O «Mare Nostrum» vira mar de «tragédia»

D.R.

Por P. Armando Soares

O Mediterrâneo foi o “Mare Nostrum”. Porém, nos últimos anos tornou-se lugar de «tragédia humana» – o grande cemitério de refugiados das guerras e conflitos africanos. É certo que – embora se fale pouco do que acontece na Nigéria, no Sudão, na Etiópia, na Somália, na República Centro Africana, na RD do Congo -, a população destes  países vive em situações dramáticas.

Na Espanha, a Associação Pró Direitos Humanos da Andaluzia (APDHA) dá apoio jurídico, está  vigilante para que os migrantes sejam bem tratados quando chegam à costa espanhola. No escritório em Puerto Real, Amin Souissi dá indicações em árabe aos imigrantes. Ele próprio é um imigrante. De nacionalidade marroquina, está há muitos anos em Espanha. Para ele, estas vagas de migrantes a chegarem em frágeis barcos não é novidade. “Há 25 anos que as vejo. Só que agora estão em alta”. 

Amin sublinha que grande novidade é a vinda dos subsarianos que chegam cada vez em maior quantidade. E “vêm menores, como eu vi nos barcos que chegaram a Barbate. Eu mesmo contei. Das 400 pessoas, 162 eram menores, alguns de 11, 12 anos, meninos e meninas que deixaram há pouco tempo a chupeta”. Chegam muitos bebés com as mães. Por vezes são nascimentos que já se dão na travessia. Mulheres que são frequentemente vítimas de abusos, como violação ou prostituição.

O Centro de acolhimento Manuel Falla é um dos cinco da província de Cádiz que acolhe menores. Crianças que arriscam atravessar o Mediterrâneo sozinhas. Estes Centros estão a rebentar pelas costuras. Num espaço que deveria receber 18 jovens, já estão 35.  Chegaram desacompanhados. Acreditam que a Europa é o “El Dorado”. “Quando lhes perguntamos porque vens? Respondem «para ajudar a minha família e ter um futuro melhor». Creem que vão ganhar muito dinheiro”.

 A Agência da ONU para Refugiados, ACNUR, e a Organização Internacional para Migrações, OIM, pedem aos países da União Europeia que actuem para resolver esta “tragédia humana”. Perto de mil refugiados e migrantes já morreram ao tentar chegar à Europa este ano.

Urge uma nova estratégia na colaboração entre União Europeia, ONU e União Africana. O comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, lembrou os navios que foram impedidos de atracar “devido a um impasse político na Europa”. Grandi diz que a defesa do direito de asilo na União Europeia é “absolutamente crucial”. Segundo ele, “negar resgate ou transferir a responsabilidade para outro lugar é completamente inaceitável”.

O número de refugiados e migrantes que tentam chegar à Europa por mar atingiu o pico em 2015. Nesse ano, mais de 1 milhão de pessoas tentaram atravessar o Mediterrâneo e quase 5 mil morreram. Até este mês, 42 mil pessoas ja tentaram fazer a travessia.

 O Papa Francisco questionado sobre a recente polémica com o navio ‘Aquarius’, impedido de atracar na Itália, disse: “Não devemos rejeitar as pessoas que chegam, devemos receber, ajudar e organizar, acompanhar e depois ver onde colocá-las, mas em toda a Europa”. E alerta para o risco de “um grande inverno demográfico” na Europa, que pode ser evitado com a ajuda dos imigrantes.

O padre Manuel Barbosa, secretário da CEP, elogiou por sua vez o esforço desenvolvido em Portugal para promover o acolhimento dos refugiados, migrantes e vítimas de tráfico humano.

António Guterres, secretário-geral da ONU, alertou para o crescimento do número de situações em que os refugiados “não estão a receber a protecção de que precisam e à qual têm direito”. E recorda que em 2018 vai ser apresentado na Assembleia Geral da ONU o pacto global sobre refugiados, defendendo que este apresenta “um caminho a seguir” e reconhece os contributos que os refugiados oferecem às sociedades que os acolhem. É preciso educar para a “cultura do encontro” a que apela o Papa Francisco.  

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