Entrevista: Padre Mário Sousa: “A verdadeira oração do discípulo de Jesus é a escuta do Mestre”

O P. Mário Sousa - Casa de Retiros, Terreiro da Luta

O P. Mário Rodrigues de Sousa foi convidado pela Diocese do Funchal para orientar o Retiro do Clero que decorreu na Casa de Retiros no Terreiro da Luta entre os dias 4 a 8 deste mês de Setembro. O Jornal da Madeira foi ao encontro deste sacerdote especialista no estudo da Sagrada Escritura e Presidente da Associação Bíblica Portuguesa.

 – Jornal da Madeira: Pe. Mário, como decorreu o retiro para o clero, estes dias, na Madeira?

– Pe. Mário Sousa: Com muita serenidade, interioridade; o ambiente também ajudou, como o grupo não era grande, houve muita partilha e encontros com o Senhor e entre nós.

“nós que temos o hábito tão grande de falarmos nas nossas orações, habituarmo-nos sobretudo a escutar”

– Jornal da Madeira: Em que se baseou a estrutura temática ou o desenvolvimento das reflexões?

– Pe. Mário Sousa: Foi a partir do evangelho de Marcos. Este evangelho apresenta-nos um grupo de discípulos sempre intimamente unido a Jesus; é o evangelista que, por excelência, nos apresenta o caminho de Jesus e o caminho de discípulo. A nossa reflexão partiu deste tópico fundamental: o nosso caminho, enquanto discípulos, é o caminho de Jesus. E fazemo-lo, de modo particular, no confronto do que somos e do gostaríamos de ser com o que o Senhor Jesus nos pede, o projeto de construção que Ele apresenta para todos os que o querem seguir com fidelidade e com verdade.
Além das reflexões, procuramos fazer a Lectio Divina, ou seja, colocarmo-nos diante da Palavra, e nós que temos o hábito tão grande de falarmos nas nossas orações, habituarmo-nos sobretudo a escutar. A Lectio Divina tem, de facto, esta grande mais- valia espiritual que é de nos pormos a escutar o Senhor, em vez de falarmos.

– Jornal da Madeira: A nível da vida cristã, o lugar da Palavra de Deus ocupa um lugar importante. O mesmo deve ser na ministério do sacerdote?

– Pe. Mário Sousa: Refletindo sobre o evangelho de Marcos, nunca encontramos os discípulos a orar, encontramos os discípulos com Jesus, exceto quando Jesus entra em intimidade com o Pai, porque o oração de Jesus é diferente da nossa oração. Marcos apresenta-nos a verdadeira oração do discípulo de Jesus, é a escuta do Mestre, ou seja, os discípulos estão em constante intimidade com Jesus, escutando aquilo que Ele diz e confrontando a sua vida com essa que é a Palavra do Senhor. Ora, naturalmente, para o sacerdote a Palavra de Deus é alimento diário, porque é a Palavra de Deus que nos ilumina, e como diz o salmo 118 “é farol para os nossos passos”. Sem ter tempo para me colocar aos pés do Senhor, para O escutar, para deixar que Ele me fale, dificilmente a minha missão será a missão de Jesus, será minha, mas muitas vezes não será aquilo que Jesus quer, mas o que eu quero. Para poder ter este tempo de discernimento, para poder, de facto, cumprir com a vontade de Deus, é preciso sentar-me e dar tempo para que o Senhor me possa dar o discernimento, me possa iluminar e indicar o caminho.

“Marcos apresenta-nos a verdadeira oração do discípulo de Jesus, é a escuta do Mestre”

– Jornal da Madeira: O sacerdote, como pastor de comunidade e com vivências junto do povo de Deus, como pode transmitir também o conhecimento da Palavra de Deus na vida comunitária, no crescimento da vida cristã, como pode levar essa experiência da escuta do Senhor na vida paroquial?

– Pe. Mário Sousa: A oração da escuta também se aprende. A chamada Lectio Divina tem uma técnica própria e é importante como instrumento que nos ajuda a rezar e, sobretudo, a saber escutar, que é uma grande dificuldade que temos. A nossa oração é palavrosa, parte muito de nós e acabamos por dar pouco tempo a Deus para que Deus nos fale. Ele conhece muito bem o que temos cá dentro. Nós precisamos dar tempo para que o Senhor nos possa iluminar, para que nos possa perceber, de acordo com a Sua bondade e amor, com a Sua luz, perceber o que temos no coração. Para isso, não basta a eucaristia dominical; ela é o cume, a fonte, mas depois é preciso que tenhamos outros momentos, onde o encontro com a Palavra seja mais demorado e possa também, em pequeno grupo, ser um encontro partilhado. Para isto, acho importantíssimo habituarmo-nos a ter nas paróquias grupos de Lectio Divina, ou seja, do estudo da Palavra em primeiro lugar, o que é que a Palavra diz, para a seguir perceber o que o Senhor através daquela Palavra me diz; e isto faz toda a diferença porque, a partir do momento em que me habituo a escutar a Palavra, a minha vida ganha outra dimensão; é a mesma, com os mesmos problemas, com os mesmos aborrecimentos e esperanças, mas diferente porque iluminada com a sabedoria que nos vem da Palavra de Deus.

“A nossa oração é palavrosa, parte muito de nós e acabamos por dar pouco tempo a Deus para que Deus nos fale (…) Nós precisamos dar tempo para que o Senhor nos possa iluminar”

– Jornal da Madeira: Qual a importância do retiro para a vida cristã e para o sacerdote?

– Pe. Mário Sousa: Em tudo na vida precisamos de ter momentos de paragem e de avaliação. Há necessidade de, em todas as circunstâncias e em todos os aspetos da nossa existência, daquilo que somos, de pararmos, de pensarmos, de revermos e de projetarmos, também na nossa vida espiritual e em nós sacerdotes, na nossa vida pastoral. É preciso que tenhamos a coragem de parar de vez em quando e de nos perguntarmos diante de Deus se aquilo que fazemos e aquilo que somos é aquilo que Jesus quer. Para isto, é preciso ter ambiente e o retiro é precisamente este espaço de silêncio e também de comunidade, onde em conjunto damos espaço a Deus para que nos faça à luz do carinho e da misericórdia que tem para connosco ajudar a revermos não só a nossa vida pessoal, como o nosso ministério e a nossa vida pastoral.

– Jornal da Madeira: Pe. Mário, qual tem sido a sua missão na Associação Bíblica Portuguesa?

– Pe. Mário Sousa: A Associação Bíblica, neste momento, tem um grande desafio, um anseio já antigo, que é o de uma nova tradução para a liturgia, para a catequese, ou seja, um texto que possa ser o mesmo texto nas diversas circunstâncias do viver das comunidades. Por isso, desde há cinco anos, estamos bastante envolvidos nesta tradução. Os livros da Bíblia foram entregues a diferentes biblistas, quer de Portugal, quer dos PALOP (Países de língua oficial portuguesa), precisamente para que seja o mais abrangente possível e, com o contributo do maior número possível de exegetas e biblistas, façamos o melhor que pudermos.
Neste momento, estamos a ultimar a tradução do texto dos quatro evangelhos e também a revisão dos Salmos, do Antigo Testamento, precisamente para que se possa fazer uma edição experimental e sentir, de facto, como aquela Palavra é recebida e sentida por aqueles que são os verdadeiros destinatários da Palavra de Deus, que é o Seu povo, para que esta tradução não seja apenas um trabalho académico, mas seja, sobretudo, um trabalho de vida existencial, uma Palavra que não é apenas letra morta, mas que é, sobretudo, Palavra viva, porque é Palavra de Deus. Portanto, neste momento, a Associação Bíblica e todos os seus associados estão muito envolvidos nesta dimensão. Além disso, queremos depois, na medida do possível, começar a publicar comentários mais desenvolvidos a cada um dos livros, para que essa tradução possa ser acompanhada por explicações que ajudem a penetrar ainda mais no sentido profundo daquilo que a Palavra diz.

– Jornal da Madeira: Da sua parte, sabemos que publicou uma obra sobre o evangelho de João, mas há mais projetos para o futuro?

– Pe. Mário Sousa: Os projetos existem, a dificuldade está no tempo, porque entre a paróquia, que é muito grande e absorvente, as aulas em Évora, que obrigam a deslocações semanais, (230 km para cada lado), e mais outros trabalhos nos vários dias na semana, os projetos acabam por ficar um pouco à espera. Mas, de facto, gostaria de publicar um outro livro de Lectio Divina, para ajudar também as comunidades a ganharem gosto por esta oração da escuta a partir da Palavra, sob o olhar de Jesus no Evangelho de Marcos. Um outro projeto seria uma edição de um comentário simples sobre o Livro do Apocalipse, que é um livro tão bonito, mas, por vezes, é mal amado porque não é bem percebido; e um outro que é um desejo antigo, que foi tema da minha tese de doutoramento, que era um comentário ao evangelho de João. Mas, como outras coisas são agora prioritárias, têm ficado em lista de espera.