Entrevista ao Pe. Rui de Jesus, diretor do Seminário de S. José (Lisboa)

Pe. Rui de Jesus, do Patriarcado de Lisboa

O Pe. Rui de Jesus foi nomeado recentemente para diretor do Seminário de S. José de Caparide em Lisboa, onde se encontram quatro seminaristas da Diocese do Funchal. A partir deste ano, este Seminário é dedicado exclusivamente ao tempo propedêutico. Na conversa que o Jornal da Madeira teve com o Pe. Rui ficou-se a saber mais sobre este seminário.

Jornal da Madeira – Falamos de um “ano propedêutico” para seminaristas, antes de entrarem na Universidade. Como entender este ano, quais os seus objetivos, em suma, que tempo é este?

P. Rui de Jesus – Este ano propedêutico surgiu como uma necessidade face ao que hoje se vive. O ambiente que existia há algumas décadas tem mudado muito rapidamente e o que vemos atualmente é que a identificação cultural-cristã de alguns anos atrás deixou de existir, e sentimos a necessidade de oferecer aos rapazes que pensam na vocação sacerdotal um ano ou refundação da iniciação cristã. Ou seja, o objetivo é renovar a vocação cristã, começar a estudar coisas acerca de Jesus, poder renovar o amor por Jesus, o amor pela Igreja e o amor pela Palavra de Deus. E para isto é necessário fazer uma certa paragem que permita não andar já gastar tempo e forças nos estudos académicos, antes mesmo do tempo de um certo enamoramento, ou seja, ter um tempo com e não estar a dizer o que acho já sobre o assunto.

É uma etapa para poder gastar tempo com o Senhor na oração, na comunidade, no silêncio, no recato, no conhecer-me também a mim próprio, no serviço comunitário; e após esta refundação, tomar uma decisão mais consciente.

Isto não é novo, na diocese de Lisboa já existe há 16 anos; mas, agora, sentimos necessidade de uma aposta mais profunda; todo o resto da formação passou para o Seminário dos Olivais; antes, em Caparide, existia o propedêutico, o 1.º e o 2º anos; este é o primeiro ano que Caparide tem em exclusivo o propedêutico; e o nosso desejo é que haja uma comunidade só neste ritmo, que possa a aprender a amar estes que foram escolhidos pelo Senhor e também possa acolher outros que chegam aqui de várias dioceses, até estrangeiras.

Jornal da Madeira – Quantos são os seminaristas atualmente?

P. Rui de Jesus – Este ano, estão 22 seminaristas: 8 são da diocese de Lisboa, 4 do Funchal, 2 de Aveiro, 1 de Portalegre- Castelo Branco, 4 de Santarém, 1 do Algarve, 1 de São Tomé e Príncipe e um da diocese de Trivandrum, Índia. São de diferentes dioceses, com experiências geográficas e de vida de cada um muito diversas.

Jornal da Madeira – As idades também são variadas?

P. Rui de Jesus – Sim, dos 18 aos 40 e tal anos. Há ainda múltiplas experiências eclesiais e formações diversas. Há quem tenha já passado por movimentos, por exemplo, e que precisam de vivenciar agora uma experiência comunitária.

Jornal da Madeira – No caso das vocações tardias, já com uma certa maturidade, há um grupo considerável?

P. Rui de Jesus – Não parece ser novidade, mas existem vários que estavam ou concluíram o 12.ano de escolaridade, alguns até já com estudos universitários, outros que já estavam a trabalhar, mas isto existe há muito tempo. Em Lisboa, temos tentado acompanhar os rapazes que se questionam desde cedo, ou mais tarde; entendemos que mais do que descobrir vocações, o importante é acompanhar.

Jornal da Madeira – Como se concretiza este espírito de família e de comunidade, cultivado neste ano propedêutico, no nosso tempo marcado por algum individualismo?

P. Rui de Jesus – Algumas coisas podem explicar um certo individualismo, a começar pelos meios de comunicação social que atualmente se tornaram também de muito fácil acesso individual, e isso faz com que o meu caminho não seja tão filtrado pela experiência comunitária . Por exemplo, o facto de eu ter acesso a notícias no “facebook”, em que o único intérprete sou eu, notícias que não passaram pela redação de um jornal, pelos meus pais, pelo meu catequista, professor, apenas passam por mim, explicam em parte esta questão . Quer dizer, o acesso é mais facilitado, mas tem perigos, porque eu vejo a notícia e sou o único intérprete, independentemente ou não de ter maturidade para interpretar bem essa informação, para absorver essas notícias. E isso tem muitas consequências, a vários níveis. Desde logo, a nível eclesial, porque há muitas notícias acerca da Igreja, de Jesus, muitas notícias espirituais, e muitas outras que até são contrárias e fazem mal, e muitas vezes o meu caminho espiritual fica marcado por isto.

Por outro lado, também é verdade, vamos notando o desejo dos jovens de terem experiência comunitária.

Aqui em Lisboa, vemos muitas atividades realizadas por jovens em conjunto, que parecem ser uma manifestação deste sede comunitária. Como se passa muito tempo como único intérprete da nossa vida, às tantas o coração pede outra coisa e algo mais comunitário. Penso que há vestígios das duas coisas.

Mas, no tocante à Igreja, é um aspeto que teremos de ter muito em conta, porque o meu diretor espiritual ou o meu prior, já não são os únicos que acompanham o meu caminho e posso cair na tentação de seguir outras referências, que não são presenciais, mas vivem ao meu lado e também influenciam o meu caminho. Parece-me que tem de haver uma insistência muito grande na comunidade e é isto o que o ano propedêutico quer fazer.

Jornal da Madeira – Como é o dia a dia, a vida programática no Seminário de Caparide?

P. Rui de Jesus – Como não temos aulas fora, a vida decorre no próprio Seminário, mas este ano temos um programa que respeita ou segue os tempos litúrgicos. Inspiramo-nos no rito da iniciação cristã e ao longo do ano, mais do que aulas, que também temos – história da Igreja, teoria musical e cultura cristã, temos módulos de acordo com os tempos litúrgicos. Por exemplo, neste início de ano temos módulos sobre iniciação bíblica, até ao Advento, que não é uma abordagem de forma intelectual, mas integra propostas de leituras que depois partilhamos, relacionadas com a vida. Ou seja, pretende-se que esta iniciação tenha uma componente existencial e não apenas uma componente de estudo. De seguida, teremos o tema dos mandamentos, os documentos da Igreja, outros temas de espiritualidade, o que implica viver em comunidade.

Jornal da Madeira – Como tem sido a sua caminhada de padre e esta etapa de acompanhamento vocacional?

P. Rui de Jesus – Sou padre há dez anos. Nos dois primeiros anos, estive ligado ao pré-seminário diocese, aqui em Lisboa, e à pastoral das vocações. Depois, estive oito anos no Seminário Menor. E, este ano, aceitei o desafio da formação dos seminaristas, em Caparide. É um desafio, nos meus anos de formação não pensava ficar mais tempo no Seminário, não era propriamente o que tinha pensado, mas também se há algo que tenho aprendido com o Senhor é que Ele não vai ao encontro do que estava à espera. Assim foi também com a minha vocação, não estava à espera de ser padre. E este ano propedêutico é uma novidade para mim, porque enquanto fui seminarista não havia propedêutico e, por isso, sinto-me também a caminhar com os rapazes, é uma descoberta de algo essencial que, não sendo totalmente novo, tem algumas coisas novas.

Jornal da Madeira – Há mais disponibilidade e abertura à novidade, há dez anos seria diferente.

P. Rui de Jesus – Sim, mas não deixarmos de ser um Seminário de boas tradições, ainda que nos moldes atuais haja novidades, por exemplo ao nível da iniciação cristã.

Jornal da Madeira – Outro aspeto visível é o “site” da vossa instituição estar ligado a uma plataforma digital mais global, em rede. Qual o interesse desta opção?

P. Rui de Jesus – De facto, isso acontece há quase de dois anos, ainda estamos a ajustarmo-nos, porque cada Seminário de Lisboa tinha o seu próprio “site”. Mas, o interesse é facilitar a vida às pessoas para encontrarem o que procurem, através do “site” mais atualizado, com a economia de recursos e alterações gráficas necessárias.

Jornal da Madeira – Como é que se estabelece a ligação dos seminaristas, além desta comunidade específica, com outras instituições e realidades à sua volta?

P. Rui de Jesus – Pensamos que aquilo que se oferece é mais a possibilidade de ver do que propriamente fazer. Ou seja, enquanto seminaristas, eles não vão ter nenhum compromisso anual com nenhuma instituição ou trabalho. Ao fim de semana, especialmente, podem acompanhar um dos párocos que aqui estão, uma paróquia ou movimento, mas mais nesta perspetiva de conhecer e de aprender a realidade do Povo de Deus, isto é muito importante. Senti essa realidade quando estava no Seminário Menor. Muitas vezes pode-se pensar que o seminarista é um especialista em oração e pede-se que dê o seu testemunho, e ainda bem, mas é preciso reconhecer que eles ainda estão a dar os primeiros passos, ainda há que amadurecer.

Daí que este ano propedêutico seja mais do que um ano de atividades, porque é preciso conhecer a Igreja, deixar que a Igreja conduza a minha vida. E para que eu a veja assim e a viva como tal, tendo-a como principal intérprete, é preciso que eu a conheça e a ame.