Luísa Sousa: A missão de dar a conhecer o Caminho de Santiago como algo acessível a todos

Foto: Duarte Gomes

“Há alturas na vida em que é preciso arriscar, dar o salto, confiar.” A frase é de Luísa Sousa e, apesar de se referir literalmente a um salto de paraquedas, pode funcionar como uma máxima para a vida. Mesmo quando se tem os pés bem assentes na terra e o desafio passa por percorrer milhares de quilómetros a pé. E foi isso mesmo que fez a Luísa. Em 2010, fez-se ao Caminho de Santiago. Hoje, aos 34 anos e quatro Caminhos depois, esta licenciada em Ciências Sociais na Universidade Aberta e artesã de profissão, garante que este é mesmo um caminho para todos”, título que deu ao livro que publicou entretanto, e que lhe tem aberto “muitos outros caminhos” e “muitas portas” para cumprir a missão de falar do Caminho. O livro é o resultado de um percurso com 1000 quilómetros, palmilhados ao longo de 42 dias, entre Sevilha e Santiago de Compostela.

Jornal da Madeira A propria Luísa confessa que sempre teve um fascínio pelas peregrinações no geral, não apenas pelo Caminho de Santiago, mas nunca se imaginou a fazer uma dessas jornadas?

Luísa Sousa – É verdade. Sempre que eu via alguma notícia ou reportagem, chamava-me a atenção as pessoas caminharem durante tanto tempo, por tantos dias, só com uma mochila às costas. Eu que sempre fui sedentária, parecia-me algo impossível de concretizar. Daí ter uma grande admiração por quem o fazia. Eu associava esse feito, vá lá, a alguém que tinha muito boa forma física ou tinha uma fé enorme, capaz de ultrapassar tudo. É por isso que sempre me pareceu algo que eu não seria capaz de fazer. Afinal fui. Daí, mais tarde ter criado o blogue e depois ter publicado o livro, precisamente com o intuito de passar a mensagem que o Caminho é mesmo acessível a todos os que o queiram fazer.

Jornal da Madeira Quando é que decidiu ir? O que é que despertou a vontade e a fez dizer: é agora!

Luísa Sousa  Eu estudei no Porto. Em 2006 tinha acabado a faculdade e estava de regresso à Madeira. Tinha uma amiga de Caminha, que sabia deste meu gosto pelas peregrinações e por ir a Santiago. Ela propos-me passar dois ou três dias na casa dela, e depois irmos até Santiago. A nossa ida coincidiu com as festas de São Tiago, a 24 e 25 de julho. E foi uma loucura. Dia noite, em praças e pracinhas, havia uma oferta cultural variada, com concertos, exposições… Eu, que até gosto de ambientes calmos, gostei muito daquele ambiente. Claro que também fomos à catedral e foi aí que vivi os dois momentos mais significativos e que me levariam a tomar a decisão. O primeiro foi o abraço a Santiago. A primeira reação foi estranha. 

“A imagem de São Tiago está voltada para a assembleia e nós damos o abraço pelas costas e ao dar o abraço senti qualquer coisa que não estava à espera”.

Vinha a pensar nisso, quando cheguei às escadas da praça onde fiquei à espera da minha amiga. Foi aí o segundo momento. Comecei a observar os peregrinos a chegar de todos os lados. E é sempre emotivo ver a reação de quem chega. Reparei num grupo de jovens, espanhóis, todos de t-shirt amarela. Iam chegando visivelmente cansados, uns a cambalear, com mazelas nos pés e nas pernas e iam se sentando. Ao fim de um tempo, quando o grupo já estava todo reunido, eles levantaram-se e abraçados, começaram aos saltos e a gritar: campeões, campeões. Eu que estava no cimo das escadas e tinha visto o estado em que muitos deles tinham chegado arrepiei-me por ver aquela alegria, imaginanddo também aquilo por que tinham passado até chegar ali. Foi aí que eu disse: um dia quero saber o que é esta alegria da chegada. Isto foi em 2006, e eu decidi que faria o caminho em 2010, por ser um ano jacobeu e o dia de São Tiago calhar num domingo.

Jornal da Madeira Isso também lhe dava tempo para se preparar…

Luísa Sousa – Sim. Eu pensei que esses quatro anos me dariam tempo para me preparar fisicamente e para ultrapassar também aquela fase de transição da universidade para o mundo laboral. Além disso, também teria tempo de saber se a vontade de ir se mantinha ou não. A verdade é que não só se manteve como cresceu. Claro que as pessoas a quem eu ia dizendo o que queria fazer, até mesmo da família, não acreditavam. Diziam logo: tu que não andas aqui uma hora, vais fazer o Caminho… Correu tudo bem, exceto de facto a parte da preparação física. Dois meses antes de partir comecei a treinar mais a sério. Mas as duas primeiras semanas foram uma desilusão, porque eu estava à espera de ver logo resultados. As pernas doiam-me de andar só duas horas. Houve ocasiões em que pensei que se calhar tinha desejado algo que era demasiado para mim. Mas, tive a companhia do meu irmão e ao fim dos dois meses já me sentia melhor, embora não confiante o suficiente. 

Jornal da Madeira Para além da preparação física, que outros cuidados é que devemos ter. Afinal, não é por sermos peregrinos que devemos descurar certos aspetos.

Luísa Sousa – Sim. Basicamente temos de manter os cuidados que temos no dia a dia. O caminhar durante a noite, por exemplo, acarreta outros perigos que durante o dia se desvanecem. Mas isso é como em qualquer lado. É ter cuidado, mas sem estar obsecado, porque senão também não aproveitamos. Ainda hoje, quando vou falando com as pessoas, quando vou aos sítios divulgar o livro, digo sempre isso. Também recebo muitas mensagens, especialmente de mulheres, a perguntar se é seguro. Eu as duas primeiras vezes fui acompanhada, as outras duas fui sozinha. Psicologicamente pode ser um problema, na prática é menos. A verdade é que vamos sempre encontrando pessoas. Fiz algumas partes mesmo sozinha, porque era minha intenção estar mesmo só, noutras fui acompanhada e ainda bem, porque faz tudo parte desta vivência.

Jornal da Madeira – Bem, chegamos a julho de 2010 e a Luísa lá vai, na companhia de um amigo…

Luísa Sousa – Sim. Partimos de Valença do Minho, fizemos três dias de caminho, um de pausa em Pontevedra e mais três dias até Santiago. Acabei por verificar que essa pausa final não tinha sido necessária. Mas como era a primeira vez, não quis arriscar.

“Normalmente, temos a tendência para fazer muitos quilómetros nos primeiros dias. O entusiasmo é tanto, que vamos andando quase sem sentir, mas isso acaba trazendo mazelas nos dias a seguir. Com o tempo, vamos aprendendo a gerir o esforço”.

No primeiro Caminho eu tinha as etapas todas definidas e isso é bom, sobretudo quando se vai por pouco tempo.

Jornal da Madeira Foi o Caminho Via de La Plata, um dos menos percorridos, que deu lugar ao livro «Um caminho para todos – Diário de uma peregrina no Caminho de Santiago». 

Luísa Sousa – Sim, comparativamente com outros Caminhos, este ainda é dos menos percorridos. O livro de facto nasce, em 2015, depois de ter feito este Caminho em 2014, mas podia muito bem ter sido sido escrito depois de ter percorrido qualquer um dos outros. O livro não é sobre a Via de La Plata, é sobre o Caminho de Santiago. As vivências, os encontros, as dificuldades, passam-se em todos os caminhos. Aliás, o feed-back que vou tendo dos peregrinos que leem o livro é mesmo esse: é que não fizeram este caminho, mas identificam-se com aquilo que está escrito, porque há coisas que são comuns.

Jornal da Madeira – Este livro, mesmo não pretendendo ser um guia, como a própria Luísa afirma, acaba por dar dicas a quem queira emprender o caminho…

Luísa Sousa – Quando eu comecei, em 2010, havia coisas que eu não fazia a menor ideia. São coisas que as pessoas que fazem grandes caminhadas estão habituadas, mas que para mim eram novidade. Todas as pequenas coisas que fui aprendendo ao longo do primeiro, e depois dos outros Caminhos, acheipor bem partilhar. Então acompanho cada dia com uma reflexão e uma dica. Mas a verdade é que cada um tem de adaptar as dicas às suas necessidades, porque somos todos diferentes. Eu posso me sentir mais confortável com umas botas, outra pessoa com uns bons ténis. Agora há coisas que são básicas e comuns a todos os peregrinos. A mochila, por exemplo, é comum todos usarem. Agora o que cada um coloca lá dentro, já depende de pessoa para pessoa, embora hajanovamente coisas que são básicas e todos devemos levar. Uma coisa é certa, se pensamos “talvez precise” é sinal que não vale a pena levar, porque não vamos usar. Eu habituei-me de tal maneira à mochila que hoje ando sempre com ela, já faz parte de mim. 

Jornal da Madeira – Para além das dicas que o livro contem, que outros conselhos deixa a quem esteja a pensar, um dia, empreender a jornada?

Luísa Sousa

“A primeira é logo que não digam “um dia”. Geralmente quem diz um dia, acaba por não ir. O melhor é marcar logo uma data e assumir o compromisso de ir, aconteça o que acontecer”.

Se vermos bem, nunca vai haver uma data ideal. Ou é porque alguém adoece, ou por causa do trabalho, ou das férias… há sempre qualquer coisa que se sobrepõe à ida. Por isso mais vale marcar uma data e assumir o compromisso. Se tivermos companhia, ainda bem, se tivermos de ir sós a verdade é que logo no primeiro dia encontramos outros peregrinos vindos dos mais diversos locais. Hoje o caminho também é isso: um local que reúne gente de todo o mundo, embora com prevalência para os europeus. Só ficamos sós, se realmente for essa a nossa opção. E há uma coisa curiosa: quando desligamos as televisões, os rádios e passamos a conviver mais uns com os outros, vemos que somos todos mais iguais do que parecemos. Mais, continuamos boas pessoas, ao contrário do que possamos pensar.

Jornal da Madeira – Quando vai ser o próximo caminho?

Luísa Sousa – Não sei. Quando é para ir é para ir. Deixo o senhor São Tiago decidir. Mas confesso que já começo a sentir necessidade. Mas o ano passado e este ano têm sido para falar sobre o caminho, porque na verdade é isso que faço quando uma porta se abre, e alguém me convida para ir apresentar o livro. Tem sido outra forma de fazer o caminho. Basta que uma porta se abra. Encaro isto como uma missão: falar sobre a partilha, a confiança, as boas pessoas que continuamos a encontrar e  a superação. Quando for a hora de meter pés ao Caminho saberei certamente que chegou a hora.

Jornal da Madeira – A Luísa teve a gentileza de me oferecer um livro, mas também uma vieira. Gostava, antes de lhe desejar “buen camino”, que me falasse da vieira e do que ela representa.

Luísa Sousa – Todos os peregrinos costumam ter uma vieira. É um dos símbolos que nos diferencia dos outros caminhantes. Quando as pessoas vêem a vieira já sabem ao que vamos e isso facilita as coisas. Diz-se que a vieira foi escolhida porque, nos tempos em que não havia forma de comprovar que as pessoas tinham feito o Caminho, elas caminhavam mais dois ou três dias até à costa, até Finisterra – o fim da terra. Aí apanhavam as vieiras que encontravam na praia e dessa forma, comprovavam que tinham feito o Caminho de Santiago.