O trabalho (quase) gratuito das freiras

Foto: REUTERS/Max Rossi

por Marie-Lucile Kuback

Osservatore Romano | Donne Chiesa Mondo | 01 de março de 2018

A Irmã Maria – os nomes das freiras são fictícios – chegou a Roma da África negra há cerca de vinte anos. Desde então, ela acolhe religiosas provenientes de todo o mundo e há pouco tempo decidiu testemunhar o que vê e ouve sob sigilo. “Muitas vezes eu recebo freiras em situações de serviço doméstico claramente pouco reconhecido. Algumas delas servem nas casas de bispos ou cardeais, outras trabalham na cozinha em estruturas da Igreja ou desempenham tarefas de catequese e ensino. Algumas delas, empregadas ao serviço de homens de Igreja, levantam-se ao amanhecer para preparar o pequeno almoço e vão dormir depois que o jantar foi servido, a casa arrumada, a roupa lavada e engomada … Neste tipo de “serviço”, as freiras não têm um horário definido e regulamentado, como os leigos, e sua retribuição é aleatória, muitas vezes muito modesta “.

Mas, a entristecer ainda mais a Irmã Maria é que essas freiras raramente são convidadas a se sentarem à mesa que servem. Então pergunta: “Um clérigo pensa em ser servido de uma refeição pela sua irmã e depois deixa-a comer sozinha na cozinha, depois que foi servido? É normal para um consagrado ser servido deste modo por outra consagrada? E sabendo que as pessoas consagradas destinadas ao trabalho doméstico são quase sempre mulheres, religiosas? A nossa consagração não é a mesma que a deles?” Um jornalista romano que se ocupa da informação religiosa até apelidou de “freiras-pizza”, referindo-se precisamente ao trabalho que lhes foi atribuído.

Continua a Irmã Marie: “Tudo isso desperta em algumas delas uma rebelião interior muito forte. Experimentam uma profunda frustração, mas têm medo de falar porque, por trás de tudo, podem haver histórias muito complexas. No caso de freiras estrangeiras vindas da África, da Ásia e da América Latina, às vezes existe uma mãe doente cujo tratamento foi pago pela congregação da filha religiosa, um irmão mais velho que pôde realizar os seus estudos na Europa graças à superiora … Se uma dessas religiosas regressa ao seu país, a sua família não entende. Diz-lhe: “como és caprichosa”! Estas irmãs sentem-se em dívida, presas, e por isso calam-se. Para além disso, com frequência são provenientes de famílias muito pobres, onde os próprios pais eram domésticos. Algumas dizem que são felizes, não veem o problema, mas ainda assim sentem uma forte tensão interior. Tais mecanismos não são saudáveis ​​e certas irmãs chegam, em alguns casos, a tomar ansiolíticos para suportar esta situação de frustração”.

É difícil avaliar a extensão do problema do trabalho gratuito ou pouco remunerado e, no entanto, pouco reconhecido das religiosas. Antes de mais é necessário definir o que se entende com isso. “Muitas vezes, significa que as irmãs não têm um contrato ou um acordo com os bispos ou as paróquias nas quais trabalham”, explica a Irmã Paula, uma religiosa com cargos importantes na Igreja. Assim, são pouco ou nada pagas. Assim acontece nas escolas ou nas clínicas, e mais frequentemente no trabalho pastoral ou quando se ocupam da cozinha e das tarefas domésticas na casa episcopal ou na paróquia. É uma injustiça que se verifica também em Itália, não apenas em terras longínquas”.

Para além das questões do reconhecimento pessoal e profissional, esta situação coloca problemas concretos e urgentes para as irmãs e as comunidades. “O maior problema é simplesmente como viver e fazer viver uma comunidade”, diz a Irmã Paula. “Como prover os fundos necessários para a formação religiosa e profissional dos seus membros, quem paga e como pagar as contas quando as irmãs estão doentes ou precisam de tratamento porque ficaram inválidas por idade. Como encontrar recursos para desenvolver a missão segundo o próprio carisma».

A responsabilidade por esta situação não é apenas masculina, mas muitas vezes é compartilhada. “Falei com um reitor universitário que me contou ter ficado comovido com as capacidades intelectuais de uma freira que tinha licenciatura em teologia”, lembra a Irmã Maria. “Ele queria que ela continuasse os seus estudos, mas a sua superiora se opôs. Muitas vezes, o motivo adotado é que as freiras não devem ser orgulhosas”. A Irmã Paula insiste neste ponto: “Creio que a responsabilidade seja acima de tudo histórica. Por muito tempo a freira viveu apenas somente como membro de uma coletividade, sem ter necessidades próprias. Como se a congregação pudesse cuidar de todos os seus membros sem que cada um realizasse o seu contributo através do próprio trabalho. Por outro lado é difusa a ideia que as religiosas não trabalham por contrato, que estão ali para sempre, que não são estipuladas condições. Tudo isso cria ambiguidade e, muitas vezes, grande injustiça. Também é verdade que, sem contrato, as religiosas são mais livres para deixar um trabalho sem muito pré-aviso. Tudo isso joga em duas frentes, a favor e contra as religiosas”.

Mas não se trata apenas de dinheiro. A questão da responsabilidade económica é sobretudo a árvore que esconde a floresta de um problema muito maior: o do reconhecimento. Muitas religiosas têm a sensação que se faz muito para revalorizar as vocações masculinas, mas muito pouco para as femininas. “Por trás de tudo isso, infelizmente ainda existe a ideia de que a mulher vale menos do que o homem, sobretudo, que o padre é tudo enquanto a freira não é nada na Igreja. O clericalismo mata a Igreja “, afirma a Irmã Paula. “Conheci algumas freiras que serviram por trinta anos numa instituição da igreja e disseram-me que, quando estavam doentes, nenhum padre daqueles que serviram ia visitá-las. De um dia para o outro eram despedidas sem uma palavra. Às vezes, ainda isto acontece: uma congregação coloca uma freira à disposição a pedido e quando essa freira adoece é reenviada para a congregação … E manda-se outra, como se fossemos intercambiáveis. Conheci algumas freiras com um doutoramento em teologia que de um momento ao outro foram enviadas para cozinhar ou lavar pratos, uma missão privada de qualquer conexão com a sua formação intelectual e sem uma verdadeira explicação. Conheci uma freira que ensinou por muitos anos em Roma e de um dia a outro, aos cinquenta anos, foi-lhe dito que, a partir desse momento, a sua missão era a de abrir e fechar a igreja da paróquia, sem outra explicação”.

A Irmã Cecília, professora, por muitos anos faz a experiencia desta falta de consideração. Na sua opinião, as irmãs de vida ativa são vítimas de uma confusão sobre os conceitos de serviço e gratuidade. “Somos herdeiros de uma longa história, a de São Vicente de Paulo e de todas aquelas pessoas que fundaram congregações para os pobres num espírito de serviço e de dom. Somos religiosas para servir até ao extremo e é precisamente isto o que provoca uma derrapagem no subconsciente de muitas pessoas na Igreja, criando a convicção de que dar retribuição não se enquadra na ordem natural das coisas, seja qual for o serviço que oferecemos. As irmãs são vistas como voluntárias de que se pode dispor à vontade, o que dá lugar a verdadeiros e próprios abusos de poder. Atrás de tudo isso, há a questão do profissionalismo e da competência que muitas pessoas têm dificuldade em reconhecer ás religiosas”.

A Irmã Cecília acrescenta: “Neste momento trabalho num centro sem contrato, contrariamente às minhas irmãs seculares. Há dez anos, como parte da minha colaboração com os meios de comunicação perguntaram-me se eu realmente queria ser paga. Uma das minhas irmãs anima os cânticos na paróquia ao lado e dá conferências de quaresma sem receber um cêntimo… Enquanto quando um padre vem para nos dizer a missa, pede-nos 15 euros. Às vezes, as pessoas criticam as religiosas, o seu rosto fechado, o seu caráter… Mas, por trás de tudo isso, há muitas feridas”.

Para a Irmã Maria, trata-se de violência simbólica: “É aceite por todos sob a forma de consentimento tácito. Algumas freiras que vêm até mim estão angustiadas, mas não conseguem falar. Então digo-lhes: “Tendes o direito de dizer a verdade sobre aquilo que sentis. De dizer á vossa superiora geral o que estais a viver e como o viveis”. Às vezes, a superiora geral também é responsável por esta situação que longe de colocar em discussão o sistema, o valida e nele participa ativamente aceitando acordos degradantes para as irmãs”.

A Irmã Cecília considera também que as religiosas devem tomar a palavra: “Da minha parte, quando sou convidada para dar uma conferência, não hesito mais em dizer que desejo ser paga e qual a compensação que espero. Mas, é claro, em adequação à disponibilidade daqueles que me pedem. As minhas irmãs e eu vivemos muito pobremente e não desejamos riquezas, mas apenas em viver em condições dignas e justas. É uma questão de sobrevivência para as nossas comunidades”.

O reconhecimento de seu trabalho também constitui, para muitos, um desafio espiritual. “Jesus veio para libertar e aos seus olhos somos todos filhos de Deus”, precisa a Irmã Maria. “Mas, na sua vida concreta, certas freiras não vivem isso e sentem uma grande confusão e um profundo desconforto”. Finalmente, alguns religiosos consideram que as suas experiências de pobreza e submissão, às vezes sofridas e às vezes escolhidas, poderiam transformar-se numa riqueza para toda a Igreja, se as hierarquias masculinas as considerassem uma oportunidade para uma verdadeira reflexão sobre o poder.