A Igreja não possui a faculdade de conferir às mulheres a ordenação sacerdotal

Mario Bogani, "A última Ceia" (1932)

L’Osservatore Romano

O carácter definitivo da doutrina de «Ordinatio sacerdotalis»

D. Luis Ladaria, Prefeito da Congregação para a doutrina da fé

“Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim” (João, 15, 4). Se a Igreja pode oferecer vida e salvação ao mundo inteiro, é graças ao seu enraizamento em Jesus Cristo, seu fundador. Este enraizamento ocorre em primeiro lugar através dos sacramentos, com a Eucaristia no centro. Instituídos por Cristo, eles são os pilares fundadores da Igreja que a geram continuamente como seu corpo e sua esposa. Intimamente ligado à Eucaristia encontra-se o sacramento da ordem, no qual Cristo se torna presente à Igreja como fonte da sua vida e do seu agir. Os sacerdotes são configurados “a Cristo sacerdote, de tal modo que possam agir em nome de Cristo, cabeça da Igreja” (Presbyterorum ordinis, n. 2).

Cristo quis conferir este sacramento aos doze apóstolos, todos homens que, por sua vez, o comunicaram a outros homens. A Igreja sempre se reconheceu vinculada a esta decisão do Senhor, que exclui que o sacerdócio ministerial possa ser validamente conferido às mulheres. João Paulo II, na carta apostólica Ordinatio sacerdotalis, de 22 de maio de 1994, ensinou: “Para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cfr Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja (nº 4). A Congregação para a Doutrina da Fé, em resposta a uma dúvida sobre o ensino da Ordinatio sacerdotalis, reiterou que se trata de uma verdade que pertence ao depósito da fé.

Sob esta luz, é motivo de séria preocupação ver o aparecimento em alguns países de vozes que questionam o carácter definitivo desta doutrina. Para argumentar que ela não é definitiva, argumenta-se que não foi definida ex cathedra e que, portanto, uma decisão posterior de um futuro Papa ou concílio poderia alterá-la. Semeando estas dúvidas gera-se uma grave confusão entre os fiéis, não só sobre o sacramento da ordem como parte da constituição divina da Igreja, mas também sobre o magistério ordinário que pode ensinar de maneira infalível a doutrina católica.

Em primeiro lugar, no que se refere ao sacerdócio ministerial, a Igreja reconhece que a impossibilidade de ordenar as mulheres pertence à “substância do sacramento” da ordem (cfr. Denzinger-Hünermann, 1728). A Igreja não tem capacidade de mudar esta substância, porque é precisamente a partir dos sacramentos instituídos por Cristo que ela é gerada como Igreja. Não é apenas um elemento disciplinar, mas doutrinal, no que diz respeito à estrutura dos sacramentos, que são o lugar originário do encontro com Cristo e da transmissão da fé. Portanto, não estamos diante de um limite que impediria a Igreja de ser mais eficaz na sua atividade no mundo. Se a Igreja não pode intervir, na verdade, é porque neste ponto, intervém o amor original de Deus. Ele está em ação na ordenação dos presbíteros, para que a Igreja contenha sempre, em cada situação da sua história, a presença visível e eficaz de Jesus Cristo “como fonte principal da graça” (Francisco, Evangelii gaudium, n ° 104).

Consciente de que não podemos mudar essa tradição por obediência ao Senhor, a Igreja também se esforça para aprofundar seu significado, uma vez que a vontade de Jesus Cristo, que é o Logos, nunca é sem sentido. O sacerdote, de fato, age na pessoa de Cristo, esposo da Igreja, e seu ser homem é um elemento indispensável desta representação sacramental (cfr. Congregação para a doutrina da fé, Inter insigniores, n. 5). Certamente a diferença de funções entre homem e mulher não traz consigo nenhuma subordinação, mas um enriquecimento mútuo. Lembre-se de que a figura consumada da Igreja é Maria, a Mãe do Senhor, que não recebeu o ministério apostólico. Assim, vemos que o masculino e o feminino, a linguagem original que o criador inscreveu no corpo humano, são assumidos na obra de nossa redenção. Precisamente a fidelidade ao desígnio de Cristo sobre o sacerdócio ministerial permite, então, aprofundar e promover ainda mais o papel específico das mulheres na Igreja, dado que “nem a mulher é separável do homem, nem o homem da mulher, diante do Senhor” (1 Coríntios, 11, 11). Além disso, pode-se lançar assim, uma luz sobre a nossa cultura, que tem dificuldade em compreender o significado e a bondade da diferença entre o homem e a mulher, o que também afeta a sua missão complementar na sociedade.

Em segundo lugar, as dúvidas levantadas sobre o carácter definitivo da Ordinatio sacerdotalis também têm consequências graves sobre o modo de compreender o magistério da Igreja. É importante reiterar que a infalibilidade não considera somente pronunciamentos solenes de um concílio ou do Sumo Pontífice, quando fala ex cathedra, mas também o ensino ordinário e universal dos bispos dispersos pelo mundo, quando propõem, em comunhão entre eles e com o Papa, a doutrina católica a considerar-se definitivamente. João Paulo II na Ordinatio sacerdotalis referiu-se a essa infalibilidade. Assim, ele não declarou um novo dogma, mas com a autoridade que lhe foi conferida como o sucessor de Pedro, confirmou formalmente e tornou explícito, a fim de eliminar qualquer dúvida, aquilo que o Magistério ordinário e universal considerou ao longo de toda a história da Igreja como pertencente ao depósito da fé. É precisamente este modo de pronunciar-se que reflete um estilo de comunhão eclesial, já que o Papa não quis agir sozinho, mas como testemunha na escuta de uma tradição ininterrupta e vivida. Por outro lado, ninguém negará que o magistério possa exprimir-se infalivelmente sobre verdades que são necessariamente ligadas ao dado formalmente revelado, pois somente deste modo pode exercer a sua função de guardar santamente e expor fielmente o depósito da fé.

Uma outra demonstração do empenho com o qual João Paulo II abordou a questão é a consulta prévia que ele quis ter em Roma com os presidentes das conferências episcopais que estavam seriamente interessado nesta problemática. Todos, sem exceção, disseram, com plena convicção, por obediência da Igreja ao Senhor, que ela não possui a faculdade de conferir às mulheres a ordenação sacerdotal.

Sobre esta matéria também insistiu Bento XVI, recordando, na Missa Crismal de 5 de abril de 2012, que João Paulo II “declarou de maneira irrevogável” que a Igreja, sobre a ordenação de mulheres “não teve nenhuma autorização do Senhor”. Seguidamente Bento XVI questionou, a propósito  de alguns que não aceitaram esta doutrina: “Mas a desobediência é realmente um caminho? Pode-se perceber nisto algo de conformidade com Cristo, que é o pressuposto de cada verdadeira renovação, ou melhor, apenas o impulso desesperado para fazer algo, para transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias?”.

O Papa Francisco também abordou este argumento. Na sua exortação apostólica Evangelii gaudium reafirmou que não se coloca em causa “o sacerdócio reservado aos homens, como sinal de Cristo esposo que se entrega na Eucaristia”, e pediu para não interpretar esta doutrina como uma expressão de poder, mas de serviço, de maneira que se perceba melhor a igual dignidade de homens e mulheres no único corpo de Cristo (n. 104). Na conferência de imprensa, durante o voo de regresso da viagem apostólica à Suécia, em 1 de novembro de 2016, o Papa Francisco reiterou: “Sobre a ordenação de mulheres na Igreja Católica, a última palavra clara foi dada por S. João Paulo II, e ela permanece”.

Neste tempo, em que a Igreja é chamada a responder aos muitos desafios da nossa cultura, é essencial que ela permaneça em Jesus, como os ramos na videira. Eis porque o mestre nos convida a fazer com que suas palavras permaneçam em nós: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor” (João, 15, 10). Somente a fidelidade às suas palavras, que não passarão, assegura o nosso enraizamento em Cristo e no seu amor. Somente o acolhimento do seu sábio desígnio, o qual toma  forma nos sacramentos, revigora as raízes da Igreja, para que possa produzir frutos da vida eterna.

[Tradução do original: Jornal da Madeira]