Opinião: Sonho de fim de maio

D.R.

Por P. Aires Gameiro

Deitei-me um tanto cansado. Tinha estado num congresso de três dias em Leiria sobre a história da diocese em que participaram dois bispos e um cardeal. Muitos temas: antes da diocese, criação, extinção e pós-supressão e, finalmente, restauração em 1918 e Fátima.

No dia seguinte, veio a notícia surpresa. Mais um cardeal português! Naquela noite aconteceu algo de estranho durante o sono. Eram estranhas aquelas cenas. Havia uma multidão, a praça era imensa, talvez um milhão de pessoas. Tinha certas semelhanças com a praça de Pequim, Tiananmen, algo semelhante à de Fátima, ou talvez à de Moscovo, mas esta não a conheço. Seria a primeira; havia gente fardada com cara de orientais. Um homem com vestes inabituais falava à multidão. Não entendi bem o que dizia, mas pareceu-me que falava sobre a paz e Igreja Católica no Oriente. Agora dizia que tinha vindo de Roma, mas já antes viera de Fátima e que era a primeira vez que um papa ali vinha. Agora entendia-se melhor o que dizia. Trazia um abraço de muitos povos e cidades que já tinha visitado e falava da alegria de estar a visitar aquele grande país e agradecia às autoridades e aos bispos. Fazia algumas referências aos missionários.

Seguiu-se outro cenário em que se mostrou à multidão um novo papa na praça de S. Pedro. Tinha semelhanças com um cardeal que conhecia e logo gritos: Fátima! Fátima! E logo a seguir ouviu-se: o Papa Francisco II vai saudar os presentes. O sonho tornou-se confuso. Ora me pareceu ouvir “falecido” ora “resignou”, “continuar a sua obra”, escolher o mesmo nome, mas doutro Francisco.

Estava eu em suspense e logo um ruido sobreveio que me chamou à realidade e o sonho se esvaiu. Fiquei triste por o sonho se ter interrompido no momento em que viria o seguimento. Custou ficar sem esclarecimento. Agora, só recorrendo à autointerpretação do sonho.

Ocorreram reminiscências de tantas leituras sobre sonhos e sua análise. As associações espontâneas emergiram, mas causavam perplexidade. Uma foi a intensidade da surpresa pela nomeação de D. António Marto para cardeal. As conversas com pessoas que confirmaram que a surpresa para ele foi mesmo total, por tal hipótese nunca ter sido abordada com ele; os comentários na semana a seguir a essa surpresa, os devaneios em estado de vigília terão estado na base do sonho que tive. Um dos devaneios foi sobre visita a Pequim e a possibilidade do cardeal português de Fátima vir a ser papa e vir a ser testemunha do período tão prometido e anunciado pela vidente Lúcia: “ e por fim o meu Imaculado Coração triunfará”. Seria com a colaboração do papa de Fátima com o nome do pequeno Francisco falecido há 100 anos? É pena ser só um sonho acompanhado de devaneios.

Bem, mas se os leitores permitem, pode também ser um wishful thinking, ou pensamento-desejo, não adivinhação, de que finalmente o Papa de Fátima celebraria Jesus Cristo nas Praças Vermelha e na de Tiananmen. Já o tinha desejado e imaginado esta última cheia de grande multidão quando a visitei em 2002. A vinda do Cardeal de Hong Kong a Fátima é bom auspício e deve ter concorrido para o sonho. Será que as atenções se estão a desviar do Ocidente laicista de cultura cristã fraturada para um novo Continente em evangelização mais acelerada?

Funchal, 27 de maio de 2018