Os leigos também são Igreja

Opinião

A diocese do Funchal celebra este sábado, 30 de setembro, a tradicional Assembleia das Direções dos Secretariados, Movimentos e Obras Laicais, presidida pelo bispo diocesano, D. António Carrilho. O programa está inserido no plano pastoral 2016-2017 e visa sobretudo consciencializar os leigos sobre a temática do próximo plano pastoral diocesano: “Diocese: Igreja jovem com os jovens”.

Desta forma são chamados todos os Movimentos de Apostolado dos Leigos, devidamente organizados e reconhecidos, a formarem um bloco de unidade na dinâmica pastoral em que estão empenhados e ativos o Bispo, os sacerdotes, os religiosos e também os leigos, como parte essencial e decisiva da mesma Igreja.

É hora de recordar que os leigos também são Igreja e por conseguinte, têm não só o dever, mas sobretudo o direito de serem ouvidos e tidos em conta nas granes questões eclesiais. Assim o proclama o mesmo Concílio Vaticano II: “(…) O sagrado Concílio volta de bom grado a sua atenção para o estado daqueles fiéis cristãos que se chamam leigos. Com efeito, se é verdade que todas as coisas que se disseram a respeito do Povo de Deus se dirigem igualmente aos leigos, aos religiosos e aos clérigos, algumas, contudo, pertencem de modo particular aos leigos, homens e mulheres, em razão do seu estado e missão; e os seus fundamentos, devido às circunstâncias especiais do nosso tempo, devem ser mais cuidadosamente expostos. Os sagrados pastores conhecem, com efeito, perfeitamente quanto os leigos contribuem para o bem de toda a Igreja. Pois eles próprios sabem que não foram instituídos por Cristo para se encarregarem por si sós de toda a missão salvadora da Igreja para com o mundo, mas que o seu cargo sublime consiste em pastorear de tal modo os fiéis e de tal modo reconhecer os seus serviços e carismas, que todos, cada um segundo o seu modo próprio, cooperem na obra comum. Pois é necessário que todos, «praticando a verdade na caridade, cresçamos de todas as maneiras para aquele que é a cabeça, Cristo; pelo influxo do qual o corpo inteiro, bem ajustado e coeso por toda a espécie de junturas que o alimentam, com a ação proporcionada a cada membro, realiza o seu crescimento em ordem à própria edificação na caridade (Ef. 4, 15-16). (GS, 30).

E logo a seguir, acrescenta: “Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e atividade terrena, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência. São chamados por Deus para que, aí, exercendo o seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como o fermento, e deste modo manifestem Cristo aos outros, antes de mais pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé, esperança e caridade. Portanto, a eles compete especialmente, iluminar e ordenar de tal modo as realidades temporais, a que estão estreitamente ligados, que elas sejam sempre feitas segundo Cristo e progridam e glorifiquem o Criador e Redentor.”.

Ainda está bem fresco na nossa memória o trabalho apostólico dos leigos na Madeira, durante os anos áureos da Ação Católica, nas décadas de 50, 60 e 70, em que realmente os leigos foram para a sociedade como o fermento para a massa.

O Papa Francisco não cessa de realçar o papel relevante dos leigos católicos na sociedade civil e os problemas que lhe causam o clericalismo.

O mais recente foi na reunião com os Bispos ordenados durante o último ano, em que alertou para o fenómeno como “uma peste na Igreja”.

No regresso de Fátima a Roma, na Conferência de imprensa a bordo do avião, quando questionado sobre o facto de Portugal ser um país de maioria católica, mas que aprova a legalização do aborto e tem em curso um processo legislativo sobre eutanásia, Francisco respondeu que esse é um problema político, mas também de formação, acrescentando textualmente: “Mostra que também a consciência católica não é uma consciência de pertença total à Igreja. Revela que, por detrás disso, não há uma catequese humana. O catecismo da Igreja Católica é o exemplo do que é uma coisa séria e estruturada. Falta formação e também cultura: são muito católicos, mas são anticlericais e mata-frades. Este é um fenómeno que me preocupa. Por isso, digo aos sacerdotes que fujam do clericalismo, porque o clericalismo afasta as pessoas e, até acrescento, é uma peste na Igreja”.

Mas já a 26 de abril de 2016, em carta enviada ao Cardeal Marc Quellet, a propósito dos leigos latino-americanos, afirmara que “A Igreja não é uma elite de sacerdotes” e o Espírito Santo “não é ‘propriedade’ exclusiva da hierarquia eclesial”, que deve sempre “encorajar” e “estimular” os esforços que os leigos fazem para testemunhar o Evangelho na sociedade.

E acrescentava: “Jamais deve ser o pastor a dizer ao leigo aquilo que deve fazer e dizer, ele o sabe tanto quanto e melhor do que nós. Não é o pastor que deve estabelecer aquilo que os fiéis devem dizer nos vários âmbitos.”

Sobre o clericalismo, afirma na mesma carta: Uma das “maiores deformações” da relação sacerdote-leigo, é o “clericalismo” que, de um lado, anulando “a personalidade dos cristãos” e diminuindo “a graça batismal”, acaba, de outro lado, por gerar uma espécie de “elite laical”, na qual os leigos parecem ser “tão somente aqueles que trabalham em ‘coisas dos padres’”.

Ressalta ainda Francisco que a “nossa primeira e fundamental consagração tem suas raízes em nosso Batismo. Ninguém foi batizado padre nem bispo. Fomos batizados leigos e é o sinal indelével que ninguém jamais poderá eliminar”.

Sobre a frase feita de que chegou a “Hora dos Leigos”, lamenta que em alguma circunstância o “relógio tenha parado”. E recorda o Concílio Vaticano II: “A Igreja não é uma elite de sacerdotes, de consagrados, de bispos”, mas “todos formamos o Santo Povo fiel de Deus” e portanto, “o facto que os leigos estejam trabalhando na vida pública” significa para bispos e sacerdotes “buscar o modo para poder encorajar, acompanhar” todas “as tentativas e os esforços que hoje já são feitos para manter vivas a esperança e a fé num mundo repleto de contradições, especialmente para os mais pobres, especialmente com os mais pobres”.