Logoterapia – A busca de sentido para a vida

Por João Carlos Teixeira de Freitas

Membro da Pastoral Diocesana da Saúde

 

Realizou-se em Fátima um encontro, organizado pela Associação Portuguesa de Capelanias, orientado pelo Bispo Auxiliar de Braga, D. Nuno Almeida, sobre Logoterapia. 

É minha intenção partilhar convosco este artigo – como membro da pastoral diocesana da saúde – pela sua riqueza humana e espiritual. 

O termo “logos” é uma palavra grega que significa “sentido” da vida, …busca de sentido da vida! A logoterapia é uma intervenção psicoterapêutica centrada no “…sentido da existência humana, bem como na busca da pessoa por esse sentido”, confronta o paciente com o sentido da sua vida, reorienta-o para o mesmo quebrando o autocentrismo, próprio das psicoterapias clássicas. É reconhecida hoje em dia como a “Terceira Escola Vienense de Psicoterapia”, depois de Freud e Adler. Tem como objetivos fundamentais: defender e promover a dignidade da vida humana em todas as etapas da existência, trata o ser humano como fim e não como meio, respeitando-o em tudo que lhe é próprio: corpo, espírito e liberdade; tendo presente as condições materiais e o contexto histórico, social, espiritual e cultural em que cada pessoa vive, respeitando os seus valores, a sua unicidade e os seus credos.  

Para os logoterapeutas, a vida humana, tem um sentido em quaisquer circunstâncias, mesmo nas mais miseráveis, uma vez que acreditam na capacidade humana de transformar criativamente os aspetos negativos da vida em algo positivo ou construtivo.

As feridas/ o sofrimento, fazem parte da nossa condição humana, “…não nos separam nem de Deus nem de nós próprios, nem dos outros”. Ao contrário, abrem em nós oportunidades, janelas que nos fazem descobrir verdadeiramente quem somos e a imagem originária e autêntica de Deus em nós. 

Uma das características da existência humana está na capacidade de se elevar acima dessas condições, de crescer para além destas. O ser humano é capaz de mudar o mundo para melhor e de mudar a si mesmo para melhor, se necessário. Pois todo o ser humano tem a liberdade de mudar em qualquer instante. Ele decide a sua existência. 

Esta construção/transformação toma forma através da logoterapia concebida pelo psiquiatra austríaco Víktor Franklin (sobrevivente de quatro campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial), que tem fundamentalmente a preocupação de levar a pessoa a encontrar um sentido para a sua vida ou seja para que o seu sofrimento tenha sentido. Como é obvio segundo o mesmo não é de modo algum necessário o sofrimento para encontrar este sentido mas pode ser um caminho! Pois o homem não tem só fome de pão, mas de sentido … sentido de vida! 

É através da logoterapia que Viktor Frankl, procurou ajudar as pessoas a tornarem-se responsáveis pela sua própria vida, pois a finalidade da vida, segundo Frankl, não é tanto procurar não sofrer, mas experimentar o sentido da vida.

Na sua obra “O Homem em Busca de Um Sentido“, com frequência afirma que a alegria é sinónimo de ânimo e vontade de viver”. O oposto da alegria é o pessimismo, o medo e a desistência. As pessoas alegres não são apenas, ou não são tanto, as que riem, mas as que conseguem encontrar um sentido para a sua vida, “…seja ela mais leve ou mais pesada, mais risonha ou mais árdua. A verdadeira alegria reside muito para além da boa disposição ou da vida correr às mil maravilhas.” 

Viktor Frankl, sobreviveu ao sofrimento dos campos de concentração graças à Providência Divina (como ele reconhece muitas vezes), graças à sorte, mas também pela capacidade de encontrar dentro de si a força interior que lhe permitiu elevar-se acima do seu destino, recordando as palavras de Nietzsche: “Aquele que tem uma razão para viver pode suportar quase tudo” encontrava, “apesar de tudo”, a alegria no amor e na esperança de reencontrar a sua mulher e o seu filho que crescia no seu seio. Estes motivos para viver permitiu-lhe aguentar a sua “via crucis”.

Para que a cura interior seja profunda é necessário tocar todas as dimensões do homem, incluindo a relação e a espiritualidade. A dimensão da globalidade (holística), uma aproximação que aponte para a unidade não só “dentro da pessoa”, mas também “entre as pessoas”, representa um pressuposto indispensável se se quer ajudar alguém a reconciliar-se.

São muito exigentes os percursos de reconciliação que os nossos tempos reclamam, procurando nunca omitir a sua dupla face: uma individual, perante as vidas perdidas que somente um caminho espiritual pode recompor e outra social, que passa por percursos de reconciliação nas diversas estruturas da sociedade.

A verdadeira reconciliação olha de frente os conflitos, procurando conhecer e transformar as suas causas. Não pode ser apresentada, por exemplo, como alternativa à libertação, pois a libertação é condição prévia para a reconciliação 

Não se deve confundir reconciliação cristã com a mediação de conflitos. Há pontos em comum, mas na reconciliação cristã é Deus que nos reconcilia. Não é somente técnica, competência ou habilidade; trata-se de uma força renovadora que deve ser pedida, procurada de descoberta: o poder da graça de Deus irrompendo na própria vida.

A reconciliação de é um caminho da busca de um sentido, pois a luz do sentido ilumina o passado, reinterpreta o presente e abre o caminho do futuro. O sofrimento de certo modo deixa de ser sofrimento o instante em que se encontra um sentido da vida e este pode ser descoberto de três formas: criando um trabalho ou praticando um ato; experimentando algo ou encontrando alguém e por último e não menos importante pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento.

Urge deste modo um o diálogo interdisciplinar (respeitador e cooperante) entre espiritualidade e psicoterapia, teologia e psicologia, isto é, os conselheiros espirituais devem recorrer aos psicoterapeutas, quando o nível de análise e de compreensão do problema exceder o seu âmbito e possa ser obstáculo à caminhada espiritual; e os psicoterapeutas deverão ser sensíveis à dimensão do espiritual, quando esta interfere nas dimensões psicológicas e emocionais, evitando, prestar um pernicioso serviço à pessoa, reduzindo a realidade do humano às dimensões meramente psicológicas da consciência imanente. 

O diálogo entre teologia e psicologia pode contribuir para uma maior atenção sobre os efeitos cognitivos, emotivos e comportamentais da fé cristã nas pessoas concretas, bem como as mudanças que produz na personalidade.