D. Rino Passigato: A Diocese do Funchal tem “missão de acolhimento” aos “turistas que vêm do mundo inteiro”

O Núncio Apostólico em Portugal esteve na Madeira, a convite de D. António Carrilho, para as comemorações dos 500 anos da Dedicação da Sé. Esta foi a terceira vez que o representante do Papa Francisco em Portugal visitou a ilha, sendo que as duas anteriores deslocações aconteceram por ocasião da abertura e do encerramento das comemorações dos 500 anos da Diocese, respetivamente.

A satisfação por este novo convite não poderia ser maior. Mas grande era também o sentido de missão. Ao Jornal da Madeira D. Rino Passigato falou daquela que crê ser, precisamente, uma das funções atuais da Diocese do Funchal: acolher os turistas que visitam a ilha, e dar-lhes testemunho da fé, não deixando que sejam apenas “presenças casuais”.

 Jornal da Madeira – Esta já é a terceira vez que vem à Madeira e sempre em ocasiões muito especiais para a Diocese do Funchal.

D. Rino Passigato – É um facto. Aliás vamos voltar a invocar aquilo que já celebramos, quando comemoramos os 500 anos da Instituição da Diocese. Nessa altura tive a honra de presidir ao início dessas celebrações e depois a honra de acompanhar, no encerramento, o cardeal Fernando Filoni, que é o Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos. Por aqui podemos ver já o motivo porque o mesmo foi convidado e escolhido pelo Santo Padre como seu enviado especial.

É que o Funchal nasce como uma Diocese especificamente para a Missão. Daqui irradiou a mensagem do Evangelho quase pelo mundo inteiro.

Todos os missionários que saíam de Portugal para ir acompanhando os navegadores e os descobridores, etc., para ir anunciar o Evangelho, passavam pelo Funchal porque esta foi durante muito a Diocese mais ampla do Mundo. Daqui saíram muitos missionários que a pouco a pouco deram origem a outras dioceses no mundo, na África, na Ásia e América do Sul, sobretudo no Brasil. Por esta razão o Funchal tornou-se a marca que identificava a natureza da Diocese do Funchal: era uma Igreja Missionária.

Jornal da Madeira – É um papel que deve voltar a assumir nos dias de hoje, esse de ser Diocese Missionária?

D. Rino Passigato – Claro que sim. E não somente no sentido de enviar missionários para o mundo inteiro, mas também no sentido de levar as pessoas a tomarem consciência de que ser cristão é ser missionário. É ser um enviado de Jesus Cristo. Jesus Cristo ressuscitado que envia os seus apóstolos para o mundo inteiro, mas também à nossa volta. Hoje em dia a missão é universal, mas começa sempre perto de nós. Então, cada cristão, cada católico – nós falamos em católicos, mas são basicamente cristãos, pessoas que foram batizadas como cristãos na Igreja Católica – temos esta missão de dar testemunho da nossa fé aos nossos vizinhos, às pessoas que encontramos, àqueles com quem trabalhamos, com quem estudamos, com quem brincamos, enfim, em todos os lugares por onde passa a nossa vida quotidiana. Em todos os momentos da vida, temos essa missão.

Jornal da Madeira – É uma missão muito grande essa de ser testemunho da fé, especialmente num mundo como o de hoje em que até as relações humanas estão muito mudadas.

D. Rino Passigato – Sim. É de facto uma missão muito grande, mas é também uma missão muito especial, afinal trata-se de anunciar a beleza e a alegria do Evangelho. É preciso que as pessoas entendam que dar a conhecer a Boa Nova é uma bênção grande e uma sorte e deve traduzir-se em alegria. O que não significa que se esqueçam os problemas e as dificuldades e as dores da vida. Jesus Cristo também passou por grandes sofrimentos. Mas o Seu dom é a alegria. O dom da Sua paz dá alegria ao coração.

Jornal da Madeira – Em suma, o que está a quer dizer é que não só a universalidade da Diocese do Funchal e a sua Missão de Evangelização foi importante no passado, como continua a sê-lo nos dias de hoje?

D. Rino Passigato – Exatamente, exatamente. É preciso continuar e até aprofundar esse trabalho.

No entanto, eu vejo essa universalidade da Diocese do Funchal no momento atual, numa missão mais para com os turistas que vêm do mundo inteiro. A Madeira – e o Porto Santo – é um microcosmo, porque vêm pessoas do mundo inteiro passar aqui dias de férias, descobrir a beleza da natureza destas ilhas, deste arquipélago.

Não devem ser apenas presenças casuais. Cada pessoa que chega à nossa casa é uma oportunidade para lhe anunciar, com testemunho, a beleza do Evangelho. Neste contexto, hoje em dia, a Diocese tem uma missão universal para com as pessoas que vêm cá. A missão de as acolher e de anunciar testemunhando.

Jornal da Madeira – Em relação aos 500 anos da Dedicação da Sé, edifício emblemático para os cristãos da ilha e também para aqueles que nos visitam que reflexão lhe merece?

D. Rino Passigato – Bem, os 500 anos da Dedicação da Sé sugerem-me uma reflexão sobre a importância e a centralidade do bispo da Diocese. Não há Igreja sem bispo: nulla ecclesia sine epíscopo. Porquê? Porque o Bispo é um sucessor dos apóstolos que por sua vez, não são sucessores de Jesus Cristo, mas os seus continuadores. São aqueles que tornam presente Jesus Cristo no meio do povo durante todo o tempo desde a Ascensão até ao seu retorno. Jesus Cristo assegura aos seus apóstolos que vai estar à direita do Pai, mas também ao destes, dos seus discípulos: “sempre estarei convosco, até ao fim do mundo”. E esta presença de Cristo nos apóstolos e nos seus sucessores que são os bispos é muito importante numa comunidade cristã. E aqui entra a Sé. A Sé que é o lugar onde o bispo celebra, onde o bispo prega a palavra de Deus, é mestre e onde também preside à caridade pela comunidade. Se o Papa é o presidente da caridade a nível universal, cada bispo representa a caridade na sua diocese, no seu território, com a sua gente. E este é o símbolo da Sé.

Daí a importância de se comemorarem estes 500 anos da Dedicação. Não é uma festa mundana. É aprofundar o valor, a importância da presença do bispo, que representa Jesus Cristo no meio da sua comunidade, dos seus fiéis sejam eles padres, leigos consagrados, consagradas. No fundo de todos os batizados.