Pe. Eduardo Novo: juventude tem um potencial que a Igreja não pode desperdiçar

Chama-se Eduardo Novo, tem 38 anos, e é sacerdote dos Padres  Marianos da Imaculada Conceição (MIC) há 10 anos. Foi o orador  convidado das Jornadas de Atualização do Clero e de Atualização dos Consagrados e Leigos 2018, organizadas pela Diocese do Funchal.

Durante os dias em que esteve na Madeira deixou pistas sobre o tema  proposto para reflexão este ano – Ouvir, compreender e ajudar os jovens no tempo atual – e mostrou alguns dos “troncos” que a igreja tem de afastar, se quiser realmente ser jovem com os jovens. Em entrevista ao Jornal da Madeira disse que a “juventude tem um potencial que a Igreja não pode desperdiçar”, que “tem de haver de facto este novo Pentecostes” e que temos de mostrar aos jovens que “o importante não é ser perfeito, mas ser inteiro”.

Jornal da Madeira – O Pe. Eduardo defende, e insiste nisso muitas vezes, que é preciso dar vez, voz e valor aos jovens, o que é que quer dizer concretamente?

Pe. Eduardo Novo – São os três “Vs” que são fundamentais na nossa vida. Os três “Vs” que demonstram que a Igreja caminha com os jovens e que a Igreja é esta juventude no mundo, esta voz de esperança. E sempre que a Igreja, ao caminhar com os jovens e cada vez que lhes der  valor, voz e vez, nós estaremos a crescer, neste crescer íntegro. E  por isso a Igreja quer sempre este caminhar, e ser feliz neste serviço aos jovens. Indubitavelmente, estes três “Vs”  são fruto daquilo que o  documento preparatório para o Sínodo nos apresenta: o processo de  escuta, o processo de acompanhamento de discernimento e concretamente, e ainda mais, a pedagogia do Evangelho, que é a pedagogia de Emaús: caminhar com. Quando Jesus se pôs a caminhar com os dois discípulos, não refilou com eles, não lhes pediu nada de extraordinário, apenas os  escutou e caminhou. Este é o dinamismo da nossa fé. Esta é a forma autêntica de nos sentirmos revestido por Deus, para que esta voz dos jovens seja uma voz da realidade. Seja uma voz de esperança para o  mundo. Um mundo novo.

Jornal da Madeira – Na abertura das Jornadas do Clero, o bispo do  Funchal, D. António Carrilho, defendia que era preciso os jovens  continuarem a descobrir Cristo depois do Crisma. O Pe. Eduardo também defende que é preciso vencer o hiato que existe entre a Catequese e a  Pastoral Juvenil. Como é que em seu entender isso pode ser feito?

Pe. Eduardo Novo – O que é importante é ajudarmos, de facto, os jovens a crescerem e a adquirirem a maturidade da fé. É importante percebermos, e sabermos transmitir depois aos jovens, que o futuro  está nas mãos de quem souber procurar e encontrar razões fortes de  vida e de esperança. Encontrarmos um sentido para a vida. A fé é a ponte, como que esta janela aberta, que nos faz caminhar, ir mais  longe e que nos capacita para sairmos de nós e para nos darmos de  conta de que, de facto, os dons e as riquezas que temos, no desenvolvimento daquilo que somos e para o colocarmos na transformação  do mundo.

Fé não vive separada. A fé é a conjugação da vida: nisto que somos e naquilo que temos. E ao transmitirmos isto aos jovens, estamos a  ajudá-los a compreender que, de facto, toda a nossa vida tem uma resposta e que essa resposta é dada por cada um, que não fica no abstrato, mas os ajuda a um compromisso. E esse compromisso é pessoal, mas também comunitário, porque ao mesmo tempo a fé depois deixa de ser um ato isolado, para ser um ato comunitário. E se o desenvolvimento é o envolvimento de todos, então sentimo-nos todos a crescer e a caminhar. Nos diferentes ritmos, nas diferentes velocidades que cada um tem, mas nesta experiência de encontro com Ele. E este encontro com Ele é um encontro na intimidade de nós mesmos, que nos ajuda a  compreender, de facto, a nossa vida. Quando temos dores, quando temos sofrimentos, quando temos angústias, quando temos um exame, quando temos dificuldades de relacionamento com o namorado ou a namorada, quando temos problemas na escola, de relacionamento com os pais. É essa fé, que se transmite, que nos permite encontrar as respostas para estas questões e para conseguir essa alegria plena de transformação e de encontro connosco e com os outros. Esse é um caminho para se chegar à maturidade. Eu acredito nisso. E acredito nessa maturidade que ajuda não apenas os jovens a serem protagonistas desta mudança e desta transformação, mas também porque cada um de nós reconhece neles esta força, que nos impele a nós próprios a sair e nos ajuda até a irmos mais longe.

O caminho é de integrar com responsabilidade. E esta integração leva a caminhar com a força de não se conformar, mas de se transformar. A si mesmo, na relação com os outros e na relação com Deus. E a vida acontece.

Jornal da Madeira – Numa das suas intervenções comparou os jovens a um telemóvel. Disse que eles têm um grande potencial, mas que sem rede, não funcionam. Disse que essa rede, somos todos nós e disse também que a Igreja não pode desperdiçar esse potencial…

Pe. Eduardo Novo – Sem dúvida. Essa rede é a força da transmissão, a força da partilha, a força do testemunho. Ao sermos nós, os mais velhos digamos assim, a ser esse sinal, a ser essa rede sentimo-nos os mensageiros e os portadores de boas notícias. E hoje o mundo precisa de boas notícias. As boas notícias que nos ajudam a aumentar em nós a confiança, mas que também nos ajudam a aprofundar uma identidade cristã e ao mesmo tempo é a transformação até da cultura, porque à medida que nós nos envolvemos transformamos a cultura. Esta identidade cristã fortalece-nos também na força do diálogo, na força da solidariedade, na força da fraternidade deste diálogo até Ecuménico, como estamos também na Semana do Ecumenismo. E vemos que vamos criando laços de escuta e de soluções encontradas em todas as questões. Como o Papa referencia: “Ide sem medo, para servir”. Este “ir sem medo, para servir” na certeza de que há esperança no futuro. E se nós conseguirmos construir, neste diálogo inter-geracional, a transmissão destes valores, a transmissão não apenas de usos e de costumes, mas que a fé seja este veículo que aproxima, que une, então veremos que, de facto, a Paz é possível e esta juventude é comunhão, é união, é fraternidade, é luz para a vida.

Jornal da Madeira – Outro dos caminhos que defende é a necessidade de criar aquilo a que chama uma linha condutora para a Pastoral Juvenil no país. Isto significa exatamente o quê, que não estamos todos a caminhar no mesmo sentido? Que troncos, usando a sua metáfora, é que a Igreja tem de afastar do caminho para conseguir chegar aos jovens e para os integrar?

Pe. Eduardo Novo – Integrar, exatamente… Eu, se calhar, até iria mesmo com esse grande princípio: é preciso tocar, para ser tocado. E se nós tocarmos a realidade dos jovens, se nós os compreendermos, se nós os amarmos e eles sentirem que são amados, este trocar transformá-los-á. E simultaneamente a linguagem muda e a nossa compreensão também. Podemos até não aceitar a forma, os comportamentos que possam ter. Mas se os amarmos como eles são, eles mesmos vão descobrir esta forma de se caminhar, de se partilhar. E isso ajuda-nos a compreender que é preciso acreditar neles. E nós acreditamos neles. E esta força de acreditar com sensibilidade. Esta sensibilidade dos adultos que nos traz como prioridade esta missão de caminhar, de desenvolver de fortalecer. Um fortalecimento nas diversas expressões, que demonstram esta unidade na construção do mundo. Penso que aqui é o próprio bem comum que se alicerça e se constrói. E constrói-se na medida em que, de facto, há um relacionamento desta integração, que demonstra que por mais dificuldades que tenhamos há sempre um caminho que Deus nos aponta. E este caminho, de sermos os facilitadores do mundo de Deus, mostra-nos também que para o podemos dar, temos que ser humildes, sensíveis e sermos atentos. Esta questão da atenção, gera sempre sensibilidade, porque nós podemos passar a nossa vida num ritmo alucinante, sem nos darmos conta da essência da vida. E nós passamos bastante tempo da nossa educação, concretamente os pais e os educadores, de facto a ajudar as crianças e os jovens a fazerem uma boa gestão do seu dinheiro, etc., mas se calhar não damos a mesma atenção e a mesma sensibilidade naquilo que é a partilha, aquilo que é a questão económica e financeira como um dom. Se calhar dizemos mais vezes tens de fazer isto ou tens de fazer aquilo, do que valorizamos aquele tempo em que estamos com eles naquele espaço de silêncio e de contemplação, mas também de conversa.

A educação tem de ser integrada, tem de ser algo que nos ajude a sermos cada vez mais, revestidos desta dignidade de pessoas. Não sermos apenas números e objetos, de um lado para o outro, mas uma educação que nos faça sentir que queremos crescer, que nos queremos compreender, aceitar e relacionar uns com os outros. Não podemos deixar que nos roubem a esperança.

Jornal da Madeira – Nessa correria dos dias a tendência é para desvalorizar o que os jovens fazem, desvalorizando até eles próprios?

Pe. Eduardo Novo – Os jovens ajudam-nos a vencer o superficial e o vazio. A questão é que quando um jovem vive no vazio, muitas vezes é porque não lhe foi transmitida esta sede de realização. E depois há, de facto, a questão da valorização. É valorizando pequenas coisas que chegamos aos grandes feitos. Daí que a importância do encontro e do conhecimento seja fundamental, mas também a ideia da pertença e da identidade: quem é que eu sou. Escutamos e lemos tantas vezes, no livro de Fernando Pessoa a mensagem: aqui ao leme não sou só eu. Sou eu e um povo. É a importância de nos sentirmos, de facto, um povo. De que com o meu contributo eu acrescento valor. E ao mesmo tempo depois vermos que o trabalho não tem apenas a mera função de me levar a ganhar dinheiro, a escola não tem a mera função de me leva a adquirir conhecimento, mas é um espaço de convívio, é um espaço de relação. Se eu pensar, como diz o provérbio chinês, que se limpar a entrada da minha casa o mundo ficará limpo, passo a passo as coisas vão acontecendo. O importante é não termos uma linha de pensamento igual, os mesmos objetivos, e termos abertura. Uma abertura que passa pela linguagem, pela comunicação e na transmissão. A tal vontade de mudança de futuro, que é a mudança de coração. De termos um coração com bondade, que nos leva ao compromisso de verificarmos que cada um de nós é este rosto que mostramos. E que este rosto é o rosto da beleza. O Papa desafiava-nos: fazei das vossas vidas lugares de beleza… E a nossa vida é, de facto, esse hino de glória, que nos leva a ir mais longe. Por isso é importante conhecermos também a Luz. E conhecermos também que Deus nos renova e que tem de haver, de facto, este novo Pentecostes, em que o Espírito desce sobre nós, e nós o acolhemos e nos deixamos renovar. É neste contexto que vamos construindo a nossa vida.

Jornal da Madeira – Chegamos assim ao Sínodo que está a ser preparado…

Pe. Eduardo Novo – É verdade. E o Sínodo é esta forma de perguntar onde é que a Igreja está, de que forma é que estamos, e de que forma é que queremos ser este sinal de alegria e de Paz na sociedade e no mundo. E que qualidade é esta que nós queremos dar. E se os cristãos são homens e mulheres de fermento. Se se sentem fermento a transformar e a mudar o mundo. Porque, se nós nos capacitarmos disso mesmo, a vida transforma-se e vamos ver que as pequenas dificuldades que vamos tendo nós vamos vencendo, apoiando nos uns aos outros e uns nos outros. É por isso que é fundamental, todo este trabalho que estamos a fazer, e o próprio Sínodo em si. E é vermos que a sensibilidade para com a juventude é fundamental, mas que não se esgota aqui.

Que o papel  fundamental da Igreja é ser esta casa de comunhão, que afasta de nós os cansaços, os desânimos e até as tristezas e que as transforma.

E isso só é possível quando nós somos, de facto, capazes de olhar, aceitarmos a nossa vida, a nossa história e nos projetarmos com esta vontade de mudança. E sermos capazes de ver melhor o bem que o mal e darmos mais valor ao bem, ao belo, ao justo, à verdade. É esta nova inculturação. O importante não é ser perfeito, mas ser inteiro.