Pe. David Teixeira: o catequista deve ter capacidade de transmitir o Evangelho como algo sempre novo

P. David Teixeira | Foto: Duarte Gomes

Chama-se David Teixeira, é padre salesiano, e foi um dos oradores convidados para falar aos catequistas no seu Dia Diocesano. Uma iniciativa que este ano se realizou a 10 de junho, na paróquia de Santa Cecília e reuniu perto de mil participantes. 

Foi sobre os desafios que se lhes colocam na atualidade que esteve à conversa com o nosso Jornal. O primeiro, diz o Vice-Diretor dos Salesianos e Coordenador da Pastoral, “é o catequista viver a fé” que quer transmitir.

Além disso, falou-nos tambémde algumas “armas”, de que estes se poderão munir, para ultrapassar as dificuldades e tornar o Evangelho, e a sua transmissão, em algo sempre novo.

 Jornal da Madeira –  O Pe. David Teixeira foi um dos convidados do Dia Diocesano do Catequista e a sua intervenção foi sobre  “Catequistas para os tempos de hoje”. Postas as coisas assim, a primeira coisa que pensamos é nos desafios que os catequistas têm de enfrentar…

Pe. David Teixeira – Penso que o grande desafio, mais do que partilharem verdades da fé, doutrina, é eles serem os primeiros a viver essa fé. Acho que às vezes o catequista está tão preocupado em passar informação, o que é naturalmente importante, é para isso que as crianças e jovens estão na catequese, que se esquecem de viver da força da fé, perante  as contrariedades que existem sempre: destinatários difíceis e pais e párocos que não facilitam. Tudo isto, por vezes, é demasiado para um catequista e, portanto, considero que só encontrará algum descanso e força na fé. É nesse sentido que afirmo que, mais do que transmitir, é preciso viver essa fé. Se o catequista se sentir munido dessa fé, com estas “armas”, a catequese seria mais “suportável”.

Jornal da Madeira –  Falou de “armas”… que armas são essas?

Pe. David Teixeira – Quis mexer com este imaginário também. A ideia é tirada do final do capítulo 6, da Carta de São Paulo aos Efésios. Diz ele que nos devemos munir de algumas armas, como por exemplo, do capacete da salvação; da espada do Espírito, que é a Palavra de Deus; das sandálias, que representam a alegria e a disponibilidade para anunciar a Boa Nova: o Evangelho que temos de transmitir tem que ser uma novidade…

Jornal da Madeira –  No fundo, o que  o Pe. David está a querer dizer é que o Evangelho é o mesmo mas é preciso transmiti-lo de outra forma. Mais atrativa, é isso?

Pe. David Teixeira – Sim, é isso mesmo.

Temos de encontrar maneiras criativas de transmitir essa Boa Nova, de maneira a que ela seja atrativa.

Para isso não podemos continuar a usar os mesmos métodos. Temos de encontrar outras modalidades, para passar a mensagem.

Jornal da Madeira –  Mas há mais armas, certo?

Pe. David Teixeira – Sim. Temos ainda a cintura da verdade, por exemplo. Porque eu acho, e São Paulo diz isso mesmo naquela passagem, que o nosso maior problema não são as pessoas, mas a verdade que vivemos. Neste caso, não são as crianças ou os jovens, nem os pais deles, nem o pároco, nem o que quer que seja. É o espírito do mal que nos vai insinuando outras supostas “verdades” que nos vão deitando abaixo… Por exemplo: olhando para aqueles que se comportam menos bem, o espírito do mal diz assim: “Pois, estás a perder tempo, não vale a pena, desiste da catequese”. Mas nós temos que ser mais fortes do que isso. Perante isto nós temos de nos servir da cintura da verdade e dizer assim: Não! Deus está do meu lado. Deus quer que eu O ajude. Eu sou filho de Deus. Deus gosta de mim. O que está aqui em causa não sou eu, é para um bem maior. É por Deus. Pode-nos custar um bocadinho, posso não estar a entender porque é que isto está a ser tão difícil, mas vou conseguir. Sobretudo, porque não estou sozinho. Deus está comigo e a força d’Ele acompanha-me. São estas as armas a que fiz referência.

Foto: Duarte Gomes

Jornal da Madeira –  Eu que tenho acompanhado o senhor Bispo quando ele vai administrar o Sacramento da Confirmação sei, e nem de outra forma poderia ser, que ele reconhece e agradece o trabalho dos catequistas. Mas a verdade é que eles acompanham os jovens durante 10 anos e depois a maioria acaba por se distanciar…

Pe. David Teixeira – Já agora, por falar em Crismas, os crismandos tornam-se, na nossa linguagem cristã, em soldados de Cristo. Esta foi a imagem de cristãos que quis partilhar aqui neste encontro com os catequistas, porque, afinal, na sua missão, eles devem ser também soldados de Cristo. Quanto à sua questão, devo dizer que sou novo aqui na ilha. Aquilo que eu vou dizer, pode não estar totalmente certo, mas é uma perceção que tenho. O facto de muitos dos nossos jovens terem de ir para o continente para prosseguirem os seus estudos, acaba por ser uma das possíveis razões para esse distanciamento. Indo para as universidades que, na sua maioria, não estão preparadas para os receber deste ponto de vivência religiosa, acabam por fazer com que não haja a continuidade de fé que se desejaria. Depois, vão para um lugar novo onde não conhecem nenhuma igreja e também não são desafiados a conhecer uma igreja próxima e a continuar a sua caminhada de fé. Depois, é uma nova etapa, novos estudos, novas exigências. É tudo tão novo que a fé, ou pelo menos a comunidade cristã, acaba por ficar em segundo plano. Aí nota-se um certo esmorecimento. Finalmente, também acho que não são assim tantos os catequistas jovens que os possam contagiar, com uma linguagem acessível, mais próxima da deles.

Jornal da Madeira – E como é que se pode contornar essa situação?

Pe. David Teixeira – Isso é uma questão que, de facto, não sei muito bem como é que podemos contornar. Talvez, em vez de apostarmos nesta faixa etária, devíamos apostar mais nas famílias, uma vez que os pais cristãos são vocacionados a serem os primeiros catequistas dos seus filhos. 

Jornal da Madeira – Ainda bem que toca na questão da família. Outra das ideias que o nosso bispo Diocesano passa constantemente é que a catequese começa na família. Os meninos vão para a catequese, mas em casa temos de continuar a nossa missão.

Pe. David Teixeira –Aqui, no âmbito do Dia do Catequista, não quis debruçar-me sobre esses temas. Quis fazer uma intervenção pela positiva, puxando as pessoas para cima e não trazendo “problemas”. Mas na verdade, acho que deveríamos catequisar os adultos, começando nas famílias. É com essas pessoas mais adultas que podemos usar uma linguagem nova que elas, depois,poderão passar aos filhos.

A Igreja, ao contrário do que se possa pensar, também já evoluiu em termos de linguagem. Agora, não a podemos é usar com os mais novos. Eles precisam do básico. Com adultos, no entanto, nós podemos fazer isso e eles podem questionar e nós podemos conseguir, em conjunto, respostas.

Isso é desafiante e é essa catequese que nós estamos chamados a fazer. 

Jornal da Madeira – Mesmo assim e voltando ao Dia Diocesano, temos aqui muitos catequistas, tanto mais que estamos numa ilha…

Pe. David Teixeira – Quando cheguei aqui para participar neste Dia Diocesano do Catequista fiquei surpreendido, confesso. E dizem-me que, mesmo assim, não estão cá todos. Ainda são mais. É, portanto, um grupo muito bom: parabéns!

Foto: Duarte Gomes