Redes digitais: novos desafios à Evangelização

Este ano, as Jornadas Nacionais de Comunicação Social da Igreja, que decorreram em Lisboa a 28 e 29 de Setembro, abordaram questões relacionadas com as redes sociais.

Os diversos especialistas, de forma pragmática, foram encaminhando o auditório até ao mundo dos “média” sociais. Não foi uma viagem fácil, nem segura. Em diversos momentos, a sensação era a de estar num barco à deriva em alto mar, ou num avião em tentativa de aterragem na Madeira em dia de ventos fortes!  A realidade é que estamos perante um mundo novo, com uma particular linguagem, economia e ética.

Os dispositivos móveis, com cada vez mais potencialidades, ocasionam permanentes mudanças sociais e culturais difíceis de avaliar, já que as tentativas de análise não conseguem acompanhar a rapidez das evoluções tecnológicas.

Estar nas redes sociais é hoje uma obrigação para a Igreja: estamos disso conscientes. Para um elevado número de pessoas, os espaços de socialização são, de facto, os digitais. Passam muito mais tempo em interacção com o outro através dos meios virtuais, do que em contacto direto. Todos nós já nos sentimos ignorados, em algum momento, diante de alguém que constantemente consulta o telemóvel (phubbing). As plataformas das redes sociais tornaram-se lugares absorventes de partilha de ideias, pensamentos e afetos. A Igreja não pode ignorar esta nova “vinha” do Senhor, que precisa ser cultivada.

Inculturar o Evangelho no “continente” digital é um grande desafio para uma instituição habituada mais a falar, do que a escutar. As redes sociais, baseadas na partilha de informação, convidam-nos a uma atitude, humilde e franca, de escuta das diferentes opiniões, sem a pretensão de nos impormos. Isto, sem sermos absorvidos por uma cultura global, que tende a fazer desaparecer as diferenças e a uniformizar o pensamento.

Faz parte da dimensão profética da Igreja alertar para alguns perigos das redes sociais. A total descentralização da informação das fontes credíveis só agora começa a apresentar os primeiros sintomas de doença, com as chamadas “notícias falsas” (fake news). Neste âmbito, o Papa Francisco escolheu como tema de debate no Dia Mundial das Comunicações do próximo ano: “Notícias falsas e jornalismo de paz”.  As opiniões, que se fazem passar por factos, facilmente se tornam “verdades” que as massas assimilam. As falsas notícias, para além de distorcerem a realidade e instrumentalizarem os factos, também criam confusões e divisões, aumentando o fenómeno da “tribalização”, ao filtrar a informação a que temos acesso: vemos só o que é publicado dentro do grupo da nossa tribo. Não nos é permitido ver para além do muro do nosso grupo. Aliás, quem não partilha as mesmas ideias pode ser facilmente excluído.

Um jornalista norte-americano associou as redes sociais a uma “cultura do coliseu”, no qual se atiram pessoas aos leões sem misericórdia. Incluem-se, neste espectro de perigos, desde os dependentes da “rede” – obsessivos com o número de seguidores,  “gostos” (likes) e comentários; até aos que são vítimas de todo o tipo de violência e ameaças – bullying, chantagem ou extorsão.

Os jovens, como “nativos digitais”, terão um papel determinante no anúncio da Palavra de Deus nas redes sociais. No Evangelho de S. Mateus, Jesus diz: “Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos”. Acreditamos que estes novos missionários, apesar dos perigos, sairão vencedores.