Entrevista: P. Ignácio Rodrigues fala sobre a benção do novo orgão da Sé

No dia 13 de outubro será benzido o novo orgão da Sé do Funchal, por ocasião da celebração dos 500 anos da dedicação da Catedral. O P. Ignácio Rodrigues, Vigário Paroquial da Sé, Mestre de Capela e Responsável da Música Sacra na Diocese explica ao Jornal da Madeira como vai decorrer a benção do novo orgão e fala sobre a “Missa brevis” que compôs para dois orgãos e coro mixto.

Jornal da Madeira – Como surgiu o projeto de construção de um novo órgão?

P. Ignácio – O projeto surge com o intuito de deixar uma marca comemorativa dos 500 anos da dedicação da nossa Sé do Funchal. Poderíamos deixar outra marca comemorativa, mas achamos que durante estes 500 anos foi também marcante a celebração da liturgia cantada na nossa sé, que manifesta a fé do nosso povo.

Com este instrumento, queremos também incentivar a nossa diocese à formação litúrgica e da música sacra. Criar a sensibilidade para a liturgia e para o ministério do organista na celebração litúrgica.

Jornal da Madeira – Porque a preferência pela construção de um novo órgão e não simplesmente comprar um órgão?

P. Ignácio – A preferência de construir um novo órgão de raiz para a liturgia tem a ver com a possibilidade de ser um órgão, mesmo com capacidade solística concertista, construído para a liturgia. Tem acontecido em várias dioceses de Portugal adquirirem órgãos já construídos para outras igrejas da Europa, mas não cumprem a 100 por cento a sua função. Algumas vezes o seu restauro é mais dispendioso. Não são construídos para o recinto em questão. A sua entonação, características não se adaptam ao novo local e a liturgia. Com a possibilidade de construir um órgão novo, a entonação, registos, sonoridade são tidos em conta. E formam assim o equilíbrio necessário para a sustentação do canto na liturgia.

Jornal da Madeira – Quais os requisitos apresentados pela Sé do Funchal ao organeiro na construção do novo órgão?

P. Ignácio – Várias empresas colaboraram com a Organaria de Dinarte Machado, a Serralharia Arnaldo Batalha, Marcenaria Bon Organum, J. F. Organ Pipes e a J. M. S. Todas trabalharam para que este projeto cumprisse com o objetivo da construção de um órgão novo pensado principalmente para a liturgia. Mesmo que possa ser usado em concertos, os registos são minuciosamente estudados e construídos de forma que seja o sustento no canto litúrgico.

        Foi também pedido que a construção deste instrumento se inserisse na arquitetura da nossa catedral.

Este instrumento tem a possibilidade de se deslocar a partir de um eixo rotativo, manual ou elétrico, para ficar voltado para a capela-mor. Assim terá uma presença mais direta com a assembleia nas celebrações litúrgicas ou nos concertos.

Jornal da Madeira – Como vai ser feito a inauguração do novo órgão?

P. Ignácio – A bênção do órgão será no dia 13 de outubro pelas 21h00. O rito da bênção terá duas partes. A primeira parte o Sr. Bispo após a leitura da palavra de Deus e o canto do salmo procederá a bênção do mesmo. Depois por ele ou por alguém designado para esse fim, temos um pequeno diálogo com o órgão. Onde é pedido ao órgão que:

  • Celebre Jesus Cristo, nosso Senhor, morto e ressuscitado por nós.
  • Que cante ao Espírito Santo cujo sopro anima as nossas vidas.
  • Que sustente os nossos cânticos e nossas súplicas até Maria Mãe de Jesus, Mãe de Deus.
  • Que perscrute as aspirações da assembleia do povo de Deus, para orientá-la com gratidão para Cristo.
  • Que Traga o conforto da fé àqueles que sofrem.
  • Que sustente as orações de todos os crentes.

Após cada frase há uma improvisação pelo organista Filipe Veríssimo. Assim, o órgão é chamado a estar presente em toda a vida litúrgica da assembleia crista.

Jornal da Madeira – Quais as peças musicais apresentadas e porquê?

P. Ignácio – Neste mesmo dia 13 de outubro celebramos o encerramento do centenário das aparições da Virgem Maria em Fátima. Queremos associar este momento vivido em Fátima e em todo o Portugal com os 500 anos da dedicação da nossa catedral. Assim, as peças tocadas, com o coro Ensemble Vocal Regina Pacis e o coro infantil do  gabinete expressão musical e multimédia, tem como objetivo estarmos ligados neste sentimento único que vivemos em Fátima.

Outra particularidade é que cada um dos 16 registos é dedicado a um santo que temos representado na nossa catedral.

1 – Santíssima Trindade / 2 – S. Tiago Menor / 3 – Virgem Maria / 4 – São José / 5 – Santo Agostinho / 6 – São João Evangelista / 7 – São João Batista / 8 – Santo Ambrósio / 9 – São Roque / 10 – São Bento / 11 – Santo Amaro / 12 – Santa Rita / 13 – São Simão / 14 – São Judas Tadeu / 15 – São Crispim / 16 – São Crispiniano.

Segue-se alguns cânticos marianos intercalado com peças no órgão e por fim cantamos todos o cântico sobejamente conhecido – A treze de maio. Chamando assim a toda a assembleia presente a participar.

No dia 14 haverá um concerto pelo Coro da Catedral.

No dia 18, pelas 18h30, temos a celebração litúrgica da dedicação ou sagração do altar-mor da capela-mor.

Para esta celebração eucarística, compus uma Missa Brevis para dois órgãos e coro mixto. Será cantado pelo Coro de Câmara da Madeira e com os dois organistas: Filipe Veríssimo e Nélson Quintal.

É uma festa de todo o povo cristão da nossa ilha. Cinco séculos da fé de um povo. Somos todos convidados a louvar e a agradecer a Deus estes cinco séculos da nossa catedral.