Entrevista a Maria Marques. Encerramento da casa das Cooperadoras da Família na Madeira

Instituto Secular das Cooperadoras da Família vai continuar a sua obra na Diocese.

O Instituto Secular das Cooperadoras da Família vai encerrar a Casa na Diocese do Funchal. A casa fecha mas a obra continua. O Jornal da Madeira falou com a Maria Marques Antunes, que dedicou 17 anos do seu apostolado às famílias da Madeira.

Jornal da Madeira – Embora a casa não esteja aberta, não haja uma presença constante das Cooperadoras da Família, no entanto a Obra continua…

Maria Marques – Exatamente. A Obra vai continuar aqui na Madeira. Fecha-se a porta, mas a as atividades vão manter-se igualmente. Os encontros e reuniões do Movimento de Casais ficam a funcionar na paróquia da Nazaré; e as associadas e mensageiras da Família, no Convento de Santa Clara. Isto sempre no segundo sábado e no segundo domingo de cada mês. Sentimos que é urgente este dinamismo dos grupos, que poderão congregar uma força unitária entre todos eles. Como este ano nós escolhemos, para aprofundar a comunhão na missão, entrar neste dinamismo de comunhão a nível carismático é empreender ao mesmo tempo um caminho de humildade, de desprendimento, de nos esquecermos de nós próprios, para cada um se dar mais e mais ao outro.

É viver com responsabilidade este desafio que o próprio fundador, Monsenhor Joaquim Alves Brás, incutiu a cada Cooperadora da Família. É viver conscientemente de que é urgente evangelizar a família. É viver atenta a todas estas necessidades que a família reclama, pedindo a Deus a graça de realizar a missão confiada e dando passos contínuos neste crescer na família.

É um caminho e também será uma experiencia piloto porque a nossa missão tem de ser alargada a outros membros, porque a situação das cooperadoras assim sugere, umas estão a ficar doentes, outras a partir para a casa do Pai, e sentimos necessidade de alargar a nossa missão.

Jornal da Madeira – Qual o projecto para este novo ano pastoral?

Maria Marques – O tema é “preparação e missão”. A este propósito, lembramos a Carta de São Paulo aos Romanos- “tende vós os mesmos sentimentos”, pois, só o espírito de comunhão reflete o mistério de Deus e o mistério da Igreja perante a realidade da vida e a própria realização de cada uma de nós, no nosso carisma, concretamente. A missão torna-nos testemunhas do Amor da Trindade e reflete o nosso carisma da Sagrada Família de Nazaré, que é a fonte e o nosso alimento de espiritualidade.

Neste contexto atual, são vários fatores que nos obrigam a repensar a sustentabilidade do carisma nos seus diferentes componentes: o fator humano, organizacional e patrimonial. Da conjuntura, neste equilíbrio dos fatores, depende uma verdadeira gestão sustentável aos vários níveis, mesmo podendo associar-se a outros colaboradores, como vai acontecer concretamente aqui, na Madeira. A realização do carisma e a sua atualização reclamam a presença de vários membros aqui.

Ficarão as mensageiras, o Movimento por um Lar Cristão, as associadas da Obra de Santa Zita e os responsáveis pelos oratórios da Sagrada Família.

Concretamente, viremos cá, ou um elemento do Conselho, ou eu própria, para dar um pouco de orientação a esses grupos.

Jornal da Madeira – Significa também uma maior participação dos leigos nas atividades dos grupos em que estão associados, pode ser um sinal dos tempos este convocar os leigos que possam orientar e promover encontros, diálogo e partilha, porque há muitos leigos que sentem um chamamento e têm essa capacidade.

Maria Marques – Precisamente. Já estamos a fazer essa experiência, já nos encontramos com os responsáveis dos grupos e eles estão com esperança de que vão dar o seu melhor neste caminhar em missão, procurando dialogar com todas as componentes culturais, fazendo esta comunhão de critério inspirador de vida e de ação.

Acima de tudo, é integrar estas estruturas sociais e eclesiais com uma consciência de quem se sente enviado e de quem é chamado a ser como é própria da natureza da consagração secular, fermento de comunhão nesta massa humana.

Jornal da Madeira – Quanto tempo esteve a desenvolver a sua missão na Madeira?

Maria Marques – Estive, e ainda estou, por duas vezes: a primeira, durante 4 anos; e a segunda há 13 anos; no total, são 17 anos de vida aqui na diocese do Funchal que carrego no coração com muita saudade.

Jornal da Madeira – De tudo quanto viveu aqui, o que encontrou de mais característico ou de diferente na nossa diocese?

Maria Marques – Pois, as dioceses são todas diferentes, agimos de modo diferente, mas aqui eu vejo que são pessoas doadas, com desejo de crescimento e de acolhimento, por isso são muito gratas as recordações que levo desta diocese na linha da simplicidade, do estar, do serviço, da amizade, foi muito bom.

Jornal da Madeira – Por outro lado, como vê os desafios da família hoje, no mundo em geral, e que tipo de ações deveria ser realizado mais na nossa diocese, por exemplo, para melhor se evangelizar a família, como tanto fala o Papa Francisco?

Maria Marques – Estou certa de que terá de ser em pequenos grupos. As grandes massas não estão despertas para acolher a mensagem sobre a família.

Teremos de evangelizar através de pequenos grupos e cada paróquia deve dar o seu melhor.

Por vezes, gastamos muito tempo em muitas festas populares, também é necessário, mas o fundamental nem sempre entra e precisamos de investir aí.

Jornal da Madeira – Com mais formação?

Maria Marques – Precisamente. Levar esses grupos a terem consciência de que é preciso crescer nos valores da família, muitos dos quais estão esquecidos. Na recente peregrinação que fizemos à Irlanda, procuramos fazer todos os dias uma grande evangelização, porque as pessoas estão dispostas a acolher e sente-se, realmente, o pouco que existe na linha de valores; dizia-se, “nunca tinha pensado nisso”, “nunca tive tempo para me debruçar sobre esses assuntos”, mas vamos puxando e brincado, e o que é certo é que as pessoas acolhem. Isso revelou-se no final da peregrinação, o quanto as pessoas refletiram, gostaram de participar nesta atividade.

Penso que uma peregrinação bem organizada é um bom meio de evangelizar.

Jornal da Madeira – Falando ainda da missão das Cooperadoras da Família na Madeira, houve situações que exigiram um maior empenho da vossa parte? Sabemos que nas paróquias, às vezes, as pessoas gostam de participar uma ou outra vez, mas aquela responsabilidade de fazer uma caminhada já é mais difícil, sentiu isso?

Maria Marques – Tenho sentido isso ao longo do tempo. Quando as pessoas são contatadas, não têm tempo, é sempre a mesma palavra, não têm tempo. Depois, quando fazem a experiência, já acham uma maravilha e gostam de crescer. Mas, até chegar aí, é muito difícil acolherem. Porque não têm tempo, acham também que não precisam destas coisas. Só quando param e sentem que estão vazias por dentro, então começam a acolher um outro tipo de formação a nível da evangelização.

Jornal da Madeira – Em relação ao início da presença das Cooperadoras da Família na diocese do Funchal, como é que esta aventura começou?

Maria Marques – São duas vertentes que só fazendo a experiência. O princípio é sempre muito difícil, porque é caminhar no vazio.

Tivemos muitas dificuldades, disso posso testemunhar, porque participei no início e agora participo no fim, o que é um pouco duro, mas para mim foi mais desafiante o início, agora é mais difícil.

Jornal da Madeira – O início carrega um sonho, um projeto, a própria época também era diferente. Mas, como vieram para a Madeira?

Maria Marques – Viemos a convite do padre Alberto Sousa, que estava como pároco em São Gonçalo, e o senhor bispo D. Teodoro de Faria pediu-lhe para assumir as reuniões das empregadas domésticas. Ele acolheu e verificou que era uma classe muito desprotegida. Então, com o dinheiro das associadas e o apoio do governo, construíram a casa que agora vamos fechar. Com a casa construída, pediram à direção geral das Cooperadoras da Família que viessem para cá e que mobilassem a casa a seu gosto. Foi para nós uma surpresa muito grande e a coordenadora geral, Maria Otília, que está agora no Brasil, disse “nem pensar, não temos grupo para ir para a Madeira”.

Eu, que estava na direção geral da Obra nessa altura, disse que não íamos dar esse desgosto a um sacerdote que teve tanto cuidado e preocupação em construir uma casa, é melhor irem ver como está a situação. Vieram e não tiveram coragem de dizer que não. Adiantaram uma verba para acabar a casa e a partir da aí vieram duas cooperadores, a Adozinda e a Salete, depois fizeram um grupo de três.

Após um ano e pouco, vim eu para cá, para encerrar um curso no Bairro da Palmeira, em Câmara de Lobos, e foi-me pedido que ficasse, onde iniciámos também um curso no Bairro da Nazaré, e assim prosseguimos. Fiquei quatro anos, enquanto duraram os cursos que eram apoiados pelo Fundo Social Europeu.

No ano 2000, abrimos uma Escola no edifício da Universidade Católica (junto à Igreja do Colégio), onde continuamos os cursos do nível 4, que encerraram em 2016, por falta de verbas.

A partir daí, tivemos de reconsiderar a nossa presença cá; e porque temos muitas atividades no Continente, em que as Cooperadoras fazem muita falta, o Conselho Geral solicitou e falando com o senhor bispo (D. António Carrilho) informou que não havia hipótese de continuar aqui com esta casa aberta.

Jornal da Madeira – Qual é a missão que lhe foi agora atribuída?

Maria Marques – O Conselho Geral, pensando um pouco nas grandes dificuldades que estão a surgir a nível da terceira idade, em que se prepara um pouco a partida para a casa do Pai, achou muito importante uma pessoa dedicar-se aos vários fatores da preparação desta partida, de aproveitar o tempo, nos lares, centros de dia e nos domicílios, e fazer encontros específicos para estas pessoas ligadas a estas instituições. Então, a coordenadora geral pediu-me para me dedicar a ajudar estes idosos que muitas vezes morrem sem ter um apoio moral e espiritual, e é isso que vou tentar fazer.