Comentário à Liturgia do XXXII Domingo do Tempo Comum

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D.R.

Por Con. Manuel Martins

Ao aproximar-nos do final do ano litúrgico, o Evangelho deste domingo apresenta-nos a parábola das dez virgens (cinco prudentes e cinco insensatas) para nos incentivar a uma vida de fé vigilante e comprometida. E por sua vez, o azeite das lamparinas de que fala o Evangelho é uma advertência para a necessidade de mantermos acesa a chama da fé e a fidelidade a Cristo e aos seus ensinamentos.

Este texto recorda-nos que a segunda vinda de Jesus decorrerá no culminar da história humana, porém enquanto esperamos a realização desse acontecimento, devemos viver de forma entusiasta e verdadeira a nossa fé na fidelidade a Jesus e comprometidos com a construção do Reino.

Para melhor entendermos o sentido da parábola, precisamos saber um pouco os costumes e rituais dos casamentos judaicos. As festas judaicas acontecem geralmente no ambiente familiar. Os casamentos iniciavam-se com a ida do noivo à casa dos pais da noiva para a levar para a sua própria casa. Antes porém, o noivo deve negociar com os pais da amada os presentes a dar à família. Daí o facto dele demorar e chegar atrasado. As negociações eram por vezes muito discutidas e prolongadas. Eis a razão porque era necessário ter azeite nas lamparinas e mais algum de reserva.

Conhecedor desta realidade, Jesus vai usá-la para falar de realidades mais profundas. Compara o casamento que é uma festa muita participada e alegre com o Reino de Deus.

Jesus ao contar esta parábola, tinha como primeiro objetivo, incentivar os israelitas a acolherem os seus ensinamentos a fim de não perderem a oportunidade de vir a participar no grande banquete do Reino.

Porém, esta parábola constitui também uma séria exortação a estar convenientemente preparado, ou seja, vigilante para acolher a vinda do Senhor que embora anunciada, decorrerá no momento menos esperado.

É evidente que o noivo da parábola é Jesus e as noivas são a igreja que esperam ansiosas a chegada do amado. Mas não é de todo surpreendente que metade das noivas (virgens) sejam descuidadas e não se tenham preparado para acolher o noivo. Estas noivas incautas, são todos aqueles e aquelas que embora fazendo parte da Igreja (batizados) vivem longe de Deus, dos seus ensinamentos e não praticam na vida os valores do Evangelho. Não estão vigilantes e trocaram os valores do Reino pelos valores do mundo.

A chegada do noivo, é Cristo que passa e vem reunir extremos. Tudo corre para Ele, tudo passa em sua busca.

Precisamos conhecer bem a fragilidade deste mundo para sentirmos em nós desejos de salvação. Na verdade, o homem, fazendo história, semeia para o grande dia, quando o Senhor vier encher os seus celeiros. Aí se completará a vitória de Cristo, iniciada na ressurreição e continuada em cada homem, membro do seu corpo.

Nesse encontro cairão máscaras e aparências e tudo voltará a ser chamado pelo seu nome, como no princípio da criação. Brilhará então aos olhos de todos a sabedoria escondida do projeto de Deus, de que nos fala a primeira leitura, e o homem reconhecerá que tudo o que acontecia era amor gratuito e incondicional de Deus para o homem oferecendo-lhe a felicidade e a vida. Ao homem resta estar atento, vigilante e disponível para acolher, em cada instante, a vida de Deus.

Nesse encontro feliz, as nuvens de dúvidas que envolvem os caminhos da nossa existência, transformar-se-ão em glória e esplendor.

Na liturgia deste domingo, somos convidados a uma atitude crítica perante o mundo que passa. Precisamos distinguir e ordenar os valores que nos transformam e levam ao encontro feliz com o noivo, Jesus Cristo. Então percebemos que não podemos “baixar a guarda” para não adormecer e o nosso compromisso com os valores do Reino não fique comprometido pela nossa fraqueza. É preciso renovar constantemente o nosso compromisso com Jesus e com a Igreja.