Iraque: Campanha Regresso dos Cristãos à Planície de Nínive

Gente como nós

Procissão dos Cristãos em Qaraqosh que regressam às suas casas © AIS

Por Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt

Chamam-se Marven, Warda, Youssif, Suleiman… Foram eles, mas poderíamos ser nós. De um dia para o outro, perderam tudo o que tinham, foram obrigados a fugir perante o holocausto provocado pelos jihadistas. Agora, quando o regresso a casa começa a ser possível, continuam a precisar de ajuda. Há três anos, ninguém os socorreu. E agora? Os Cristãos iraquianos vão ser ignorados outra vez?

“De Julho a Agosto de 2014, 120 mil cristãos foram forçados a abandonar Mossul e a Planície de Nínive. Foram para Erbil e Duhok.” Bashar Warda, Arcebispo Caldeu de Erbil, resume em apenas 24 palavras todo o drama vivido nesses dias em que os jihadistas ocuparam as terras bíblicas onde, desde há dois mil anos, há memória da presença cristã. Uma memória que se desvaneceu em semanas. Perante a violência e o fanatismo, os Cristãos não tiveram alternativa. Ou fugiam ou seriam presos, torturados e mortos. Marven Kamel tinha apenas 17 anos quando o holocausto jihadista atingiu a sua aldeia. A sua história mudou radicalmente naquelas horas. “Parecia inacreditável o que estava a acontecer e pensámos: isto vai passar.” Mas não passou. Foi como um caudal de um rio que transbordou das suas margens levando tudo à sua frente. Foi imparável. Raban Youssif é monge no Mosteiro de Mar Mattei. Ele também testemunhou esses dias de violência em que os cristãos foram obrigados a fugir sem que ninguém, sem que nenhum país acudisse. “Tudo começou no princípio de Junho de 2014, quando muitos ataques tornaram a situação em Mossul muito difícil. A 10 de Junho, o Daesh entrou em Mossul e ocupou a cidade. A 6 de Agosto, os jihadistas atacaram a Planície de Nínive.” Foram mais de 120 mil cristãos, como reconheceu Bashar Warda, o Arcebispo Caldeu de Erbil, que tiveram de fugir em pânico. Nenhum destes cristãos esquecerá o que se passou naquelas horas, naquela semanas e meses. “Quando as pessoas chegaram, eu estava na Igreja em Ankawa”, recorda Benhman Benoka, vigário-geral dos Católicos Sírios de Erbil. “As pessoas chegaram exaustas. Era uma situação muito difícil. E o que chamou a atenção foi que todos, no dia seguinte, queriam ir à Missa. Não havia espaço sequer para tantas pessoas.” De facto, a cidade de Ankawa é pequena e os refugiados que iam ficando onde era possível: em praças, nas bermas das ruas, em campos de futebol, em casas particulares, em igrejas. “Celebraram-se missas em todos os lugares”, recorda hoje o Vigário católico. Todos estes 120 mil cristãos fugiram por causa da sua fé. De um dia para o outro, de um instante para o outro, passaram de cidadãos normais que viviam no seu próprio país, a refugiados.

Cerimónia das “oliveiras” para 404 cristãos das casas reconstruídas em Qaraqosh © AIS

E agora, como vai ser?

Almass Suleiman nasceu em 1979, é casada e tem seis filhos. É uma dessas famílias que passou a estar de mãos estendidas, que depende, agora, apenas, da solidariedade internacional de organizações como a Fundação AIS. A noite da fuga continua presente como uma assombração. “À meia-noite ficámos sem electricidade. Diziam que o Daesh ia entrar em Karamlesh. Acordei os meus filhos que já estavam a dormir. Não trouxemos nada connosco, só os bilhetes de identidade, e fugimos.” Hoje, Suleiman vive da generosidade dos benfeitores da AIS. “A Igreja dá-nos tudo, paga-nos a renda… tudo.” Suleiman quer regressar a casa, voltar a ser dona da sua vida, do seu destino, mas isso não depende já de si. O regresso é um sonho que ultrapassa a sua vontade. Mas uma coisa Suleiman sabe bem. Tudo o que lhe aconteceu foi apenas por causa da sua fé em Cristo. “Foi tudo devido à nossa fé. Fugimos por causa da nossa fé e aceitamos agora a vontade de Deus. Na verdade, deixámos tudo por Deus.” Agora, quando o regresso a casa começa a ser possível, Suleiman continua a precisar de ajuda. Há três anos, ninguém socorreu a sua família. E agora? Os Cristãos iraquianos vão ser ignorados outra vez?