Santa Bakhita. Uma história muito próxima a nós

Leitura da Exortação Apostólica "Gaudete et Exsultate" do Papa Francisco pela escritora francesa Véronique Olmi

D.R.

L’Osservatore Romano (13.04.2018)

Marie-Lucile Kubacki

Na sua exortação apostólica sobre a santidade, o Papa Francisco dedicou algumas linhas a Josefina Bakhita, a ex-escrava que se tornou religiosa, canonizada em 2000 por João Paulo II. A escritora Véronique Olmi alguns meses atrás dedicou-lhe um romance poderoso (publicado por Albin Michel), finalista dos prémios Goncourt e Fémina. Em “La Vie”, Olmi conta sua reação às palavras do papa.

“Não tenhas medo da santidade. Não te tirará forças, nem vida nem alegria. Muito pelo contrário, porque chegarás a ser o que o Pai pensou quando te criou e serás fiel ao teu próprio ser. Depender d’Ele liberta-nos das escravidões e leva-nos a reconhecer a nossa dignidade” (Papa Francisco,  Gaudete et Exsultate, nº 32)

Aquilo que acho muito belo nas palavras do papa sobre Bakhita é que nunca usa o termo sacrifício. Fala de alegria e força. E não fala de escravidão no singular, mas no plural. As escravidões. Agora, se a história de Bakhita nos toca, é porque é a história de uma libertação interior. Existem outras fronteiras além da prisão. Nós obedecemos a ordens diferentes que não aquelas de mestres proclamados. Respondemos incessantemente às imposições culturais e sociais, que criam determinismos mesmo sem termos plena consciência deles. 

A história de Bakhita não é  aquela, distante, de uma africana, mas uma história muito próxima que nos coloca em questão nas imposições às quais respondemos todos os dias: o discurso comum em que nos fundimos, o pequeno espaço de liberdade que damos para afirmar diferentes… Diferente, só Deus sabe se Bakhita foi, em todas as etapas do seu percurso, incessantemente!

A dignidade de Bakhita é de passar da condição de escrava, de objeto, para filha, filha de Deus e, portanto, digna de ser amada. É um convite para sermos nós mesmos, pois é para nós mesmos que somos amados. 

No início, Bakhita tinha muito medo disso: Deus viu tudo, ele sabe tudo … Nesta grande vergonha das pessoas ofendidas, neste surgir da luz do amor de Deus, há uma espécie de oferta: aquilo que sou é amado. É isso que restitui a Bakhita a sua dignidade. Pode-se dizer que o cônsul italiano que a lava e veste lhe devolve a sua dignidade, mas a sua dignidade na fé vai muito além. 

É uma dignidade com uma proposta. Com a fé, tudo isso acontece através da alma, a alma livre. Portanto, a dignidade de Bakhita, que tinha este complexo de sobrevivente, de não ter salvado ninguém, a partir de então passa através do laço de ternura, cuidado e atenção pelos outros, pelos pequenos.

“Isto vê-se em Santa Josefina Bakhita, que, «escravizada e vendida como escrava com apenas sete anos de idade, sofreu muito nas mãos de patrões cruéis. Apesar disso compreendeu a verdade profunda que Deus, e não o homem, é o verdadeiro Patrão de todos os seres humanos, de cada vida humana. Esta experiência torna-se fonte de grande sabedoria para esta humilde filha da África» (Papa Francisco,  Gaudete et Exsultate, nº 32)

Estas poucas linhas são Bakhita. A santidade, para mim, é a proposta de uma presença no mundo. Para Bakhita isto acontece através de crianças órfãs. É uma presença que extrai a sua força do vínculo com Deus, na oração e na confiança em Deus. Quando o papa fala de patrão, não se trata de um patrão ao qual alguém se submete, mas um patrão ao qual alguém se oferece. É uma aventura mística e humana. 

Quando Bakhita fala do patrão, é no sentido de uma aceitação que induz uma obediência que é mais uma doação profunda e vital do que uma submissão.

“Não tenhas medo da santidade”

Leio este apelo como um convite para a aventura. Esta aceitação de Deus é a aceitação de algo mais alto que si mesmo, que nos revela mais elevados que nós mesmos, como nunca pensávamos ser. Através da bondade, amor incondicional. Não é algo esclarecido. É fazer tender a complexidade humana até à divindade. É o convite para uma aventura espiritual que pode ser muito assustadora porque é absoluta, sem partilha, sem concessões, sem meias medidas. 

O que mais me incomodou no percurso de Bakhita é que não passou do inferno da escravidão à graça de um dia para o outro. Ela não teve uma revelação repentina. Passou através mil tormentos. O meu lugar é aqui? Posso ser batizada? Posso receber ordens?

Somos movidos por medos que não nos deixam viver o momento presente. Antecipamos com medo os atos que devemos realizar ou os encontros que devemos fazer. 

O que o Papa nos propõe é o oposto. É o ensinamento da presença no tempo. Diríamos que esta frase “não tenhas medo da santidade”, é dirigida a ela. É muito terno! Essa ternura conta algo do Papa, do papá, do pai … que tranquiliza e propõe. Que aceita e que sabe.

“Cada cristão, quanto mais se santifica, tanto mais fecundo se torna para o mundo”

A fecundidade de Bakhita estava na sua presença no mundo. Tentando me aproximar dela, percebi que sua sobrevivência física e, portanto, espiritual, passava por aquela presença no mundo que a tornava capaz de ver a beleza em todos os lugares, sempre. É a beleza que a salvou, porque a beleza é a ligação com o mundo antes de ser para ela a ligação com Deus

Isso vai de par e passo com a gratidão. Todos os dias devemos ser capazes de agradecer por algo. Ou alguém. Ainda que seja muito pouco. Mesmo que o dia tenha sido difícil ou dramático. Por ter tido a força para vivê-lo. Não é uma questão de encontrar gratidão externa a si mesmo, mas de um olhar colocado no mundo. 

Desde que passei tempo com Bakhita, tento dar menos julgamentos imediatos sobre o que me rodeia. Temos sempre este reflexo de defesa arcaico, de nos protegermos contra o perigo e, portanto, de classificar os seres que nos rodeiam. Parece-me que, às vezes, este reflexo arcaico o levamos longe demais e nos entrava. Assim que superamos a intuição do perigo, devemos aprender a ser mais maravilhados daquilo que os outros nos propõem. Mais maravilhados e mais curiosos. Devemos aprender a ter vontade de sermos surpreendidos e desestabilizados … Bakhita desestabilizava muito. É esta, Bakhita: uma pessoa que, em virtude de nunca estar onde deveria estar, impõe uma diferença luminosa.