoas poderiam tornar mais complicadas as dinâmicas de trabalho?

Pe. Miguel Ferreira: Todos os grupos são óptimos. Este teve mais que 12, que era o número dos apóstolos. Portanto, se Jesus com 12 apóstolos fez o que fez, ficamos contentes. Às vezes mais vale poucas pessoas com o coração transformado e centrado, do que muitas distraídas. Muitos ou poucos não é esse o Seu critério.

Jornal da Madeira: Continuando ainda assim a falar de números, sei que o Pe. Miguel é mestre de noviços em Coimbra e sei também que passaram por um período de escassez, mas que neste momento a realidade já é diferente e para melhor…

Pe. Miguel Ferreira: É verdade. Aqui há uns anos passamos, de facto, por um momento de escassez, mas agora vivemos um período de abundância. Neste momento temos oito noviços e também um bom grupo que se prepara para entrar no próximo ano. Como em tudo na vida, há momentos altos e baixos. É uma realidade que afeta também as congregações religiosas e as dioceses. Mas o que é preciso é ter confiança e continuar a fazer aquilo que nos toca que é encontrarmo-nos com Jesus, vivermos da sua vida, falarmos Dele a outros, ajudarmos os outros a encontrá-lo. Se o Senhor quiser que sejamos mais seremos mais, se quiser que sejamos menos, seremos menos.

Jornal da Madeira: Enquanto houver nem que seja só um jovem há que continuar a trabalhar, é isso?

Pe. Miguel Ferreira: Claro que sim. Basta um. Acho que Jesus vai à procura da ovelha perdida que é só uma, e deixa as outras 99 no deserto. O reino dos Céus não é uma questão de números, é uma questão de Encontro.

Jornal da Madeira – O Pe. Miguel também trabalha na área da Pastoral Universitária. Há dias alguém me dizia que os jovens, sobretudo os que têm de sair das ilhas para ir estudar, sentem dificuldade em continuar a viver a sua fé. Isso acontece só com quem sai das ilhas ou também com quem vive no continente, mas tem de sair da sua terra para seguir a vida académica?

Pe. Miguel Ferreira: Sim, também acontece com quem vive no continente. O tempo da universidade é o tempo da passagem à idade adulta. Portanto é o tempo também, dos jovens tomarem a vida nas suas mãos e de, às vezes de uma forma mais acertada, outras vezes de forma mais desacertada, tomarem as suas decisões.

O que é importante é que a Igreja consiga encontrar formas de estar presente e de fazer caminho com os jovens também nesta etapa da sua vida. 

Jornal da Madeira – Dito assim parece tudo muito fácil…

Pe. Miguel Ferreira: Não é fácil, mas é possível. Estamos a falar de pessoas já adultas e autónomas, o que significa que a presença que se tem, deve ir ao encontro dessa mesma liberdade e autonomia, mas de tal forma que Jesus esteja presente nesta etapa da vida. E a verdade é que, apesar de esta ser uma pastoral exigente, temos encontrado novas formas de estar. Dou o exemplo das Missões Universitárias, que têm tido um grande impacto. São grupos de jovens que vão em missão para terras mais pequenas onde, durante uma semana, se dedicam a visitar os lares de idosos, a se encontrar com os grupos da catequese, no fundo a estar presentes na comunidade e a propor uma mensagem de esperança. Essa é uma forma nova. Mas existem já mais de 50 faculdades que levam grupos de 40 estudantes para essas visitas. É um movimento grande que, ainda para mais, é um movimento de comunhão de Igreja. Ou seja, não é um movimento pertencente a uma pequena realidade, mas um movimento que junta várias sensibilidades e comunidades.

A ideia é que os jovens se formem não apenas como profissionais, mas também como pessoa. O grande desafio é esse: ajudar os jovens, nesse momento da sua vida, a formarem-se como pessoas.

Jornal da Madeira – Pode-se então dizer que respostas há, procurá-las ou não depende dos jovens…

Pe. Miguel Ferreira:  Sim respostas há. E eu diria que quando a proposta é atractiva e quando ela vai ao encontro dos jovens, eles também respondem. É a experiência que eu tenho. Talvez não respondam de forma massiva, não respondam todos de uma vez. Mas aqueles que respondem, fazem-no certamente com muita sinceridade e são como o sal da terra, a semente, mas são sementes muito fecundas.

Jornal da Madeira – Esta foi a sua primeira vinda à ilha e à nossa Diocese…

Pe. Miguel Ferreira: É verdade, foi a primeira vez que visitei a Madeira. Gostei muito de a conhecer como ilha e como Diocese. Foi uma oportunidade de perceber melhor os desafios, a todos os níveis, que a Madeira atravessa. Desde os temas do emprego, ao regresso agora dos imigrantes venezuelanos. E a Madeira certamente com tanta esperança e com tantas possibilidades de ser um lugar de realização, também com tantos desafios sociais e eclesiais de fazer com que as formas tradicionais de religiosidade e de fé, pois possam responder aos desafios do futuro. Penso também que os próprios párocos estão conscientes disso.

Jornal da Madeira – Há dias o nosso bispo falava da necessidade de continuarmos a ser ilhas missionárias…

Pe. Miguel Ferreira: A missão é para dentro e para fora. Eu próprio conheci vários jesuídas missionários, o Pe. Manuel Sequeira que foi um grande missionário em Moçambique, o Pe. Estêvão Jardim, um grande missionário em Angola. Houve outros, mas estes foram os missionários jesuítas madeirenses que conheci e cujo ardor missionário testemunhei pessoalmente. Mas essa missão que é feita fora, noutros países, hoje também temos o desafio de a fazer cá dentro. Até porque hoje em dia, se calhar, não existem os países de missão. Toda a terra é missão e existe também esta missão interna decontinuar a transmitir a fé e o encontro com Jesus de uma forma significativa para os tempos de hoje.