O santo que fazia gelados

A comovente história de um jovem que sonhava ser padre

AIS

Por Paulo Aido | Fundação AIS

Nasceu nos Camarões numa família muito pobre. Aos cinco anos já sonhava ser missionário. Ainda criança, fazia gelados de limão para ajudar os pais a sobreviver. Morreu a poucos dias de ser ordenado padre, numa cama de hospital, com o corpo corroído com tumores. Começou logo aí a sua fama de santidade…

“É um santo!” O médico, quando viu o estado em que se encontrava Jean-Thierry, já amputado de uma perna e com o cancro a avançar a um ritmo alarmante, não teve dúvidas em afirmar que estava perante alguém excepcional. “Um santo.” Jean-Thierry nunca se queixava das dores lancinantes que sentia. Não se queixava de ter perdido a perna, não se queixava de nada. Sempre com um sorriso, só queria curar-se para poder ser ordenado sacerdote. Era um sonho antigo, tão antigo como as memórias mais longínquas que conseguia recuperar. Ainda criança, Jean-Thierry deslumbrou-se com os missionários que passavam pela sua aldeia e sonhou ser como eles. Jean-Thierry Ebogo nasceu a 4 de Fevereiro de 1982 em Bamenda, nos Camarões, no seio de uma família cristã muito pobre. Desde cedo sobressaltou-se com a necessidade de ajudar os pais no desafio da sobrevivência do dia-a-dia. Que poderia ele fazer? Pouco. Afinal era apenas uma criança. Apesar disso, juntava limões, que havia por ali e fazia gelados que depois ia vender para a rua. Nos dias de Verão, quando o pó se misturava com o calor, os gelados de Jean-Thierry faziam sucesso. Simpático, sempre disponível, amigo dos seus amigos, Jean-Thierry tornou-se popular em Bamenda. Todos gostavam dele. Todos disputavam a sua amizade. Até as raparigas. Ele, porém, tinha apenas um propósito: ajudar os seus pais e tornar-se sacerdote, imitar Jesus em todos os instantes da sua vida.

Tumor maligno

Aos 21 anos, decidiu que era chegado o tempo de seguir a vida religiosa. Ingressou no convento dos Carmelitas Descalços de Nkoabang. Um ano depois, foi admitido no noviciado. Passou a ser Jean-Thierry do Menino Jesus e da Paixão de Cristo. Ele não sabia, nem poderia imaginar, mas estava prestes a viver um calvário tremendo. Poucas semanas depois de ser admitido no noviciado, foi-lhe detectado um tumor maligno na perna direita. Os médicos mostraram-se impotentes perante a violência do tumor. Para salvar Jean-Thierry foi necessário amputar-lhe a perna. Mas nem isso estancou a doença. Era necessário fazer algo mais e decidiram então enviar o jovem carmelita para Itália. Foi em 2005. Quando o viu, pela primeira vez, o médico não teve dúvidas de que estava perante alguém excepcional. Aquele jovem, com o corpo cheio de metástases e que nunca abandonava o sorriso no rosto, que só pedia que o curassem para ser ordenado sacerdote, não era uma pessoa vulgar. Só queria ser ordenado sacerdote para imitar melhor a vida de Jesus. Graças a uma dispensa, fez os votos perpétuos em 8 de Dezembro de 2005, na festa da Imaculada Conceição, na presença da mãe, que viajou propositadamente desde os Camarões para assistir àquele momento tão importante na vida do filho. Ambos sabiam que seria provavelmente, muito provavelmente, a última vez que estariam juntos. A mãe não podia ficar mais tempo pois o visto de permanência estava prestes a caducar. Quando se despediram, Jean-Thierry agradeceu-lhe o dom da vida. “Mamã: lembra-te de que me ofereceste a Deus quando nasci…” Dias depois, morreu. As suas últimas palavras foram: “Que belo é Jesus!” Nunca chegou a ser ordenado sacerdote mas a sua missão ainda não terminou. A forma como assumiu todas as dores da doença e a vontade férrea de se entregar a Deus emprestaram-lhe uma fama de santidade que não tem parado de crescer. O seu processo de beatificação foi finalizado, a nível diocesano, em 2014. Desde então, ele é um “Servo de Deus”. Na verdade, ele foi sempre um servo de Deus. Mesmo quando vendia gelados. Mesmo quando apenas sorria aos outros…

AIS