Ordem Hospitaleira de S. João de Deus: Memória e encontros. Irmão Amadeu Videira (1934-2018)

Irmão Amadeu Videira | Foto: Ordem Hospitaleira de S. João de Deus

Por Aires Gameiro

Este Irmão de S. João de Deus faleceu no dia 3 de junho de 2018 em Lisboa após longo período de doenças e de recuperações.

Natural da freguesia de Alfaiatas, Sabugal. Tinha 84 anos, feitos em 6 de abril. Entrou no noviciado da Ordem Hospitaleira a 12 de maio de 1951 e professou a 1 de novembro de 1952. Passados dois anos foi colocado na Casa do Funchal onde nos cruzámos com ele no dia 30 de setembro de 1954. Ele chegava de Lisboa no mesmo barco, Carvalho Araújo ou Lima, em que eu, passada algumas horas, regressava a Angra do Heroísmo, após dois meses de férias de estudante na comunidade do Funchal.

O Irmão Videira vinha já com alguns apetrechos de factótum, eletricista, mecânico, etc. que ainda me mostrou no quarto antes da minha partida. Durante toda a sua vida o seu forte de habilidoso “mecânico” iria ajudar nas muitas funções que a Ordem lhe iria pedir. Este talento iria desenrascar muita gente à sua volta e realizar muitos consertos em várias casas. Ia chegar o tempo das galenas, rádios e gravadores, motores e frigoríficos, projetores, televisões e telemóveis. Entretanto continuou no Funchal onde exerceu a função vice superior.

Em 1962 regressou ao Telhal para fazer o curso geral de enfermagem de três anos (1962-1965) no mesmo grupo do Irmão Horácio Monteiro e outros. No capítulo provincial de 1965 foi nomeado superior de uma leprosaria em Moçambique. Ali se ocupou de 1965 a 1967, como missionário e superior da comunidade, a assistir leprosos na Gafaria Dr. Aires Pinto Ribeiro-Naueia, António Enes.

Em 31 de março e 1967 já estava nomeado para a missão e mandato de superior da comunidade da Clínica de Psiquiatria do Hospital Maria Pia em Luanda onde chegou no dia 9 de junho de 1967. Onde em outubro de 1970 me juntei a esta comunidade e aos Irmãos António Janeiro Aço e Nazário; ia substituir o P. João Gameiro, nomeado para mestre de noviços no recém-criado noviciado de Nampula. Além de capelão fui professor na Escola de Serviços Técnicos de Saúde da Província de Angola (assim se chamava), do Instituto de Serviço Socia Pio XII e do Seminário.

Logo daí a pouco o Irmão Videira foi mostrar um pouco de Angola por Catete, Viana, Catete, Salazar, Malange. Era o tempo da guerra colonial e eu ia um pouco receoso mas logo me sosseguei por sentir o seu à vontade, mesmo nos lugares mais incertos, como conto no meu livro saído este ano. Não viajava sem antídoto para as mordeduras das serpentes, sem machado para cortar alguma árvore e improvisar uma ponte para o carro poder passar sobre ribeiro de ponte destruída; e sem caçadeira para surpreender alguma peça de caça. Mais tarde fomos a Novo Redondo, Quibala, Nova Lisboa, etc. No regresso dessa viagem visitamos um campo imenso de abacaxis e a sede era muita. Queríamos comer um, mas não havia faca ou canivete. Valeu a chave de parafusos da ferramenta da carrinha para o abrir um em quatro partes e chupá-lo. Antes de ele sair de Angola contatou o seu mano enfermeiro em Sá da Bandeira para os três que ficámos mais tempo pernoitarmos em casa dele num outro passeio. A comunidade deixou a Clínica de Luanda ficando ali os dois Irmãos, Crisógono e Rosa, a construir uma casa de saúde da Ordem que  já com a casa em acabamentos tiveram que sair  para o Brasil em 1975 durante a guerra civil.

No capítulo provincial de 1971 o Irmão Amadeu Videira foi nomeado para Superior/diretor na Casa de Saúde de S. Rafael de Angra do Heroísmo por dois mandatos de 1971 a 1977 onde construiu o Cinema Studio 75 e celebrou os 50 anos da Casa. Em 1977-1980 foi primeiro conselheiro provincial no Telhal. De 1980 a 1986 foi superior/diretor do Telhal data em que foi demolido o Pavilhão de S. José, construído Bento Menni, o Cinema na sua ala norte e o novo edifício administrativo e de receção. Voltou a exercer outro mandato em Angra de 1986 a1989 onde terminou, mobilou e inaugurou em 8 de março de 1987 a reconstrução da Casa destruída pelo terramoto de 1 de janeiro de 1980 e diligenciou para que os doentes pudessem usufruir da pensão social.

De 1990 a 1998 passou a Barcelos com a mesma função de superior/diretor em Barcelos onde procedeu à renovação do pavilhão de S. José e adquiriu uma réplica da estátua de S. João de Deus de Soares Branco do V Centenário do Nascimento de S. João de Deus (1995).

De 1998-2001 foi nomeado para o Funchal de 1998 a 2001 onde construiu uma secretaria nova que fomos acabar em 2001; e iniciou o treino de reabilitação psicossocial do primeiro grupo dos doentes que iriam ocupar já no nosso mandato de diretor as primeiras unidades de reabilitação.

Voltou ao Telhal em 2001 onde se ocupou da manutenção durante vários anos e foi ecónomo da comunidade. Em 2006 por solicitação da Dra. Susana Queiroga um grupo de quatro Irmãos participámos na peregrinação a Lurdes da Província Francesa. Além do Irmão Videira, como condutor, e de mim acompanharam-nos o P. Mário e o Irmão Germano. Foi uma peregrinação muito agradável e espiritual. Visitámos S. Tiago de Compostela, Gijon, Loyola, Xavier, Roncesvales, na ida, e Burgos no regresso. No santuário juntámo-nos aos grupos de Irmãos, colaboradores e utentes vindos da França e da Inglaterra participando nos atos celebrativos no recinto.

Nos últimos três anos visitava o Irmão Videira na Clínica S. João de Ávila sempre que passava por Lisboa. O Irmão Videira mostrava o seu contentamento e comunicava muito abertamente como sempre foi o seu modo de ser. Nas últimas três ou quatro visitas estava de tal maneira bem disposto e falador que dava esperança de em breve  regressar à comunidade do Telhal. Mas o Pai chamou-o quando entendeu para lhe dar as boas vindas ao seu Reino por ter sido tão hospitaleiro e ter dado pão e água a tantos pequenos Cristos que encontrou na sua vida tão movimentada. Uma vida de Irmão longa e comprometida, salvo erro, com trinta anos de superior e 3 de primeiro conselheiro provincial. O Senhor hospitaleiro o acolha na glória.

Funchal, 6 de junho de 2018