Saúde mental: a escuta de si e do outro

D.R.

Recentemente, num centro comercial da nossa cidade, uma mulher faleceu após queda voluntária. Desconhecem-se os motivos que estiveram na origem de tal acontecimento, o que não nos impede de reflectir sobre o drama da perda do sentido da vida, que muitos experienciam.

As Jornadas de Saúde Mental e Psiquiatria, promovidas pela Casa de Saúde S. João de Deus do Funchal, nos dias 6 e 7 deste mês, para além da actualidade das temáticas, constituíram um forte apelo social para uma maior sensibilização em relação às pessoas afectadas por algum tipo de transtorno mental. A reflexão e a partilha de experiências junto dos que diariamente acompanham os doentes faz-nos olhar com mais profundidade para as múltiplas facetas da saúde mental. Não basta tratar: é preciso prevenir as doenças mentais. Com este intuito, torna-se importante o desenvolvimento de uma cultura de saúde mental, que ultrapassa as competências dos serviços de saúde e envolve todo o tecido social, inclusive a família e até a própria Igreja.

Numa sociedade individualista, com ritmos de vida alucinantes, quantas vezes nos passa despercebido os sinais de “alerta” que o outro transmite. O tempo que nos sobeja é escasso para “olhar e escutar” os que nos rodeiam, e inclusive, até para realizar uma introspecção a nós próprios. E quando, finalmente, os sinais de alerta passam a ser de tal maneira evidentes que se tornam impossíveis de ignorar, subvalorizamo-los, julgando que vão desaparecer com o tempo. No que toca a qualquer tipo de doença, inclusive a mental, um diagnóstico precoce realizado por especialistas é fundamental para que se possa iniciar o tratamento adequado, rumo à saúde e bem-estar.

Sabemos que o meio social, económico e cultural em que vivemos também tem o seu papel no desenvolvimento e manifestações da personalidade. Um ditado latino recorda-nos a ligação da saúde da mente e do corpo: “mens sana um corpore sano”. Um meio ambiente, qual corpo, entorpecido devido à falta de valores, vai necessariamente influenciar negativamente a saúde mental dos seus membros.

Como ajudar os que atravessam uma dor psicológica insuportável que conduz ao isolamento, à perda da auto-estima, ao desejo de fuga, e que faz perder a vontade de viver e a capacidade de sonhar? Como devolver a esperança, mostrar caminhos alternativos e um vislumbre positivo do futuro? As dúvidas são mais que as certezas, porém, qualquer que seja a resposta, é inquestionável o poder terapêutico da comunicação, do diálogo e da palavra. Neste domínio, a comunidade cristã pode, e deve, ter um papel (pro)activo.